Resenha
Odisseu como vilão que paga o preço
Tom Rocha, jornalista e editor do Cruzeiro do Sul, assistiu ao filme para a coluna Resenha, com apoio do Sorocaba Shopping
A história é uma das mais conhecidas da humanidade e, por isso mesmo, uma das mais modificadas e recontadas com liberdade irrestrita: na tradição oral, na literatura, no cinema, na animação. A Odisseia, de Homero, já rendeu milhares de releituras — e Christopher Nolan agora apresenta a sua. Quem for ao cinema esperando encontrar um filme típico do diretor britânico-americano vai encontrar exatamente isso: apuro técnico, rigor na cinematografia, sets e cenários realistas, diálogos que oscilam entre o polido e o brilhante, além de uma trilha sonora que pontua cada sequência como se fosse um "ato" de uma peça. A pergunta que fica, então, é: o que Nolan entrega de novo depois de 2.700 anos de história?
A resposta pode estar num detalhe pouco explorado por adaptações anteriores: talvez seja a primeira vez que uma versão de grande orçamento assume, sem meias palavras, que Odisseu é o vilão da própria jornada — e que ele e sua tripulação pagam caro por isso.
Essa leitura não é um capricho isolado. Ela dialoga diretamente com um arquétipo que atravessa quase toda a carreira de Nolan: o homem brilhante, "esperto", que vence pela inteligência ou pela estratégia, mas paga um preço moral por essa vitória. Dominic Cobb mente e manipula para "vencer" em A Origem (2010). Bruce Wayne finge a própria morte e aceita ser caçado como vilão para preservar uma mentira "útil" em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008). O paralelo mais evidente, porém, é Oppenheimer (2023): a história de um gênio cuja solução engenhosa para um problema — a bomba atômica — desencadeia uma destruição que ele jamais consegue controlar ou justificar moralmente.
Em A Odisseia, o roteiro segue a mesma lógica. No filme, o episódio do cavalo de Troia é tratado como um engano desonroso, responsável por um massacre desenfreado e pela profanação religiosa da cidade — não como um golpe de gênio a ser celebrado, mas como um ato que semeia as tragédias que se seguem. Vale lembrar que essa ambiguidade moral de Odisseu não é uma invenção de Nolan: ela já está no texto original. O herói grego é astuto, mas também um mentiroso compulsivo e vaidoso — é justamente sua vaidade, ao provocar o ciclope Polifemo, que faz Poseidon amaldiçoar sua frota. Nada, no poema, é gratuito nos castigos que ele recebe.
O que a tradição recebida ao longo dos séculos fez foi amaciar ou condenar essa ambiguidade de formas distintas. Virgílio, na Eneida, transforma Ulisses praticamente em um vilão. Dante, na Divina Comédia, o coloca no oitavo círculo do Inferno justamente por causa do engano do cavalo. O que Nolan faz, portanto, não é inventar essa complexidade, mas dramatizá-la com aparato de blockbuster — algo raro, já que esse tipo de revisão costuma ficar restrito à literatura ou ao teatro, e não a uma produção de US$ 250 milhões estrelada por Matt Damon. É nisso que reside a maior força do filme.
Ao transportar para um épico grego a mesma pergunta que já havia feito sobre a bomba atômica, Nolan situa A Odisseia menos como um filme de aventura e mais como uma reflexão sobre aquilo que os seres humanos devem uns aos outros. Da mentira do cavalo de Troia à vaidade diante de um ciclope, o recado é sempre o mesmo: há sempre um preço a se pagar.
Tom Rocha, jornalista e editor do jornal Cruzeiro do Sul, assistiu ao filme para a coluna Resenha, com apoio do Sorocaba Shopping.
Galeria
Confira a galeria de fotos