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Literatura

Escritor brasileiro vence prêmio literário na França

Romance foi escolhido por leitores da comunidade francófona entre obras publicadas em língua francesa

21 de Janeiro de 2026 às 11:37
Da Redação [email protected]
"No caso específico deste livro, transformei fantasiosamente o cotidiano de Salto no motor da narrativa", diz Oséas Singh Jr. (Crédito: DIVULGAÇÃO/ISABELLA BONIM)

Valéria Amoris

“Sinto-me duplamente recompensado. Em primeiro lugar, racionalmente, pois numa era de excesso de informações, o prêmio projeta meu trabalho de maneira qualitativa. Pode até parecer um paradoxo, pois a internet que inunda o mundo de ruídos é a mesma que propiciou a circulação do meu livro nos países francófonos e a escolha dos leitores. A outra dimensão é a emocional. Curiosamente, minha primeira obra publicada, aos vinte e poucos anos, foi a biografia do cineasta Anselmo Duarte (Adeus Cinema), até hoje o único latino-americano a vencer a Palma de Ouro em Cannes, com o filme La Parole Donnée (1962). Convivi longos anos com o cineasta e sei que um prêmio cultural francês é um divisor de águas”.

A declaração é do escritor brasileiro Oséas Singh Jr., radicado em Salto, no interior de São Paulo, vencedor do Prix du Roman de l’Année 2025, um dos principais reconhecimentos da literatura em língua francesa. O romance Le refuge des héros fatigués (Estância dos Heróis Combalidos, na edição brasileira) foi escolhido entre obras publicadas em países e territórios francófonos.

A premiação ocorre em duas etapas. Na primeira, clubes de leitura realizam a seleção inicial das obras inscritas. Na fase final, a escolha é definida por votação aberta ao público da comunidade francófona, por meio de plataforma on-line com sistema de dupla verificação. Nesta edição, mais de 30 mil leitores participaram do processo, com 11.752 votos validados.

Ao comentar como a experiência de viver e produzir literatura a partir de Salto influencia sua escrita, Singh destaca a relação entre território e construção narrativa. “Busco transformar o regional em universal. Penso que não adianta escrever sobre os mistérios da Babilônia, se essa não é a minha realidade. Você não consegue equacionar a diegética. Ao contrário do que alguns podem imaginar, escrever ficção exige um nível de habilidade muito maior do que a não-ficção. Tanto que este é meu romance de estreia, depois de mais de 40 anos escrevendo não-ficção. Acredito que só agora meu texto alcançou a maturidade que eu esperava”.

Segundo o autor, essa opção estética e conceitual está diretamente ligada ao universo retratado no livro. “No caso específico deste livro, transformei fantasiosamente o cotidiano de Salto no motor da narrativa: a densidade tragicômica da transformação dos moradores de rua em super-heróis. A miséria transformada em espetáculo, com personagens caricatos que ganham uma camada de complexidade ao vestirem as fantasias”.

Ele também chama atenção para a escolha do narrador, elemento central da obra. “Outro aspecto importante e inovador foi a força do narrador inanimado, o Coreto da praça central, que leva o leitor a uma cumplicidade quase voyeurística na observação dos personagens. Esse narrador – por vezes cínico – tem uma lucidez impiedosa, impregnada de existencialismo amargurado. Sua imobilidade paradoxalmente lhe confere uma onisciência local, uma capacidade de absorver e refletir sobre a loucura humana que se desenrola à sua volta, emprestando um senso de inevitabilidade aos acontecimentos. Penso que essa profundidade e distanciamento crítico, difíceis de alcançar com uma voz humana, estabeleça de imediato o pacto narrativo com o leitor”.

Publicado pela editora FoxTablet, Estância dos Heróis Combalidos se passa em Amada dos Anjos, uma estância turística fictícia marcada pelo esvaziamento econômico e por uma endemia de alcoolismo. Diante da queda no turismo, autoridades locais adotam uma estratégia inusitada: transformar moradores de rua em super-heróis fantasiados para atrair visitantes. A narrativa se desenvolve quando esses personagens passam a conduzir os próprios rumos, explorando contradições sociais e humanas.

Singh é escritor e jornalista, com pós-graduação em História da Arte e da Cultura pela Unicamp. Iniciou a trajetória literária em 1993 com Adeus Cinema – Vida e Obra de Anselmo Duarte. Em 2021, publicou Banal Apocalypse, que alcançou leitores internacionais no Kindle. Com o romance premiado, amplia a circulação de sua obra fora do Brasil.

Estância dos Heróis Combalidos está disponível em livrarias físicas e plataformas digitais. Na Amazon e na Estante Virtual, o livro custa R$ 38; a versão digital é comercializada por R$ 10.

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