Frestas
Sesc Sorocaba abre Trienal Frestas com obras sobre memória e território
Projeto propõe conexões entre tradição e contemporaneidade
O Sesc Sorocaba transforma seus espaços em território de travessia, encontro e reflexão a partir desta sexta-feira (27), com a abertura da 4ª edição do Frestas Trienal de Artes. Mais do que uma mostra com 102 participantes e 188 obras, a exposição propõe ao público um deslocamento simbólico: caminhar por memórias, espiritualidades e disputas que atravessam Sorocaba e seu entorno. Intitulada “Do caminho um rezo”, a edição permanece em cartaz até 16 de agosto e, já nos primeiros dias, reúne performances, cortejos, vivências coletivas, exibição de documentário, roda de conversa e apresentação musical.
Com curadoria de Luciara Ribeiro, Naine Terena e Khadyg Fares, a trienal nasce de um processo coletivo que antecede a própria definição do tema. Segundo as curadoras, a ideia não surgiu como um recorte fechado, mas como resultado de trajetórias que se cruzaram ao longo do tempo.
“A ideia surge de muitos lugares, inclusive o próprio nome. Todos fazem suas caminhadas, e a gente, enquanto profissionais, também já tem um processo de caminhadas e de pesquisas que levam a pensar determinados processos”, conta Naine Terena.
Embora tenham percursos distintos, elas ressaltam que compartilham aproximações conceituais e políticas. “Somos três pesquisadoras de trabalhos distintos, mas não diferentes”, diz Naine Terena.
O ponto de partida foi o território. Para o trio, Sorocaba carrega em sua formação histórica a marca dos cruzamentos — geográficos, culturais e simbólicos. Naine pontua que “quisemos propor a partir de um olhar para o território. Sabemos que ele é formado por muitos caminhos, por encontros de trajetórias. Isso faz parte da própria história da cidade”, afirma Khadyg Fares. Elas lembram que a região foi atravessada por “muitos trânsitos, muitas passagens, alguns caminhos violentos e outros de encontro”, destaca
Nesse contexto, a noção de encruzilhada ganha centralidade. Inspiradas por pensadores como Nego Bispo e Tadeu Kaingang — este último responsável por formular a expressão “caminho rezo” —, as curadoras entendem a exposição como espaço de decisão e travessia. “Quem não passa por uma encruzilhada não sabe que caminho segue”, citam, ao sintetizar a proposta. “Essa exposição é muito isso: uma série de encontros, encruzilhadas, desencontros”, explica Naine Terena.
O termo “rezo”, presente no título, também extrapola o sentido estritamente religioso. Trata-se de um posicionamento. Khadyg Fares aborda que “o título é um manifesto, é uma escolha política do caminho rezo”, afirmam a profissionais.
“A gente não está tentando atrelar muito a uma religiosidade específica, mas entender esse sagrado como um caminhar. O caminhar pode ser sagrado. O samba, o canto, a dança podem ser sagrados. A luta antimanicomial pode ser sagrada”, enfatiza Naine. Para elas, o rezo é também um gesto político, capaz de reconhecer práticas coletivas como formas de espiritualidade e resistência.
O projeto foi inicialmente concebido fora do escopo específico do Frestas e, depois de submetido ao Sesc, passou por reformulações até ganhar o formato atual. Khadyg Fares salienta que “não começou como um tema para a Frestas, começou como um projeto”. A construção incluiu duas imersões na região, com visitas a cidades como Votorantim, Tapiraí, Salto, Itu e Campinas, além de encontros com pesquisadores, agentes culturais e grupos comunitários.
Mesmo sem serem naturais de Sorocaba — Luciara nasceu em Xique-Xique (BA) e vive em São Paulo; Naine é da capital paulista —, as curadoras afirmam que o contato com a cidade foi determinante. “Para a gente foi muito importante conhecer Sorocaba. Sorocaba tem uma história que nos enriquece”, dizem. Para elas, descentralizar o olhar é fundamental. “As capitais têm esse perigo, porque centralizam tudo. Mas a gente traz o foco para um outro lugar”, observam as curadoras.
A dimensão coletiva também marca o processo de montagem. A curadoria é apenas uma das frentes de trabalho envolvidas. Arquitetura expográfica, produção, iluminação, montagem, comunicação, educativo, acessibilidade e as equipes fixas do Sesc integram a engrenagem que sustenta a exposição. “Uma exposição se faz com muita gente, com muitas equipes, em coletividade. A equipe curatorial é uma das equipes”, ressalta Luciara Ribeiro.
Entre os diferenciais do projeto está a criação de conselhos e a contratação de uma empresa local especializada em acessibilidade cultural, responsável por pensar estratégias de acesso para pessoas com deficiência. “A gente quis trazer a questão da acessibilidade. Ainda não chegamos a um ponto ideal, mas há um esforço grande para ampliar o acesso”, reitera Luciara.
Para as curadoras, o impacto da trienal se mede na relação com o público. “A composição é feita com o público. A gente passa dois anos preparando uma equipe enorme para oferecer algo para a sociedade. Se faz sentido para a sociedade, cumprimos o nosso papel”, reforçam.
Elas avaliam que a edição pode representar um momento significativo para a cidade. “É um momento de entender a importância de pensar a produção artística local e os encontros que essa produção pode fazer com quem está produzindo fora”, dizem. Mais do que reunir obras, o Frestas propõe conexões entre artistas, coletivos, projetos comunitários e visitantes. “Para Sorocaba, é o momento de as pessoas encontrarem esses fazeres e se inspirarem neles também, aprenderem, trocarem”, finalizam.
Ao ocupar outros espaços da unidade, a trienal amplia o conceito de exposição tradicional e convida o público a percorrer física e simbolicamente os caminhos sugeridos. Entre rezos, cantos, caminhadas e gestos cotidianos transformados em arte, o Frestas se apresenta como experiência de travessia — uma encruzilhada aberta à participação de quem decide entrar.
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