Casa nova
Kike Andrade assume projeto de longo prazo no Votoraty
A saída do treinador Kike Andrade do comando da categoria sub-20 do São Bento encerra um ciclo de 13 anos marcado por trabalho contínuo na base, revelação de atletas e desafios estruturais. Aos 63 anos, ele afirmou que o sonho de formar jogadores profissionais esbarrou, ao longo do tempo, em limitações financeiras e operacionais, realidade que, segundo ele, nem sempre é compreendida fora do ambiente interno do clube.
Em tom de desabafo, Kike destacou que a ausência de recursos básicos impactou diretamente o desenvolvimento dos atletas. “Falta estrutura, falta bola, falta fisioterapia, e mesmo assim as cobranças continuam”, reclama. O treinador, inclusive, lembrou que o São Bento disputou a Copa São Paulo de Futebol Júnior 2026 com o menor orçamento da competição, o que, na sua avaliação, dificultou a atração de jogadores e a consolidação de um trabalho mais competitivo.
Kike revelou ainda que, durante o período à frente da categoria, precisou investir recursos próprios para manter o elenco em condições de jogo, incluindo gastos que ultrapassaram
R$ 100 mil em cirurgias de atletas. Para ele, o insucesso esportivo acaba recaindo, quase sempre, sobre a comissão técnica. “As pessoas não sabem como as coisas funcionam dentro do clube. O resultado negativo sempre respinga no treinador”, afirma.
Saída e novo projeto
O treinador explicou que sua saída do São Bento foi motivada por um acerto prévio com o Votoraty, iniciado no começo do ano e selado em setembro de 2025. Em dezembro, ele foi procurado pela diretoria do clube sorocabano para renovar o vínculo, mas decidiu manter a palavra dada ao novo projeto. “Já estava apalavrado. Sempre tomei cuidado com as palavras ‘nunca’ e ‘sempre’”, diz.
Segundo Kike, havia a expectativa de continuidade no São Bento com a possível implantação de uma SAF, cenário que lhe foi apresentado como viável. Ainda assim, fez questão de agradecer aos dirigentes com quem trabalhou. “Sou grato ao Roni [Roni Zincosky, diretor de futebol profissional] e ao Almir [Almir Laurindo, presidente]. O São Bento é uma instituição grande e que precisa de ajuda”, atesta.
No Votoraty, Kike assinou um contrato de três anos e assumirá um projeto de longo prazo, voltado à reestruturação das categorias de base. O planejamento prevê equipes do sub-11 ao sub-17, a formação do sub-20 a partir de janeiro e, de forma gradual, a construção do elenco profissional. “É um projeto ousado, que vamos trabalhar para tirar do papel e buscar acesso às principais divisões do futebol paulista”, explica.
Reconhecimento institucional
Em nota oficial, o Esporte Clube São Bento confirmou o encerramento da parceria com a Ki-Gol Futebol Clube na gestão da categoria sub-20 e agradeceu a Kike Andrade pelos serviços prestados. O clube destacou a contribuição do treinador ao longo de 13 anos e a revelação de atletas como Lucas Lima, Kayan, Cristiano e, mais recentemente, Eduardo, Flavinho e Clebinho, entre outros. A diretoria ressaltou ainda o comprometimento e a lealdade do profissional durante o período, classificando o ciclo como marcante na história recente da base do clube.
Profissão e sacrifício
Por fim, Kike refletiu sobre o custo humano de trabalhar no futebol, especialmente em projetos de formação. “Falta paciência, as cobranças são grandes e muitas vezes quem paga essa conta é a família”, lamenta. Determinado, o treinador encerrou com uma convicção que resume sua trajetória: “Não existe plano B. O plano B é fazer dar certo”.
(Murilo Aguiar)