Paixão pelo esporte
Na raça e na amizade
Há mais de oito anos, mulheres de diferentes idades e profissões se reúnem semanalmente em Sorocaba para jogar bola, fortalecer laços e manter viva a paixão pelo esporte
Toda segunda-feira à noite, uma quadra na avenida Ipanema, na zona norte de Sorocaba, recebe muito mais do que partidas de futsal. Há mais de oito anos, o local se tornou ponto de encontro de mulheres que descobriram no esporte uma forma de aliviar a rotina, cultivar amizades e manter viva a paixão pela bola.
O grupo reúne estudantes, mães, profissionais liberais, veteranas do esporte e jovens que compartilham o gosto pelo futsal. O que começou de forma simples, em uma quadra do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais, cresceu por meio das amizades e das indicações feitas pelas próprias participantes.
Hoje, cerca de 70 mulheres integram a iniciativa, organizadas em dois grupos de WhatsApp. Um deles reúne as mensalistas, responsáveis por ajudar a custear a locação da quadra. O outro é destinado às jogadoras avulsas, que participam conforme a disponibilidade de vagas.
A engenheira civil Vanessa Gomes, 40 anos, acompanha a trajetória do grupo desde os primeiros anos e atribui a longevidade do projeto ao envolvimento coletivo das participantes. “A gente reúne meninas de todos os lados de Sorocaba. Uma vai convidando a outra. Hoje temos um grupo fixo com 20 meninas e outro grupo com mais de 50”, conta.
Com o passar do tempo, o compromisso semanal foi além das quatro linhas. Segundo Vanessa, a convivência constante criou laços que permanecem fora da quadra. “Depois de tantos anos, muitas já são casadas, têm filhos e trabalham o dia inteiro. Então virou uma válvula de escape, um momento para relaxar e dar risada.”
Além de organizar o pagamento da quadra, as participantes utilizam parte dos recursos arrecadados para confraternizações, aniversários, churrascos e aquisição de uniformes. O grupo ganhou até um nome próprio: “Último Lance”.
A inspiração surgiu de uma brincadeira recorrente durante as partidas. “Tem uma menina que controlava o tempo e sempre gritava ‘último lance’ quando o jogo estava acabando. Acabou virando o nome do grupo”, lembra Vanessa.
A vocalista Ana Carla da Silva, 45 anos, participa dos jogos há cerca de uma década e afirma que o encontro semanal se tornou indispensável. “É uma terapia. Às vezes a gente pensa em desistir por causa da correria e do cansaço, mas quando fica sem jogar, sente falta.”
Para ela, um dos diferenciais do grupo é justamente a diversidade das participantes. “Aqui tem meninas mais novas, mais velhas, casadas, solteiras. O futebol junta todo mundo. E a amizade faz toda a diferença. Ninguém quer estar em um ambiente que não seja agradável.”
A organização das partidas é coordenada principalmente pela lash designer Alessandra Pereira dos Santos, 35 anos. Ela explica que, mesmo diante de eventuais divergências durante os jogos, o grupo busca manter o clima de respeito. “Todo mundo trabalha, todo mundo chega cansada e vem aqui para se divertir. Então a gente procura conversar e resolver tudo da melhor forma possível.”
Ainda segundo Alessandra, o interesse de novas participantes cresce a cada ano. “Tem bastante meninas procurando vaga. Muitas querem jogar no avulso e outras têm interesse em entrar para o grupo fixo.”
Entre as integrantes mais jovens está a estudante Luane Vitória da Silva, 18 anos. Há cerca de três anos no grupo, ela afirma que encontrou acolhimento e incentivo para desenvolver sua confiança dentro das quadras. “Quando eu era mais nova, jogava mais com os meninos e era mais complicado. Aqui fui me soltando mais”, conta.
Para Luane, a experiência também serve de incentivo para outras garotas que desejam praticar esportes, mas ainda enfrentam inseguranças. “Eu diria para elas seguirem em frente e deixarem o julgamento de lado.”
Sem páginas oficiais nas redes sociais e sem grandes estruturas de divulgação, o “Último Lance” continua crescendo principalmente pelo boca a boca. Todas as semanas, novas participantes chegam à quadra da avenida Ipanema para integrar um grupo que transformou o futsal em um espaço de convivência, amizade e troca de experiências entre mulheres de diferentes gerações.
Mais do que uma partida de segunda-feira, o encontro se tornou uma tradição que atravessa anos e segue fortalecendo o protagonismo feminino dentro e fora das quadras.