Copa do Mundo
O que faltou para o Brasil contra a Noruega?
Técnicos ouvidos pelo Cruzeiro opinam sobre como a seleção jogou e deveria ter jogado para não ser eliminado
A derrota do Brasil por 2 a 1 para a Noruega, que encerrou a participação da seleção nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, repercutiu entre profissionais do futebol de Sorocaba e região. Para treinadores ouvidos pela reportagem, a eliminação foi construída por uma série de fatores que vão além do resultado de um único jogo e passam por escolhas táticas, planejamento da seleção e até pela perda das características históricas do futebol brasileiro.
O Brasil teve a oportunidade de sair na frente logo aos 14 minutos do primeiro tempo, mas Bruno Guimarães desperdiçou um pênalti defendido pelo goleiro Nyland. Na etapa final, a Noruega aproveitou os espaços deixados pela defesa brasileira e contou com a estrela de Haaland. O atacante abriu o placar aos 34 minutos, de cabeça, após cruzamento de Schjelderup, e voltou a marcar aos 45, em chute de fora da área. Neymar ainda diminuiu nos acréscimos, também de pênalti, mas a reação parou no goleiro norueguês. Com os dois gols, Haaland chegou à artilharia da Copa com sete gols e conduziu a Noruega à inédita classificação para as quartas de final.
Para o técnico do Votoraty, Kike Andrade, o principal problema esteve na postura da equipe brasileira. Segundo ele, a seleção deu liberdade para que a Noruega controlasse a partida. "A seleção respeitou demais a Noruega e deu muita liberdade. Deixou eles jogarem, terem posse de bola e não induziu o adversário ao erro. Independentemente do pênalti e do gol perdido, o Brasil ficou muito abaixo do esperado", afirma.
Kike também questionou as escolhas de Carlo Ancelotti e defendeu que a equipe deveria ter mantido suas características ofensivas. "Precisamos voltar às nossas origens. Podemos aprender com os europeus em organização e planejamento, mas nossa essência sempre foi o drible, o improviso, a ousadia e a alegria. Enquanto insistirmos em jogar como eles, continuaremos encontrando dificuldades."
Ex-treinador do São Bento, João Batista Lopes, o Abelha, entende que a eliminação começou a ser construída ainda durante o ciclo para a Copa. Para ele, as constantes mudanças na CBF e a chegada de Ancelotti apenas um ano antes do Mundial impediram a consolidação de uma equipe. "É nítida a desorganização do futebol brasileiro. Tivemos mudanças na presidência da CBF e quatro treinadores ao longo do ciclo. O Ancelotti chegou muito perto da Copa e ainda buscava encontrar a equipe ideal", explica.
Sobre o jogo diante da Noruega, Abelha acredita que a estratégia brasileira facilitou o trabalho do adversário. "O Brasil deu a bola para a Noruega e, quando recuperava a posse, não sabia o que fazer com ela. A estratégia foi totalmente errada. O futebol brasileiro foi muito pequeno diante de uma seleção que aproveitou exatamente os espaços que o Brasil ofereceu."
O técnico Vitor Hugo Tavares, o Mosca, também avalia que o confronto foi decidido nos detalhes. Para ele, a Noruega soube aproveitar as oportunidades que criou, enquanto o Brasil desperdiçou as chances mais claras da partida. "Em dois lances defensivos eles fizeram os gols. O Brasil teve o pênalti, depois a oportunidade com o Endrick e não conseguiu converter. Em Copa do Mundo, isso faz diferença."
Mosca destacou ainda que a seleção voltou a sentir falta de um jogador decisivo, algo que, na opinião dele, outras seleções têm apresentado. "Desde o último título mundial o Brasil tem excelentes jogadores, mas faltou a figura de um grande craque. Minha geração viu Romário, Bebeto, Ronaldo. Ontem (no domingo) o Haaland mostrou exatamente isso. Jogador decisivo faz a diferença em partidas grandes."
Na avaliação do treinador, a eliminação também passa pela forma como o Brasil tentou jogar durante a Copa. "O Ancelotti é um treinador vencedor, mas construiu a carreira com equipes mais reativas. Isso foge do DNA do futebol brasileiro. O erro é geral: convocação, preparação, trocas de comando e problemas de bastidores. Agora ele terá tempo para trabalhar e fazer uma reformulação, não apenas de atletas, mas também de postura e entendimento do que representa vestir a camisa da seleção."
Apesar das análises diferentes, os três entrevistados convergem em um ponto: o Brasil precisa aproveitar o novo ciclo até a Copa de 2030 para reorganizar o trabalho da seleção. Para eles, o futebol brasileiro continua produzindo talentos, mas precisará aliar planejamento, intensidade e identidade para voltar a disputar o título mundial em igualdade com as principais seleções do planeta.
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