Cultura

Trupé tem teatro, mas com foco nas ruas da cidade

Próximo à rodoviária, um antigo salão comercial foi transformado em espaço alternativo de cultura
Trupé tem teatro, mas com foco na rua
“Do alto da Santa Cruz vi o Auto do Menino Luz” é uma das montagens do grupo, que foi encenada na praça em frente à sede da Trupé. Crédito da foto: Adriano Sobral / Divulgação

Incrustado “no baixo centro” — subregião apelidada pela própria companhia Trupé de Teatro no título de uma das peças mais ambiciosas de seu repertório –, o Teatro da Trupé é uma espécie de joia das artes em meio a um corredor comercial com fluxo frenético durante o dia e ermo e desconfiado durante a noite.

Situado na rua Dr. Nogueira Martins, 457, em frente à praça da Santa Cruz da Composição e próximo à rodoviária, o teatro de bolso tem capacidade para 35 lugares e, frequentemente, recebe temporadas da Trupé e espetáculos de grupos de outras cidades, bem como shows musicais, exposição de arte e outras manifestações artísticas.

O antigo salão comercial foi transformado em espaço alternativo de cultura

O teatro foi inaugurado há seis anos e, desde então, é mantido pelos próprios integrantes da companhia profissional, que destinam igualitariamente parte do cachê das apresentações (o grupo também tem no repertório peças de treinamento para empresas) para o pagamento do aluguel e despesas de manutenção. O antigo salão comercial foi transformado em espaço alternativo de cultura em outubro de 2012, quando a recém-fundada companhia formada por atores dissidentes da Trupe Koskowisck decidiram abrir uma sede própria para prosseguir com os ensaios e pesquisas na área teatral.

Trupé tem teatro, mas com foco na rua
O Teatro da Trupé foi inaugurado há seis anos e é mantido pelos integrantes do grupo. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Inicialmente, as paredes internas foram cobertas por tinta preta; cadeiras, puffs e almofadas foram colocadas no entorno do espaço para acomodar a plateia. Mais tarde, paredes de drywall demarcaram o escritório e o depósito de figurinos e cenografias do grupo.

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O espaço foi revitalizado em 2016, quando o grupo foi contemplado com R$ 150 mil no edital de Apoio a Projetos de Territórios das Artes, do Programa de Ação Cultural (ProAC) da Secretaria estadual de Cultura. Além de ganhar poltronas confortáveis, o teatro recebeu adequações nos camarins, equipamentos de iluminação e troca do piso.

Alguns equipamentos adquiridos com recursos do prêmio e também com investimentos da própria companhia, como mesa de som, projetor de vídeo, caixa amplificada, cafeteira e micro-ondas, no entanto, não fazem mais parte do inventário da companhia. Foram furtados durante a madrugada de 6 de setembro deste ano, acumulando um prejuízo estimado em R$ 3 mil.

Insegurança

O episódio que evidenciou o grau de insegurança e precariedade deste “baixo centro”, no entanto, abriu novas prespectivas à pesquisa contínua sobre espaços vivos desenvolvida pelo grupo desde 2012 com a peça “Do alto da Santa Cruz vi o Auto do Menino Luz”, concebido para ser encenado na praça Santa Cruz da Composição, em frente ao Teatro da Trupé, e radicalizada com a trilogia de espetáculos itinerantes encenados por ruas e becos da região central de Sorocaba. “Um dia o raio caiu e o baixo ventre da cidade se abriu”, em 2013; “Da aurora de um novo dia ou do velho tempo tecido em banho maria”, 2015 e “Das guerras de um velho baixo caos”, de 2016. “Depois do assalto a gente se deu conta do quanto a gente tinha se afastado da rua. Foi por isso que nós viemos para cá, mas nos últimos tempos a gente não estava mais dialogando [com moradores e frequentadores do entorno]. Estávamos muito trancado no nosso mundo”, comenta a atriz Ketlyn Azevedo.

Trupé tem teatro, mas com foco na rua
Uma pesquisa contínua sobre espaços vivos faz parte do trabalho desenvolvido pelo grupo desde 2012. Crédito da foto: Adriano Sobral / Divulgação

Para o diretor Carlos Doles, esse episóio ajudou o grupo a refletir mais profundamente sobre a relação da sede do grupo com o entorno e a relação entre os espaços públicos e privados. “A gente sempre flertou com a rua porque o entorno sempre nos chamou a atenção. Isso fez a gente querer entender várias coisas como por que tem tanta casa vazia enquanto a rua é casa de muita gente”, questiona.

Reflexões sobre direito à cidade, especulação imobiliária e gentrificação urbana farão parte do novo espetáculo do grupo, que está sendo produzido de maneira coletiva e deve estrear em junho do ano que vem. Curiosamente, a montagem será encenada dentro do próprio Teatro da Trupé, favorecendo linguagem intimista e estética minimalista, representando uma espécie de “retorno para dentro de casa”.

Espaço é de uso compartilhado

Pode parecer contraditório que um grupo com sua pesquisa focada fundamentalmente no teatro de rua se desdobre por tantos anos para conseguir manter uma sede própria. “Não dá lucro, mas se a gente tivesse esse espaço pra ensaiar, não teríamos como produzir os nossos espetáculos”, justifica.

Trupé tem teatro, mas com foco na rua
O grupo pretende que o espaço funcione, em 2019, também como escola de teatro. Crédito da foto: Erick Pinheiro

Mais do que espaço de ensaio e depósito dos materiais da companhia, o espaço se garante vivo por meio de seu uso compartilhado, tanto por grupos de teatro de outras cidades quanto de artistas de outras linguagens. Segundo Ketlyn, frequentemente o espaço requisitado por grupos que pretendem fazer apresentações na cidade por meio de editais de fomento. Há, ainda, produtores que negociam o uso da casa para festas e shows musicais, exposição de arte e outras manifestações artísticas. Claro que existe uma curadoria nossa, mas a ideia é que o espaço seja aproveitado o máximo possível”, diz.

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Para conseguir arcando com os custos da sede, os atores da Trupé comentam que, a partir de 2019, o espaço também funcionará como escola de formação teatral. Inicialmente, serão abertas vagas para turmas infantil, adolescente e adultos. Haverá, ainda, workshop de jogos teatrais para adultos, voltados à melhora na comunicação e desinibição no ambiente de trabalho. As inscrições serão abertas na primeira semana de março.

Esta reportagem é parte da série “Palco independente”, do Mais Cruzeiro, que apresenta, aos domingos, espaços privados e independentes de cultura destinados à formação, pesquisa e fruição das artes cênicas em Sorocaba.

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