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Lenda urbana

Cortejo musical homenageia Alzira Sucuri

Ação faz parte das gravações de documentário sobre uma das figuras mais emblemáticas de Sorocaba

19 de Junho de 2026 às 22:20
Camila Santos [email protected]
Suêmi Terra:
Suêmi Terra: "Alzira é um ponto de convergência para falar sobre a cidade e as pessoas que vivem à margem" (Crédito: DIVULGAÇÃO)

Uma das personagens mais conhecidas da memória popular sorocabana voltará a reunir admiradores amanhã (21). A partir das 13h, o Cemitério da Saudade receberá um cortejo musical em homenagem a Alzira Sucuri, a eterna noiva de Sorocaba. A iniciativa é promovida pela Elipse Films e fará parte das gravações do documentário "Alzira e a Cidade", atualmente em produção.

O cortejo contará com apresentações dos músicos Maurício Toco, Marcos Boi, Ovelha e Padê, que percorrerão o local com violão, violino e voz. Além da homenagem artística, o público também está convidado a compartilhar lembranças, histórias e relatos sobre Alzira, contribuindo para a construção do documentário.

Além de revisitar a personagem folclórica, o filme busca compreender por que a figura de Alzira continua tão presente no imaginário coletivo de Sorocaba décadas após sua morte.

A cineasta Suêmi Terra, responsável pelo roteiro, direção e produção executiva do projeto, conta que seu interesse pela personagem surgiu durante uma pesquisa sobre histórias de Sorocaba. Morando na cidade há apenas três anos, ela afirma ter encontrado em Alzira uma espécie de portal para compreender melhor a identidade e a memória do município. "Quanto mais eu pesquisava, mais descobria coisas produzidas em nome dela. Música, peças de teatro, crônicas, poesias, capas de revista. Eu me perguntava quem era essa figura que marcou tantas pessoas e uma geração inteira", relata.

Segundo a diretora, a investigação acabou se transformando em uma longa jornada de descobertas. Durante meses, ela percorreu diferentes caminhos em busca de documentos, relatos e pessoas que tiveram contato com Alzira. "Pesquisar a Alzira foi como uma caça ao tesouro. A cada pista encontrada surgia uma nova história, um novo caminho. Ao mesmo tempo em que eu descobria quem era ela, também estava descobrindo Sorocaba", afirma.

Entre a história e o mito

Conhecida por circular pelas ruas vestida de noiva, Alzira Sucuri se tornou uma das figuras mais emblemáticas da história sorocabana. Sua trajetória atravessou grande parte do século XX e deu origem a inúmeras narrativas, algumas documentadas e outras transmitidas oralmente ao longo das décadas.

Essa mistura entre realidade, mito e memória é justamente um dos aspectos que mais despertaram o interesse da cineasta. "Todo mundo sabe quem é a Alzira, mas pouca gente conhece sua história a fundo. Existem muitas versões. O que é fato? O que é boato? O que é lenda? O filme tenta costurar essas percepções e compreender por que ela se tornou uma personagem tão simbólica para a cidade", explica.

Para Suêmi, o documentário vai além da biografia de uma personagem popular. A produção utiliza a trajetória de Alzira como ponto de partida para discutir temas como pertencimento, memória coletiva, abandono, vulnerabilidade social e saúde mental. "Alzira é um ponto de convergência. Por meio dela, falamos sobre a transformação da cidade, sobre acolhimento, sobre a forma como uma sociedade enxerga pessoas que vivem à margem. É um filme sobre memória, mas também sobre humanidade."

Um olhar humanizado

Ao longo da pesquisa, um dos principais desafios da equipe foi evitar que a personagem fosse reduzida apenas ao folclore ou às histórias pitorescas que a cercam. Suêmi destaca que teve uma preocupação constante em tratar a memória de Alzira com respeito e sensibilidade. "Eu não me senti à vontade em explorar qualquer tipo de decadência ou desmoralização. Quis respeitar a memória dela. A Alzira deste filme é uma Alzira em essência. Antes de ser uma personagem folclórica, ela era uma mulher."

Segundo a diretora, a vida da eterna noiva também provoca reflexões profundas sobre sonhos interrompidos, frustrações e sobrevivência. "Ela teve uma vida muito dura e isso me impactou bastante. Existe algo muito humano nessa história. O medo do abandono, os sonhos que não se realizaram, a busca por pertencimento. Tudo isso atravessa o filme."

Ela também afirma que ficou marcada pelo fato de Alzira ter mantido até o fim da vida a imagem da noiva que esperava por seu casamento. "A expectativa continuou existindo. Ela seguiu usando vestido de noiva até o fim. Isso me atravessou profundamente. Fala sobre trauma, sobre sonho e sobre a insistência em continuar acreditando."

Memória viva

Embora Alzira tenha falecido em agosto de 2000, aos 91 anos, sua presença permanece viva na memória de diferentes gerações de sorocabanos. Durante a produção do documentário, a equipe percebeu que as pessoas ainda se emocionam ao recordar encontros, histórias e episódios envolvendo a personagem. "Talvez a Alzira tenha deixado de ser apenas uma pessoa para se tornar uma ideia, uma construção coletiva. O que mais me impressiona é o quanto as pessoas se emocionam ao falar dela", observa Suemi.

O cortejo deste domingo pretende justamente celebrar essa memória compartilhada. Além de integrar as gravações do documentário, a homenagem busca reunir diferentes olhares sobre uma mulher que, entre histórias reais e lendárias, continua ocupando um espaço singular na identidade cultural de Sorocaba.

Quem desejar participar pode comparecer ao Cemitério da Saudade a partir das 13h e compartilhar suas lembranças sobre a eterna noiva da cidade.