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Percurso imersivo

Exposição imersiva conecta arte, ecologia e o olhar feminino

"RECONSTRUINDO Cartografias afetivas" reúne obras de cinco artistas do Brasil, Chile e Itália no Museu FAMA

09 de Fevereiro de 2026 às 10:56
Caroline Mendes [email protected]
"RECONSTRUINDO", o olhar feminino não se apresenta apenas como perspectiva (Crédito: DIVULGAÇÃO)

A exposição “RECONSTRUINDO Cartografias afetivas” segue em cartaz até 16 de maio, no Museu FAMA Fábrica de Arte Marcos Amaro, em Itu, na Região Metropolitana de Sorocaba, com visitação de quinta a domingo, das 11h às 17h. Realizada em parceria com o Instituto Italiano de Cultura de São Paulo (IICSP), a mostra reúne obras de cinco artistas do Coletivo Biohabitantes — Yto Aranda, Marina Bellino, Klaudia Kemper, Soledad Neira e Clara Salina —, do Brasil, Chile e Itália, e propõe um percurso imersivo entre arte contemporânea, ecologia e cuidado com a vida.

A mostra reúne trabalhos em diferentes linguagens, como instalações, pinturas, vídeos, tecidos e objetos simbólicos. A partir dessas materialidades, as artistas constroem uma cartografia afetiva que tensiona a forma como a humanidade habita o planeta e se relaciona com equilíbrios ambientais cada vez mais frágeis.

Segundo o museu, a proposta se organiza como um ecossistema de ideias, no qual a crise climática não é apenas analisada, mas também sentida. A abordagem parte da premissa de que não é possível proteger aquilo que não se consegue compreender ou experimentar profundamente, articulando arte, ecologia e experiência sensorial em um mesmo percurso.

Essa articulação se estrutura em três eixos. O primeiro entende a arte como uma ponte ética. Em vez de se limitar à representação da deterioração ambiental, a mostra utiliza linguagens contemporâneas — da pintura em mosaico à instalação eletrônica — para transformar a crise climática em uma narrativa visual orientada à regeneração, ativando um conhecimento coletivo a partir da relação entre estética e ética.

O segundo eixo aborda a ecologia a partir do olhar feminino e do conceito de “bem viver”. Nesse contexto, o meio ambiente deixa de ser tratado como dado estatístico e passa a ser compreendido como uma rede de relações baseada no cuidado e na interdependência. As artistas conectam questões globais, como microplásticos, desmatamento e extinção de espécies, à práxis cotidiana e à inteligência vegetal, apontando para formas de sobrevivência sustentadas pela solidariedade, e não pela lógica da acumulação.

Já o terceiro enfatiza a experiência sensorial como forma de aprendizado. A exposição não foi concebida para ser observada passivamente, mas habitada. O público é convidado a uma escuta atenta — sonora e simbólica — que possibilita a conexão com dimensões menos visíveis da natureza, como as raízes de uma floresta ou o papel ecológico de insetos, transformando a observação em vivência.

Expografia como território vivo

A expografia exerce papel central na construção do percurso imersivo. A disposição física e técnica das obras faz com que a cartografia proposta deixe de ser um mapa plano e se transforme em um território transitável. A obra de Yto Aranda aposta na estimulação multissensorial ao integrar luz, som, módulos tecidos em sisal e sensores táteis, exigindo a interação direta do corpo do visitante e rompendo a separação entre sujeito e objeto artístico.

O uso do espaço e da suspensão também contribui para a imersão. As telas de algodão suspensas de Klaudia Kemper exploram a tridimensionalidade e o movimento do ar para envolver o espectador, reforçando a ideia de que o ser humano está inserido na natureza, e não apartado dela. Já Soledad Neira trabalha com mudanças de escala ao destacar o macrodetalhe dos insetos, levando o visitante a desacelerar e a rever sua percepção sobre o que é considerado diminuto, atribuindo-lhe peso simbólico ao longo do percurso.

A narrativa se completa por meio da materialidade das obras. Fragmentos de vidro, têxteis reciclados e códigos de barras criam contrastes táteis e visuais que conduzem o público por diferentes estados de percepção, da memória à discussão sobre a crise do plástico.

Vozes do coletivo: arte, território e reconstrução

Para Yto Aranda, sua pesquisa artística nasce da relação direta entre tecnologia e natureza. “Meu trabalho é uma simbiose entre tecnologia e natureza. Com (eco)sistema, busco tornar visível essa rede invisível que acontece sob a terra — a inteligência vegetal que se comunica por meio de micélios e raízes. Não é apenas olhar, é também escutar e imaginar, a partir do invisível, a vida que nos sustenta”, afirma.

A artista chilena destaca ainda que sua obra é atravessada pela experiência cotidiana no bosque esclerófilo de Rao Caya, onde vive. “Habitar esse território me permitiu captar imagens e sons que fazem parte da pesquisa. É um ecossistema ferido, mas resiliente. Aprendi que uma parte essencial do conhecimento vem da comunidade”, completa.

Já Soledad Neira concentra sua produção no que costuma passar despercebido. “Coloco o foco no diminuto. Meus retratos de insetos são uma ode a seres essenciais, que habitam a Terra há cerca de 480 milhões de anos. Cuidar da vida começa por reconhecer o esplendor de quem torna possível a nossa própria subsistência”, diz. Para a artista, o trabalho coletivo amplia esse sentido. “No Biohabitantes, o estético se conecta ao ético. Meus insetos deixam de ser apenas imagens e se tornam ferramentas políticas e sociais. A vida não se sustenta pela dominação, mas pela cooperação”.

A relação com o território também atravessa a obra de Marina Bellino, que parte da escuta da Amazônia e da defesa do Vale do Javari. “Minha obra carrega o conhecimento dos povos indígenas Korubo, Marubo e Matis. Meus mosaicos de vidro são constelações de resistência que guardam a memória da ruptura do território”, afirma. Para ela, reconstruir é um gesto material e simbólico. “Recolho os fragmentos do vidro, que representam a quebra, e os uno novamente para criar uma possibilidade de regeneração. É transformar a ferida em estrutura de resistência”.

Klaudia Kemper destaca que o trabalho coletivo do Biohabitantes influencia diretamente sua prática individual. “O coletivo nos permite dialogar a partir da diversidade. Somos mulheres, artistas com diferentes materiais e interesses comuns. Buscamos nos relacionar de acordo com o bem viver, em respeito e colaboração. Não estamos sós, mas em inter-relação com todos os seres vivos”, afirma. Com seus tecidos suspensos, ela espera despertar no público uma consciência corporal dessa interdependência. “Quero que as pessoas sintam que não existe um ‘fora’ da natureza”.

A proposta mais provocadora vem da artista italiana Clara Salina, que há mais de uma década pesquisa resíduos plásticos e políticas públicas. Para ela, reconstruir significa desmontar o modelo atual de consumo. “Questiono o paradigma do reciclar como ele existe hoje”, explica. Em sua obra, códigos de barras e vestígios de plástico funcionam como dispositivos críticos. “Espero provocar uma sensibilidade crítica. Que o espectador não consiga mais olhar uma prateleira de supermercado da mesma forma”, afirma.

Ao reunir essas diferentes camadas — sensoriais, políticas, afetivas e territoriais —, “RECONSTRUINDO Cartografias afetivas” transforma o Museu FAMA em um espaço de ativação sensível, no qual o público é convidado a estabelecer novas conexões e a repensar sua relação com a vida em suas múltiplas formas.


SERVIÇO

Exposição: RECONSTRUINDO Cartografias afetivas
Período: até 16 de maio de 2026
Visitação: de quinta a domingo, das 11h às 17h
Local: Sala 5 Museu FAMA Fábrica de Arte Marcos Amaro
Endereço: rua Padre Bartolomeu Tadei, 09, Itu
Valor: R$ 25 (ingresso válido para visitação a todas as exposições)

Galeria

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