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"SerTÃOmar"

Espetáculo de dança mergulha na ancestralidade

"SerTÃOmar", do Núcleo Pé de Zamba, une dança, música e pesquisa sobre memórias ancestrais presentes na cultura bantu

24 de Julho de 2026 às 21:51
Camila Santos [email protected]
Proposta é de experiência sensorial que aproxima tradição e contemporaneidade presentes na identidade brasileira
Proposta é de experiência sensorial que aproxima tradição e contemporaneidade presentes na identidade brasileira (Crédito: SILVIA MACHADO)

A relação entre memória, ancestralidade e resistência é o ponto de partida de "SerTÃOmar", espetáculo do Núcleo Pé de Zamba que será apresentado hoje (25), às 20h, no Sesc Sorocaba. Com entrada gratuita e classificação livre, a montagem convida o público a refletir sobre as heranças das culturas bantu no Brasil por meio da dança contemporânea, da música ao vivo e de uma extensa pesquisa de campo realizada em comunidades afrodescendentes de Minas Gerais.

Criado em 2019 a partir do Edital de Fomento à Dança para a cidade de São Paulo e remontado neste ano, o espetáculo nasceu de uma inquietação surgida durante o processo de criação do trabalho anterior do grupo. Ao pesquisar o Congado Mineiro, os artistas perceberam a constante presença do mar em cantos, histórias e celebrações, mesmo em comunidades situadas longe do litoral.

Segundo a diretora e idealizadora Andrea Soares, essa aparente contradição deu origem ao projeto. "Ficamos muito impactados porque as pessoas cantavam o mar, dançavam temas ligados ao mar e tinham uma relação muito forte com ele, embora a grande maioria nunca o tivesse visto. Isso nos levou a investigar como essas memórias das águas permanecem vivas nessas comunidades como um legado ancestral", afirma à reportagem.

A pesquisa levou o grupo ao Vale do Jequitinhonha e a comunidades tradicionais afrodescendentes entre Ribeirão das Neves e Araçuaí, em Minas Gerais. Durante as viagens, artistas populares, quilombolas e mestres da cultura tradicional compartilharam conhecimentos que foram incorporados à dramaturgia da obra.

No centro da montagem está a Kalunga, conceito da cosmogonia bakongo que representa a linha das águas responsável por separar o mundo dos vivos (Nseke) do mundo dos ancestrais (Mpemba). Além da referência espiritual, o espetáculo utiliza esse conceito para abordar o tempo como um ciclo permanente de nascimento, desenvolvimento, morte e renovação.

Andrea explica que a obra também dialoga com o chamado "tempo espiralar", conceito desenvolvido pela pesquisadora Leda Maria Martins. "O espetáculo é inteiramente sobre memória e ancestralidade. Tudo o que está em cena fala do presente, mas de um presente profundamente atravessado pelas experiências de quem veio antes. Revisitar o passado é também compreender como ele continua ressignificado nas alegrias, nos conflitos e nas relações que vivemos hoje", destaca.

A diretora ressalta que a ancestralidade não aparece apenas como tema, mas na estrutura toda da construção cênica. A circulação dos intérpretes, a organização das cenas e a própria narrativa seguem a lógica circular presente no cosmograma bakongo, simbolizando a continuidade entre passado, presente e futuro.

Ao longo de 60 minutos, "SerTÃOmar" revela um Brasil profundo marcado pela resistência das comunidades negras, pela religiosidade, pela celebração coletiva e pelas memórias preservadas através das gerações. Sem recorrer a uma narrativa linear, o espetáculo propõe uma experiência sensorial que aproxima tradição e contemporaneidade, evidenciando como essas heranças continuam presentes na identidade brasileira.