Jovens músicos
Jovens músicos da região conquistam espaço no cenário erudito
Trajetórias incluem bolsa em Londres, vaga na Escola Municipal de Música de São Paulo e seleção para o Femusc
A música erudita produzida na região de Sorocaba vive um momento de afirmação. Nos últimos meses, jovens de Sorocaba e Votorantim conquistaram aprovações em instituições de excelência no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, além de participação em um dos maiores festivais-escola da América Latina.
As trajetórias de Théo Singh, Sophia Sá e Maísa Kozorosky revelam diferentes estágios de formação artística, mas apontam para um mesmo fenômeno: a consolidação de talentos da região em circuitos altamente competitivos da música clássica.
Nove aprovações internacionais e bolsa em Londres
Aos 18 anos, o pianista sorocabano Théo Singh alcançou um feito raro: foi aprovado simultaneamente em nove das mais prestigiadas instituições de ensino superior em música do mundo.
Entre elas estão a Royal College of Music, a Royal Academy of Music, o Royal Northern College of Music, o Royal Welsh College of Music and Drama, o Oberlin Conservatory, o Cleveland Institute of Music, o New England Conservatory, a Eastman School of Music e a Jacobs School of Music.
As aprovações envolveram envio de gravações, cartas de recomendação, histórico acadêmico, entrevistas e audições exigentes, avaliadas por bancas compostas por professores de projeção internacional. Após analisar propostas pedagógicas e condições financeiras, Théo optou pela Royal College of Music, em Londres — instituição fundada no século XIX e reconhecida como um dos principais centros europeus de formação em performance.
Além do peso histórico e da tradição pianística europeia, a decisão foi estratégica. Ele recebeu bolsa de 88% por mérito, concedida a um número restrito de candidatos internacionais. “Não foi o único fator, mas foi muito relevante. A vida em Londres é cara e, sem essa bolsa, seria inviável”.
Segundo o pianista, o diferencial da instituição britânica está no equilíbrio entre rigor técnico e construção de identidade artística. “O curso tem foco muito forte em performance de alto nível, com aulas individuais intensivas, oportunidades frequentes de recital solo, música de câmara e apresentações com orquestras. Também há uma preocupação clara com o desenvolvimento de carreira”.
A localização geográfica também pesou. Estar na Europa significa proximidade com polos históricos da música clássica e acesso facilitado a concursos, masterclasses e festivais internacionais. “Na Europa existe uma troca cultural muito intensa. Tenho interesse em circular por países como Áustria, Alemanha e Rússia, que valorizam profundamente a tradição pianística”.
Théo já possui vivência internacional. Em turnê recente pelo Festival Pianíssimo, apresentou-se em cidades como São Petersburgo, Moscou, Kaliningrado e Nizhni Novgorod, na Rússia. A experiência, segundo ele, reforçou a conexão com a escola pianística russa, base estética que orienta sua formação sob a orientação do professor Rogério Zaghi.
Mesmo com agenda internacional, mantém rotina de estudos que pode chegar a 12 horas diárias em períodos de preparação. Paralelamente, faz acompanhamento psicológico semanal. “A pressão é grande. Aprendi que cuidar da saúde mental é parte fundamental da formação artística”.
Aos 13 anos, aprovação em uma das instituições públicas mais concorridas do país
Enquanto Théo consolida a transição para o circuito universitário internacional, a violoncelista Sophia Sá dá um passo decisivo no início de sua trajetória.
Aos 13 anos, foi aprovada no curso de violoncelo da Escola Municipal de Música de São Paulo, vinculada à Fundação Theatro Municipal de São Paulo — referência nacional na formação de instrumentistas e cantores na área da música clássica.
Fundada em 1969, a instituição oferece ensino público gratuito e é reconhecida pelo alto nível técnico e pela concorrência entre candidatos de diferentes regiões do Brasil.
O processo seletivo envolveu análise de edital, envio de vídeo com repertório obrigatório e audição presencial. Sophia apresentou o Estudo nº 23, Op. 31, de Sebastian Lee. “Sinto que minha aprovação foi decidida pela interpretação, pelos sentimentos que consegui colocar e pela dinâmica clara”.
Apesar do resultado positivo, o percurso foi emocionalmente desafiador. “Senti muita insegurança e ansiedade durante o processo. Tive momentos de tristeza e autodepreciação”.
A jovem iniciou os estudos no violoncelo no segundo semestre de 2023 e ingressou na Escola de Música de Votorantim Maestro Nilson Lombardi (EMV) em 2024, onde aprofundou a formação técnica.
Ela relata que o acompanhamento rigoroso dos professores foi determinante. “O estudo intensivo, a constância e as orientações sobre expressão musical fizeram diferença”.
Hoje, projeta seguir carreira como violoncelista de orquestra e, futuramente, explorar composição e trilhas sonoras. “O violoncelo virou minha forma de expressão. Minhas dores e alegrias passam pelas cordas”.
Experiência formativa no maior festival-escola da América Latina
Outra aluna da EMV, a violista Maísa Kozorosky ampliou horizontes ao ser selecionada para o Femusc Festival Internacional de Música de Santa Catarina, realizado em Jaraguá do Sul (SC). Reconhecido como o maior festival-escola de música clássica da América Latina, o evento reuniu cerca de 350 estudantes de 27 países e promoveu aproximadamente 200 concertos em duas semanas, com público estimado em mais de 30 mil pessoas.
Maísa integrou o programa Femusc Jovem, destinado a alunos de 13 a 18 anos. A rotina incluiu aulas diárias de instrumento, música de câmara, leitura musical, prática corporal aplicada à performance e formação orquestral.
Durante o festival, apresentou-se em duo, em quarteto de cordas e na Orquestra Sinfônica Jovem, interpretando obras como o Finale da Sinfonia nº 5, de Tchaikovsky, a Sinfonia “Do Novo Mundo”, de Dvorák, além de repertório brasileiro como Feira de Mangaio. “Foi uma experiência transformadora. Estar ao lado de músicos de alto nível me fez crescer muito e enxergar novas possibilidades”.
Segundo o coordenador da EMV, Luís Gustavo Laureano, resultados como esse demonstram a importância de um trabalho pedagógico contínuo e estruturado. “Formação musical sólida exige tempo, acompanhamento técnico e estímulo à vivência artística”.
Um movimento que ultrapassa fronteiras
As três histórias revelam estágios distintos da formação musical: a consolidação universitária internacional, o ingresso em instituição pública de excelência e a vivência intensiva em festival formativo de grande porte. Em comum, a dedicação extrema, a disciplina diária e a compreensão de que carreira artística é construída no longo prazo.
Se há alguns anos a música erudita produzida no interior tinha alcance majoritariamente regional, hoje jovens da região passam a integrar circuitos nacionais e internacionais de alto desempenho. Do palco europeu às salas de concerto brasileiras, a nova geração começa a escrever uma história que coloca Sorocaba e Votorantim no mapa ampliado da formação musical.
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