Luta não é briga
Confusão ainda repercute
Cenas de agressão entre as equipes de Popó e Wanderlei Silva mancham evento e provocam reações negativas no boxe sorocabano
A confusão generalizada que marcou o encerramento do Spaten Fight Night 2, realizado no último fim de semana, em São Paulo, ainda repercute. Na ocasião, as equipes de Acelino “Popó” Freitas e de Wanderlei Silva, principais atrações do evento, protagonizaram cenas lamentáveis, com agressões físicas e verbais de ambos os lados. Em Sorocaba, atletas e representantes dos esportes de luta receberam os acontecimentos com tristeza e indignação.
Campeão em duas categorias pelo Conselho Nacional de Boxe (CNB) — meio-médio e meio-pesado —, Bruno “The Hunta” César classificou o episódio como lastimável. “A gente trabalha tanto para que as pessoas vejam o boxe com bons olhos. O que aconteceu reflete negativamente no nosso esporte. Naquele episódio, todo mundo errou. Isso não representa o boxe”, afirma.
Nas redes sociais, The Hunta também publicou uma nota de repúdio: “Felizmente, o nosso esporte não se resume ao que foi esse circo. Batalhamos todos os dias para nos olharem com bons olhos e, quando abrem as portas para nosso esporte, ele é ofuscado por algo tão grotesco. Fica o meu repúdio a esse tipo de atitude. Isso não nos representa”.
Para Fábio Maldonado, sorocabano que por muitos anos atuou no UFC — maior evento de MMA do mundo — e formado no boxe, a briga generalizada também prejudica a imagem dos esportes de combate. “As equipes não deveriam ter subido no ringue para se provocarem. Acredito até que os fatos daquele dia deveriam se tornar caso de polícia”, ressalta.
A confusão, protagonizada por duas equipes de renome no cenário mundial, depõe contra o esporte. Essa é a avaliação de Vladimir de Godói, presidente e fundador da Liga Sorocabana de Boxe e Artes Marciais (Lisoboxe). “É preciso tirar uma lição disso. As provocações feitas antes e durante a luta precisam ter limites. O boxe brasileiro precisa de investidores como a Spaten.”
Ainda segundo Vladimir, o tumulto acabou ofuscando as boas lutas disputadas na noite, como as vitórias de Bia Ferreira e Hebert Conceição. “Ninguém está falando disso [dos bons combates]. O esporte ficou em segundo plano. Eu torço para que esses grandes investidores não desistam do boxe”, acrescenta.
Campeão latino pelo Conselho e pela Organização Mundial de Boxe, Paulinho Soares acredita que o episódio pode atrapalhar o crescimento da modalidade. Ele também critica a realização de lutas entre atletas de diferentes formações. “Na minha opinião, já não deveria haver essas lutas contra influenciadores, pois passa a impressão de que lutar boxe é fácil. Além disso, prevejo o risco de uma lesão grave em alguém. Um golpe duro em uma pessoa que nunca se preparou de verdade pode até deixá-la em uma cadeira de rodas, pois não tem o pescoço fortalecido.”
Patrocinadora reprova
A cervejaria Spaten, patrocinadora do evento, divulgou uma nota em suas redes sociais reprovando a confusão entre as equipes. “Acreditamos que o espírito esportivo e o respeito às regras devem sempre prevalecer. Reprovamos os eventos que ocorreram após o término da última luta, que não representam esses princípios. Continuaremos trabalhando para apoiar e elevar os valores do esporte e das artes marciais.” (Com Estadão Conteúdo)
Rixa em coletiva e desavenças
A luta entre Popó e Wanderlei Silva, na madrugada de sábado para domingo, se estendeu durante todo o fim de semana. De um combate com trocas de farpas e ofensas, a estreia do ex-UFC no boxe contou com cenas de briga generalizada entre os dois combatentes e suas respectivas equipes, bem como a continuidade dos xingamentos nas redes sociais ao longo do domingo (28).
O combate era o principal evento do Spaten Fight Night 2, que foi realizado na Arca, em São Paulo, com cerca de dois mil convidados. Bia Ferreira, Hebert Conceição e Thiago Manchinha já haviam vencido suas respectivas lutas antes de Popó e Wanderlei Silva entrarem em ação.
Em entrevista coletiva e na pesagem oficial, os lutadores se ofenderam publicamente e deram o tom de como seria o combate no sábado (27). Com a rivalidade criada entre os lutadores, o combate foi apenas a cereja no bolo.
Wanderlei Silva foi desclassificado no quarto e último round, ao desferir chutes e cabeçadas em direção a Popó — que são proibidos no boxe. Enquanto ainda comemorava no ringue, a transmissão da TV Globo mostrou o princípio da confusão entre as equipes dos combatentes, que invadiram o espaço e começaram a trocar socos entre si.
Wanderlei foi nocauteado pelo filho de Popó na confusão. Rafael Freitas, um dos filhos do tetracampeão mundial de boxe, entrou no ringue de terno e desferiu um golpe contra o curitibano, que foi direto à lona. Ele precisou ser levado a um hospital na zona sul de São Paulo com um corte profundo no rosto e sangramento intenso.
Não está claro de que lado partiu o início do conflito. Popó, que está internado em Salvador ontem (29) para passar por um procedimento cirúrgico, que não foi revelado, acusou Fabrício Werdum, ex-atleta do UFC e um dos córners de Wanderlei, de ser um dos responsáveis pela briga no ringue. Werdum, por sua vez, se defendeu e disse que apenas reagiu a uma provocação da equipe rival.
Em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, Rafael, filho de Popó, disse estar arrependido de ter agredido Wanderlei. Além disso, suas ações, por mais que violentas, foram necessárias para proteger sua família. “Quando eu vi todos eles agredindo o meu pai e os meus irmãos, eu entrei em legítima defesa. No calor daquele momento, eu só pensei em me defender e defender a minha família.” (Estadão Conteúdo)
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