Tropeirismo
Projeto traz os caminhos da riqueza de Sorocaba
Pesquisa resgata as rotas do tropeirismo e a importância da Feira de Muares
Poucas atividades tiveram tanta influência na formação de Sorocaba quanto o tropeirismo. Foi a partir da circulação de milhares de muares e tropeiros pelos caminhos do interior do Brasil que a cidade se consolidou como um dos mais importantes centros comerciais do país entre os séculos XVIII e XIX. Agora, um projeto inédito pretende resgatar essa história por meio de uma ampla pesquisa cartográfica que busca reconstruir, com riqueza de detalhes, as rotas utilizadas pelos tropeiros desde a região do Prata até a histórica Feira de Muares de Sorocaba.
Idealizado pelo pesquisador e cartógrafo Francisco Stein, o projeto "Cartografia Histórica das Rotas Tropeiras de Mulas Xucras entre os séculos XVIII e XIX e sua relação com a América do Sul" foi aprovado pela Lei Rouanet e pretende reunir pesquisadores de diversas regiões do país para documentar um dos ciclos econômicos, sociais e culturais mais importantes da história brasileira.
A proposta vai muito além da produção de mapas convencionais. O trabalho pretende reconstruir os caminhos percorridos pelas tropas utilizando a mesma lógica adotada pelos tropeiros há mais de dois séculos. Em vez de se orientarem por estradas ou coordenadas geográficas modernas, eles seguiam referências naturais como rios, serras, coxilhas, montanhas, passos de travessia e áreas de pouso.
"Os tropeiros se guiavam pelos acidentes geográficos. Os caminhos eram definidos pela paisagem. Nosso objetivo é representar isso de forma visual e científica, algo que ainda não foi feito dessa maneira", explica Stein.
A primeira etapa do projeto prevê a elaboração de cinco mapas históricos produzidos artesanalmente, abrangendo a região produtora de muares na Argentina, além dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo, culminando na Feira de Muares de Sorocaba. Cada mapa será desenhado à mão, incorporando informações históricas, geográficas, culturais e econômicas do período.
Ao todo, serão confeccionados 15 mil mapas, distribuídos gratuitamente em três mil boxes destinados a escolas, bibliotecas, universidades, museus, centros de tradição tropeira, secretarias de cultura e turismo e instituições de pesquisa. O material também será disponibilizado em formato digital, acompanhado de um minidocumentário sobre o processo de pesquisa e produção.
A iniciativa ganha relevância especial em Sorocaba por resgatar um capítulo decisivo da história local. Durante mais de um século, a cidade foi o principal centro de comercialização de muares do Brasil. A tradicional Feira de Muares atraiu comerciantes, criadores, tropeiros e compradores de diversas regiões do país, movimentando a economia e impulsionando atividades que mais tarde ajudariam a consolidar a vocação industrial sorocabana.
Foi a partir desse intenso comércio que se desenvolveram setores ligados à produção de arreios, selas, artefatos de couro, ferragens, cutelaria, tecelagem e outros produtos voltados ao atendimento das tropas. Muitos historiadores apontam que essa dinâmica econômica foi um dos fatores que contribuíram para a transformação de Sorocaba em um dos principais polos industriais do interior paulista.
Segundo Stein, o projeto também busca despertar o interesse das novas gerações por uma história muitas vezes pouco conhecida fora dos círculos acadêmicos. A expectativa é reunir alguns dos principais pesquisadores do tropeirismo brasileiro em uma iniciativa colaborativa de alcance nacional.
Além do valor histórico, o material poderá servir como ferramenta para pesquisas, atividades educacionais, roteiros turísticos e ações de preservação do patrimônio cultural. A proposta é mostrar que os caminhos percorridos pelos tropeiros não foram apenas rotas comerciais, mas verdadeiros corredores de integração responsáveis pela formação de cidades, pela circulação de culturas e pela expansão territorial do Brasil.
Ao lançar um novo olhar sobre esses trajetos históricos, o projeto reforça a importância de Sorocaba como um dos principais símbolos do tropeirismo nacional e ajuda a preservar uma herança que continua presente na identidade cultural da cidade até os dias atuais.