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De fã a convidada
Bibi na Batera divide palco com Black Pantera em Sorocaba
A apresentação da banda mineira Black Pantera no Sesc Sorocaba foi marcada por riffs pesados, discurso social e, principalmente, por um gesto simbólico de renovação do rock. Em meio ao repertório que percorreu diferentes fases da carreira, o trio abriu espaço para a baterista sorocabana Beatriz Ferreira, conhecida como “Bibi na Batera”, de 13 anos, que subiu ao palco em um improviso de heavy metal e protagonizou um dos momentos mais emblemáticos da noite.
Formado em 2014, em Uberaba (MG), o Black Pantera, composto por Charles Gama, Chaene da Gama e Rodrigo “Pancho” Augusto, consolidou-se como um dos principais nomes do metal brasileiro contemporâneo. Ao longo da trajetória, participou de turnês no Brasil, na Europa e nas Américas e dividiu palco com nomes do gênero, como Slayer e Sepultura. O grupo também ganhou visibilidade ao abrir shows internacionais, como o do Slipknot, ampliando sua projeção junto ao público jovem.
Em Sorocaba, o repertório incluiu músicas de diferentes momentos da discografia, com destaque para o álbum “Perpétuo” (2024), trabalho que aprofunda a sonoridade pesada e as temáticas ligadas à identidade, resistência e ancestralidade. O disco dá sequência a “Ascensão” (2022), que ampliou o alcance da banda no cenário nacional e rendeu indicações a premiações.
No palco do Sesc, o trio manteve a base construída a partir do rock, punk, hardcore, funk e metal, incorporando elementos de percussão e variações rítmicas que intensificaram a dinâmica do show. A energia do público foi constante, especialmente nos momentos de mosh pit — incluindo a já tradicional “roda das minas”. “Sim, todo show rola isso em qualquer lugar. É o mosh das minas, a roda das minas. Um momento bem bacana em que a gente quer mostrar que todo mundo tem espaço para extravasar”, explicou o baterista Rodrigo Pancho.
A iniciativa busca garantir um ambiente mais seguro e inclusivo dentro da cultura do metal, historicamente marcada por rodas predominantemente masculinas. Bibi, que já havia participado de edições anteriores em outros shows da banda, destacou a importância do gesto. “Esse ambiente do metal é meio que, entre muitas aspas, violento para as mulheres. Se você entrar numa roda cheia de marmanjos, pode se machucar. Eu acho bem legal que eles separem isso e que as pessoas respeitem. Isso é muito importante”, afirma.
Convite, frustração e surpresa no palco
O contato entre a banda e a jovem baterista começou em 2024, durante a Expomusic, em Campinas. Segundo Rodrigo Pancho, o encontro foi natural. “Conhecemos a Bibi e o pai dela na Expomusic no ano passado. Vimos ela tocando bateria em um stand de uma marca parceira e eles assistiram ao nosso show. Todo mundo se seguiu nas redes sociais”, contou.
Com o anúncio da apresentação em Sorocaba, surgiu a possibilidade de uma participação especial. Bibi intensificou os estudos e chegou a preparar três músicas da banda. No entanto, por questões protocolares — já que o nome dela não constava previamente na produção do evento — a participação não foi autorizada inicialmente.
“Ela começou a treinar várias músicas. A primeira coisa que falou foi: ‘Eu vou ter que detonar’. Estava muito feliz, já querendo contar para os amigos da escola”, relatou o pai, Ailson Ferreira. “Quando disseram que não poderia subir por causa das regras, ela ficou um pouquinho triste, mas decidiu que iria curtir o show do mesmo jeito”, completou.
Mesmo diante do impasse, a família compareceu ao Sesc. E foi justamente no momento final da apresentação que a história tomou outro rumo.
Durante um discurso direcionado a pais e adolescentes sobre o uso excessivo de telas e a importância de desenvolver habilidades artísticas, o vocalista Charles citou Bibi como exemplo de dedicação. Ao vê-la na plateia, fez o convite público para que subisse ao palco. “Quando o Chaene disse que tinha uma baterista muito jovem e talentosa ali e que seria um prazer se um dia ela pudesse dar uma canja, o público começou a pedir. A gente atendeu. Foi de improviso mesmo”, contou Pancho. “Ela tocou super bem com o Charles e o Chaene, e eu fiquei filmando. Foi lindo ver a energia e a força dela na bateria. Dá uma sensação de que o rock está se renovando”, completou.
O improviso foi puxado para o heavy metal, com andamento acelerado e pegada intensa. Para Bibi, o momento misturou emoção e concentração técnica. “Eu fico meio a meio, 50% nervosa e 50% tranquila. Quando eu treino bastante, me sinto mais segura. E, às vezes, na emoção, faço até mais do que planejei — e muitas vezes dá muito certo”, conta.
Formação musical e visão de futuro
A jovem baterista afirma que não pretende se limitar a um único subgênero. Embora tenha preferência por metal melódico, power metal e heavy metal, defende uma formação ampla. “É ruim você se fixar em um ponto só. Eu preciso ter mais conhecimento sobre música no geral, sobre a história da música, blues, jazz. O blues tem muito a ver com o rock, isso é muito legal”, explica.
Sobre a técnica exigida pelo metal, ela destaca três pilares. “Resistência, velocidade e precisão. Você tem que manter uma velocidade rápida no braço e no pé e ainda ter força. Senão, não consegue tocar a música inteira”, afirma.
Bibi também reconhece que oportunidades como essa ampliam horizontes. “Isso abre portas, traz contatos, aumenta as oportunidades. O público deles começa a me conhecer, e o meu público passa a conhecer mais o trabalho deles também. É uma interação entre veteranos e nova geração”, diz.
Incentivo além do discurso
Para o pai, o episódio simboliza mais do que uma participação especial. “Fiquei impressionado com a atitude deles. Muitas vezes a gente vê palavras bonitas na frente das câmeras, mas, na prática, não acontece. Eles são o contrário: poucas palavras e muita atitude. Isso incentiva os jovens, tira as crianças da tela e mostra que elas também podem”, afirmou.
Rodrigo Pancho reforçou que 2026 já começou intenso para a banda, com shows durante o Carnaval no Paraná, em Santa Catarina e em Salvador (BA). O grupo prepara dois lançamentos: um álbum ao vivo gravado no Circo Voador, no Rio de Janeiro, e um disco de inéditas previsto para o segundo semestre.
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