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Jovens músicos

Jovens músicos da região conquistam espaço no cenário erudito

Trajetórias incluem bolsa em Londres, vaga na Escola Municipal de Música de São Paulo e seleção para o Femusc

03 de Março de 2026 às 08:15
Murilo Aguiar [email protected]
Sophia Sá ingressou no curso de violoncelo da Escola Municipal de Música de São Paulo
Sophia Sá ingressou no curso de violoncelo da Escola Municipal de Música de São Paulo (Crédito: ARQUIVO PESSOAL)

 

A música erudita produzida na região de Sorocaba vive um momento de afirmação. Nos últimos meses, jovens de Sorocaba e Votorantim conquistaram aprovações em instituições de excelência no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, além de participação em um dos maiores festivais-escola da América Latina.

As trajetórias de Théo Singh, Sophia Sá e Maísa Kozorosky revelam diferentes estágios de formação artística, mas apontam para um mesmo fenômeno: a consolidação de talentos da região em circuitos altamente competitivos da música clássica.

Nove aprovações internacionais e bolsa em Londres
Aos 18 anos, o pianista sorocabano Théo Singh alcançou um feito raro: foi aprovado simultaneamente em nove das mais prestigiadas instituições de ensino superior em música do mundo.

Entre elas estão a Royal College of Music, a Royal Academy of Music, o Royal Northern College of Music, o Royal Welsh College of Music and Drama, o Oberlin Conservatory, o Cleveland Institute of Music, o New England Conservatory, a Eastman School of Music e a Jacobs School of Music.

As aprovações envolveram envio de gravações, cartas de recomendação, histórico acadêmico, entrevistas e audições exigentes, avaliadas por bancas compostas por professores de projeção internacional. Após analisar propostas pedagógicas e condições financeiras, Théo optou pela Royal College of Music, em Londres — instituição fundada no século XIX e reconhecida como um dos principais centros europeus de formação em performance.

Além do peso histórico e da tradição pianística europeia, a decisão foi estratégica. Ele recebeu bolsa de 88% por mérito, concedida a um número restrito de candidatos internacionais. “Não foi o único fator, mas foi muito relevante. A vida em Londres é cara e, sem essa bolsa, seria inviável”.

Segundo o pianista, o diferencial da instituição britânica está no equilíbrio entre rigor técnico e construção de identidade artística. “O curso tem foco muito forte em performance de alto nível, com aulas individuais intensivas, oportunidades frequentes de recital solo, música de câmara e apresentações com orquestras. Também há uma preocupação clara com o desenvolvimento de carreira”.

A localização geográfica também pesou. Estar na Europa significa proximidade com polos históricos da música clássica e acesso facilitado a concursos, masterclasses e festivais internacionais. “Na Europa existe uma troca cultural muito intensa. Tenho interesse em circular por países como Áustria, Alemanha e Rússia, que valorizam profundamente a tradição pianística”.

Théo já possui vivência internacional. Em turnê recente pelo Festival Pianíssimo, apresentou-se em cidades como São Petersburgo, Moscou, Kaliningrado e Nizhni Novgorod, na Rússia. A experiência, segundo ele, reforçou a conexão com a escola pianística russa, base estética que orienta sua formação sob a orientação do professor Rogério Zaghi.

Mesmo com agenda internacional, mantém rotina de estudos que pode chegar a 12 horas diárias em períodos de preparação. Paralelamente, faz acompanhamento psicológico semanal. “A pressão é grande. Aprendi que cuidar da saúde mental é parte fundamental da formação artística”.

Aos 13 anos, aprovação em uma das instituições públicas mais concorridas do país
Enquanto Théo consolida a transição para o circuito universitário internacional, a violoncelista Sophia Sá dá um passo decisivo no início de sua trajetória.

Aos 13 anos, foi aprovada no curso de violoncelo da Escola Municipal de Música de São Paulo, vinculada à Fundação Theatro Municipal de São Paulo — referência nacional na formação de instrumentistas e cantores na área da música clássica.


Fundada em 1969, a instituição oferece ensino público gratuito e é reconhecida pelo alto nível técnico e pela concorrência entre candidatos de diferentes regiões do Brasil.

O processo seletivo envolveu análise de edital, envio de vídeo com repertório obrigatório e audição presencial. Sophia apresentou o Estudo nº 23, Op. 31, de Sebastian Lee. “Sinto que minha aprovação foi decidida pela interpretação, pelos sentimentos que consegui colocar e pela dinâmica clara”.

Apesar do resultado positivo, o percurso foi emocionalmente desafiador. “Senti muita insegurança e ansiedade durante o processo. Tive momentos de tristeza e autodepreciação”.

A jovem iniciou os estudos no violoncelo no segundo semestre de 2023 e ingressou na Escola de Música de Votorantim Maestro Nilson Lombardi (EMV) em 2024, onde aprofundou a formação técnica.

Ela relata que o acompanhamento rigoroso dos professores foi determinante. “O estudo intensivo, a constância e as orientações sobre expressão musical fizeram diferença”.

Hoje, projeta seguir carreira como violoncelista de orquestra e, futuramente, explorar composição e trilhas sonoras. “O violoncelo virou minha forma de expressão. Minhas dores e alegrias passam pelas cordas”.

Experiência formativa no maior festival-escola da América Latina
Outra aluna da EMV, a violista Maísa Kozorosky ampliou horizontes ao ser selecionada para o Femusc Festival Internacional de Música de Santa Catarina, realizado em Jaraguá do Sul (SC). Reconhecido como o maior festival-escola de música clássica da América Latina, o evento reuniu cerca de 350 estudantes de 27 países e promoveu aproximadamente 200 concertos em duas semanas, com público estimado em mais de 30 mil pessoas.

Maísa integrou o programa Femusc Jovem, destinado a alunos de 13 a 18 anos. A rotina incluiu aulas diárias de instrumento, música de câmara, leitura musical, prática corporal aplicada à performance e formação orquestral.

Durante o festival, apresentou-se em duo, em quarteto de cordas e na Orquestra Sinfônica Jovem, interpretando obras como o Finale da Sinfonia nº 5, de Tchaikovsky, a Sinfonia “Do Novo Mundo”, de Dvorák, além de repertório brasileiro como Feira de Mangaio. “Foi uma experiência transformadora. Estar ao lado de músicos de alto nível me fez crescer muito e enxergar novas possibilidades”.

Segundo o coordenador da EMV, Luís Gustavo Laureano, resultados como esse demonstram a importância de um trabalho pedagógico contínuo e estruturado. “Formação musical sólida exige tempo, acompanhamento técnico e estímulo à vivência artística”.

Um movimento que ultrapassa fronteiras
As três histórias revelam estágios distintos da formação musical: a consolidação universitária internacional, o ingresso em instituição pública de excelência e a vivência intensiva em festival formativo de grande porte. Em comum, a dedicação extrema, a disciplina diária e a compreensão de que carreira artística é construída no longo prazo.

Se há alguns anos a música erudita produzida no interior tinha alcance majoritariamente regional, hoje jovens da região passam a integrar circuitos nacionais e internacionais de alto desempenho. Do palco europeu às salas de concerto brasileiras, a nova geração começa a escrever uma história que coloca Sorocaba e Votorantim no mapa ampliado da formação musical.

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