Copa do Mundo
Além das quatro linhas
Confronto de hoje entre Argentina e Inglaterra reacende memória da Guerra das Malvinas
Um jargão do esporte diz que "não é só futebol". Muitas vezes, o jargão é verdadeiro: não é só futebol. A rivalidade entre Argentina e Inglaterra é um desses casos; está muito longe de ser "apenas" futebol. Na Argentina, é comum dizer que o Brasil é um adversário, mas a Inglaterra é um inimigo. O conflito é tão intenso que até medidas especiais de segurança na cidade e no estádio estão sendo consideradas para o jogo da tarde desta quarta-feira (15). A Fifa informou que existe a possibilidade de as torcidas serem separadas.
Mas o que causou isso?
A resposta é tão complexa quanto simples: a Guerra das Malvinas. A confusão já começa no nome. As mesmas ilhas chamadas de Malvinas pelos argentinos são conhecidas como Falklands pelos britânicos.
O professor de história e membro da Academia Sorocabana de Letras, Henrique Cavalcanti, explica o contexto: "Inicialmente ocupadas por argentinos, foram tomadas pelo Império Britânico em 1833, pois, no século 19, os mares eram amplamente dominados por esse poderoso império e sua marinha".
As Malvinas são um pequeno arquipélago localizado ao sul da América do Sul, a cerca de 500 quilômetros da costa argentina e a aproximadamente 940 quilômetros da região subantártica das Ilhas Shetland do Sul, próximas à Antártida. A posição é estratégica para o controle de um trecho marítimo que liga os oceanos Atlântico e Pacífico.
Conflito
Desde então, a Argentina jamais deixou de reivindicar a soberania sobre o arquipélago. Em 1982, essa disputa ganhou um novo capítulo. O país era governado pela ditadura militar do general Leopoldo Galtieri.
Os militares argentinos acreditavam que a retomada das ilhas seria rápida e praticamente sem reação britânica. A avaliação parecia lógica: as ilhas estavam a apenas cerca de 500 quilômetros da costa argentina e a aproximadamente 13 mil quilômetros do Reino Unido. Além disso, naquele momento, o antigo Império Britânico já não possuía o mesmo poder do século 19.
Havia, inclusive, discussões no parlamento britânico sobre uma possível administração compartilhada das ilhas e, futuramente, até mesmo sua transferência para a Argentina, já que, na época, o arquipélago possuía pouco valor econômico conhecido.
O cálculo argentino, porém, se mostrou um grave erro político. A primeira-ministra Margaret Thatcher, que também enfrentava dificuldades internas, transformou a defesa das ilhas em uma questão inegociável de soberania nacional.
Em poucas semanas, o Reino Unido enviou uma poderosa força-tarefa composta por dois porta-aviões, centenas de embarcações e sua arma mais importante no conflito: os submarinos de propulsão nuclear.
O episódio militar mais marcante da guerra foi o afundamento do cruzador argentino General Belgrano, atingido pelo submarino britânico HMS Conqueror, como explica Henrique. Mais de 300 marinheiros argentinos morreram no ataque. Ao longo de toda a guerra, foram 649 militares argentinos mortos.
"O povo argentino nunca se recuperou da morte de seus 649 garotos", observa o professor, acrescentando que a maioria dos soldados enviados ao conflito era formada por jovens.
E o Brasil?
Na época, o Brasil também vivia sob um regime militar e, apesar dos pedidos ingleses, não cedeu qualquer tipo de apoio nem permitiu o uso de seus portos como base logística.
Na música, porém, uma referência ao conflito se tornou famosa. Em 1987, Fausto Fawcett lançou Kátia Flávia, canção que cita o míssil Exocet, fabricado pelos franceses. A arma ajudou os argentinos a afundar diversos navios britânicos durante a guerra.
Outra herança do conflito para o Brasil foi a decisão da Marinha de desenvolver um submarino de propulsão nuclear, tipo de armamento que se mostrou decisivo no conflito. As instalações de pesquisa e construção desse projeto estão localizadas em Iperó, ao lado de Sorocaba, no Centro Experimental Aramar.
As Malvinas atualmente
Anos depois, foram descobertas importantes reservas de petróleo e gás no arquipélago, alterando significativamente sua relevância econômica. As ilhas deixaram de representar apenas um símbolo de orgulho nacional britânico para se tornarem um ativo estratégico.
Por ironia, devido à enorme distância do Reino Unido e aos desafios logísticos da exploração, a produção em larga escala depende de infraestrutura costeira próxima ao continente sul-americano, mantendo a Argentina como um ator relevante na dinâmica regional.
Revanche
Os argentinos sentem a perda das ilhas e de seus soldados até hoje. A primeira "revanche" veio em um campo de futebol, na Copa do Mundo de 1986, coincidentemente disputada no México.
Naquela ocasião, Diego Armando Maradona marcou dois gols sobre a Inglaterra. Um deles entrou para a história: o famoso gol de mão, eternizado como "La Mano de Dios". Segundo a narrativa popular argentina, não foi a mão de Maradona que tocou na bola, mas a de Deus, vingando simbolicamente os mortos na guerra. A Argentina conquistaria o título mundial naquele ano.
Na Copa de 2026, 40 anos depois, um novo capítulo dessa rivalidade está marcado. Argentina e Inglaterra voltarão a se enfrentar. Maradona já não está presente, mas outro gênio argentino, vestindo a camisa 10, promete liderar a equipe diante do adversário histórico: Lionel Messi.
O confronto está marcado para as 16h, em Atlanta. O vencedor enfrentará a Espanha na decisão de domingo (19), enquanto o derrotado disputará o terceiro lugar contra a França, no sábado (18).