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De Sorocaba para o mundo

Artista sorocabano fará mestrado na Irlanda

Ator e roteirista Anderson Almos, revelado pelo projeto Mais Cultura, foi selecionado para a Haddad Fellowship

01 de Julho de 2026 às 21:31
Camila Santos [email protected]
Anderson Almos vai estudar na Trinity College Dublin
Anderson Almos vai estudar na Trinity College Dublin (Crédito: ACERVO PESSOAL)

O sonho de ser ator nasceu ainda na infância, diante da televisão. Mas foi um pedaço rasgado de jornal, encontrado por acaso, que mudou definitivamente a trajetória do sorocabano Anderson Almos. Anos depois daquele episódio, o ator e roteirista acaba de conquistar uma das oportunidades acadêmicas mais disputadas do País: foi aprovado na Haddad Fellowship, bolsa de estudos que vai custear integralmente um mestrado (M.Phil) na Trinity College Dublin, na Irlanda, uma das universidades mais tradicionais e respeitadas do mundo.

Radicado no Rio de Janeiro, Anderson carrega Sorocaba não apenas no registro de nascimento, mas como o lugar onde descobriu a vocação artística. Foi no curso de teatro do projeto municipal Mais Cultura, realizado no Palacete Scarpa, que deu os primeiros passos na carreira que hoje ganha projeção internacional.

A Haddad Fellowship é considerada uma das bolsas mais exclusivas para artistas e pesquisadores brasileiros. Além de cobrir integralmente os custos acadêmicos, oferece auxílio financeiro mensal, totalizando um investimento próximo de 40 mil euros por estudante. São apenas cerca de quatro bolsas concedidas por ano em todo o Brasil, em um processo seletivo que exige excelência acadêmica, trajetória artística consistente e domínio da língua inglesa.

Para Anderson, a conquista representa muito mais do que uma oportunidade de estudar no exterior. "Sou egresso de escola pública, cresci na periferia de Sorocaba e sou fruto de políticas sociais e de ações de incentivo à cultura. Essa bolsa prova que a trajetória que construí, desde os primeiros passos no Mais Cultura até os anos de dedicação no Rio de Janeiro, tem força e relevância internacional", afirma.

Um sonho que começou com um jornal rasgado

O início dessa história tem um detalhe curioso. Apaixonado por novelas desde criança, Anderson sabia que o teatro seria o primeiro passo para realizar o sonho de atuar. A oportunidade apareceu de forma inesperada.

"Eu adorava ler a coluna de Cultura do jornal Cruzeiro do Sul na casa da minha tia. Um dia, fui buscar o jornal e ele estava todo estraçalhado porque o entregador errou a mira e o cachorro pegou. No meio dos retalhos encontrei um pedaço de uma matéria falando sobre as inscrições para o curso de teatro do Mais Cultura. Parece história inventada, mas foi exatamente assim."

No projeto, teve aulas com Hamilton Sbrana e iniciou uma intensa formação artística em Sorocaba. Participou da Cantata de Natal, estudou na Fundec, integrou o Núcleo de Artes Cênicas do Sesi e fez diversos cursos na Oficina Cultural Grande Otelo.

Pouco antes de se mudar para o Rio de Janeiro, foi aprovado no concorrido vestibular da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), onde cursou Bacharelado em Atuação Cênica.

Durante a graduação, conciliou os estudos com os primeiros trabalhos na televisão. Atuou como dublê de corpo na abertura da novela Além do Horizonte e participou de produções da TV Globo como Babilônia, Sol Nascente, Malhação e Orgulho e Paixão.

Ainda na universidade, conquistou uma bolsa do Programa Ibero-Americanas, do Banco Santander, que lhe permitiu estudar por um semestre na Universidade de Coimbra, em Portugal.

Dos palcos ao roteiro

Após a graduação, a pandemia provocou uma mudança de rumo temporária. Anderson passou a atuar no mercado corporativo enquanto investia na carreira de roteirista.

Participou do Laboratório de Narrativas Negras e Indígenas, realizado pela Globo em parceria com a Festa Literária das Periferias (Flup), e integrou a equipe de roteiristas da 11ª temporada do humorístico Vai que Cola.

Em seguida, retornou à Unirio para cursar o mestrado em Artes Cênicas. Foi durante essa etapa que surgiu a oportunidade de disputar a Haddad Fellowship. "O processo seletivo foi bastante rigoroso, mas compensou todo o esforço da dupla jornada entre o trabalho e a pesquisa."

Pesquisa une arte,
gênero e tecnologia

Na Trinity College Dublin, Anderson dará continuidade às pesquisas desenvolvidas no Brasil sobre performatividade de gênero nas artes da cena.

Seu trabalho parte da prática do crossdressing como ferramenta de investigação artística, utilizando a personagem Andressa — seu alter ego — para discutir como os papéis de gênero são construídos socialmente. "No segundo mestrado, quero analisar essa questão sob duas perspectivas. A primeira é compreender como essas discussões são percebidas na cultura europeia, especialmente na Irlanda. A segunda é investigar o comportamento da imagem da Andressa quando ela deixa o palco e passa a circular na internet, inclusive sendo manipulada por ferramentas de inteligência artificial."

Segundo ele, a pesquisa nasceu ainda durante a graduação e foi amadurecida em trabalhos como o espetáculo Sonho Alterosa, o curta-metragem GISELE e nas performances "Monte-me" e "Perigo, Frágil", desenvolvidas durante o mestrado na Unirio. "Acho que foi justamente essa combinação entre rigor teórico e produção artística concreta que mostrou à banca que minha pesquisa já tem corpo, não é apenas um projeto no papel."

De Sorocaba para o mundo

Embora hoje esteja estabelecido no Rio de Janeiro, Anderson faz questão de destacar que sua formação começou em iniciativas públicas de acesso à cultura.

Para ele, programas gratuitos de formação artística podem transformar vidas, como transformaram a sua. "Quando comecei, muitas vezes fui desencorajado por ser um jovem do interior, de uma família de classe baixa e sem qualquer perspectiva de ascensão na carreira artística. Não foi fácil no começo e continua não sendo, mas é possível."

O ator também deixa um recado aos jovens sorocabanos que sonham seguir carreira nas artes: "Persistam e acreditem. E, por mais clichê que pareça, estudem. Por trás daquele ator que brilha no palco ou diante das câmeras sempre houve muita dedicação e pesquisa. Eu sou a prova de que um menino que começou em um programa cultural oferecido pela prefeitura, foi incentivado na escola, entrou em uma universidade pública e agora está fazendo as malas para dar o próximo passo do outro lado do oceano."