LUTO
Quadrinhos perdem Herrero, mestre Disney no Brasil
Desenhista de Zé Carioca e Peninha tinha 82 anos; sobrinho do artista e morador de Sorocaba, Roberto Monge relembra o "Tio Carlinhos"
Os quadrinhos brasileiros perderam no sábado (3) o desenhista Carlos Edgard Herrero, aos 82 anos, um dos nomes mais importantes da história da Disney no país. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, ele produziu cerca de 4 mil páginas de histórias com personagens como Zé Carioca, Pato Donald, Tio Patinhas, Professor Pardal, Mickey e Urtigão, e foi o desenhista brasileiro que mais contribuiu com histórias para os estúdios Disney. "Ele se tornou sinônimo de qualidade e dinamismo visual nas bancas de todo o Brasil", resume o sobrinho Roberto Monge, morador de Sorocaba.
Nascido em São Paulo em 2 de agosto de 1944, de ascendência luso-espanhola, Herrero estudou na Escola de Belas Artes e passou pela imprensa antes de chegar aos gibis. Na Folha de S. Paulo, trabalhou na tira "Coisas do futebol" ao lado de Mauricio de Sousa. No fim dos anos 1960, entrou na Editora Abril, onde construiu a maior parte da carreira.
Foi lá que deixou sua marca mais conhecida: ao lado do roteirista Ivan Saidenberg, foi o primeiro a desenhar o Morcego Vermelho, alter ego super-herói do Peninha, e criou o Pena Kid e seu universo de faroeste. Também cocriou coadjuvantes como Laurinha Filamento, os sobrinhos do Mancha Negra e Eugênio. No início dos anos 1970, desenhou dezenas de histórias produzidas pela Disney americana para os mercados europeu e latino-americano.
"O Tio Carlinhos era tão autêntico que entrou para a história da Disney ao protagonizar um feito inédito", conta Monge. Em uma história do Morcego Vermelho publicada em 1977, Herrero desenhou a si mesmo na janela do primeiro quadrinho, sofrendo com o calor do estúdio, cercado por detalhes como um ovo fritando na calçada e um gato e um rato estirados de calor. Ele também assinou roteiros, como os das duas primeiras minisséries Disney brasileiras, "Robinzé Crusoé" e "Zé Babá e os 40 Metralhas", e voltou a desenhar o Zé Carioca nos anos 2010.
Trajetória
Fora da Disney, ilustrou livros didáticos e obras de autores como Pedro Bandeira, trabalhou com publicidade e criou o personagem Vavavum na revista Crás. Também escreveu o livro infantil "Jibobinha", que, segundo o sobrinho, "retrata muito de sua própria infância, abordando o desejo de ser diferente, de não se encaixar nos padrões". Recebeu o Prêmio Abril de Jornalismo pelo roteiro de "O amuleto inca" (1991) e foi homenageado como Mestre do Quadrinho Nacional no Prêmio Angelo Agostini, em 2015, e como Grande Mestre no Troféu HQ Mix, em 2019.
Em depoimento resgatado pelo colecionador Cesar Brito, Herrero resumiu a vida dedicada ao desenho: "Sou um leonino convicto! Sendo leitor fanático de livros e gibis, resolvi fazê-los eu mesmo [...] E não parei mais!". Para ele, desenhar era como "uma cachaça": era preciso fazer todos os dias.
"O Tio Carlinhos levava a vida e a arte com uma paixão contagiante, mas o talento dele não cabia só nas pranchetas", lembra Monge. Na juventude, Herrero tocava guitarra e violão em uma banda cover dos Beatles, para se divertir e garantir um dinheiro extra. Já em família, era presença certa nos almoços de domingo na casa da mãe, a "Vovó Nena". Na hora de ir embora, nunca saía sem a marmita e sem repetir, com a voz grave, o conselho de sempre: "Comida de mãe é remédio".
Herrero deixa a filha, Cristina. "Que sua prancheta infinita e suas histórias continuem a encantar novas gerações, assim como encantaram a minha", deseja o sobrinho.