Cultura
Atriz sorocabana volta à cidade com peça premiada
Indicada ao APCA por dramaturgia, Fran Ferraretto apresenta "Adulto", espetáculo sobre relações e os desafios da vida adulta
A atriz e dramaturga Fran Ferraretto retorna a Sorocaba amanhã (29), às 20h, para apresentar no Sesc o espetáculo "Adulto", trabalho que ganhou destaque na cena teatral paulistana. Criada na cidade, Fran volta ao palco onde começou a construir sua trajetória artística com uma peça que aborda conflitos e questões presentes nas relações contemporâneas.
"Adulto" acompanha dois casais e parte da crise conjugal de João e Sara, desencadeada pela revelação de um segredo. A trama também envolve os amigos Vitor e Paula e coloca em discussão temas como traição, trabalho, saúde mental, dinheiro, maternidade, monogamia e machismo. Ao mesmo tempo, a montagem apresenta uma segunda camada: Sara escreve uma peça de teatro e passa a interferir na própria narrativa que está criando.
Para Fran, a estrutura foi uma maneira de discutir a autonomia feminina e, ao mesmo tempo, refletir sobre as escolhas e contradições da vida adulta. "Ela não está apenas escrevendo aqueles personagens, ela está ali, sendo personagem, vivendo o que criou e interferindo na própria narrativa, criando para si uma possibilidade de mudança e de um futuro melhor", explica.
A dramaturga conta que a ideia de abordar assuntos considerados tabus surgiu do desejo de aproximar a ficção das experiências cotidianas. "Acho que, quando você vê assuntos difíceis, e se reconhece neles, você se sente menos sozinho dentro daquelas angústias", afirma.
A identificação do público, segundo ela, tem sido uma das principais respostas ao espetáculo. "Adulto" propõe uma reflexão sobre a desconstrução do amor romântico não apenas nas relações amorosas, mas também nas amizades, no trabalho, na família e na intimidade. "O público que assiste à peça tem a oportunidade de repensar sobre que tipo de adulto ele se tornou ou quer se tornar", diz.
De volta às origens
O retorno a Sorocaba ganha um significado especial para Fran. Foi na cidade que ela começou a estudar teatro, participou da primeira peça profissional e viveu o período em que decidiu seguir a carreira de atriz. Agora, apresenta justamente em sua cidade de origem um trabalho que passou por uma temporada de reconhecimento em São Paulo.
"Voltar com essa peça, que foi tão bem recebida em São Paulo pela crítica, público, jurados de prêmios e curadores, tem um gostinho muito especial, porque sinto como se fosse um retorno ao lugar onde, lá atrás, eu iniciava uma vontade, uma vocação, sem imaginar aonde isso poderia dar", conta.
A apresentação também reunirá pessoas importantes de sua trajetória, entre elas a mãe, os irmãos, amigos da adolescência e a primeira professora de teatro. "Sinto muito amor e gratidão. Então, a alegria é imensa", afirma.
A data ainda carrega um significado particular. O espetáculo estreou em São Paulo em 29 de agosto de 2025 e retorna a Sorocaba exatamente um ano depois. Além disso, o dia marca o aniversário da avó de Fran, a quem ela dedicou a montagem desde a estreia. "Adulto fala, entre outras coisas, sobre o protagonismo feminino, e minha avó me deixou um legado imenso sobre isso", relata.
Entre a dramaturgia
e a autonomia
Fran foi indicada ao Prêmio APCA em 2024, na categoria dramaturgia, pelo espetáculo infantojuvenil "Valentim Valentinho". O reconhecimento, segundo ela, reforçou a importância de continuar produzindo em uma área marcada pela instabilidade.
"Prêmios são muito importantes, principalmente se tratando desta arte tão efêmera e que enfrenta tantos desafios para existir e chegar ao público. Esses reconhecimentos são como um fôlego para o artista continuar resistindo, fazendo e criando", afirma.
Depois de "Valentim Valentinho", veio "Adulto", em um processo que também consolidou uma forma própria de trabalhar. Fran idealiza, escreve, atua e produz seus espetáculos. A concentração de funções traz sobrecarga, mas também, segundo ela, uma sensação maior de autonomia.
"Nunca me senti tão autônoma dentro da minha carreira", diz. Para a artista, assumir o protagonismo na realização dos próprios trabalhos representa uma forma de enfrentar a espera por oportunidades que costuma marcar a profissão. "Eu retomo o poder para mim diante de uma realidade tão triste onde o artista quase sempre fica refém."