Cultura
A vida em quadros: desenhistas sorocabanos investem nas histórias em quadrinhos
Produção autoral cresce na cidade, mas artistas ainda enfrentam limites para viver exclusivamente da linguagem dos quadrinhos
Vernihu Oswaldo
Os quadrinhos brasileiros vivem um paradoxo: nunca se produziu tanto, nunca houve tanta diversidade de estilos e temas, mas ainda é difícil viver exclusivamente dessa arte no país. Em Sorocaba, distante dos grandes polos editoriais, artistas se organizam entre nichos, feiras, eventos culturais e parcerias para sustentar a produção e manter a linguagem dos quadrinhos em circulação.
Diversos artistas produzem quadrinhos sobre os mais variados temas na cidade. Um dos nomes que têm se destacado nos últimos anos é Marcel Bartholo, com indicações a prêmios como o HQ Mix e o Troféu Ângelo Agostini, consideradas as principais premiações dos quadrinhos brasileiros.
Carioca de origem e sorocabano por escolha, o artista vive há duas décadas no estado de São Paulo, sendo os últimos dez anos em Sorocaba. Formado em História e História da Arte, construiu sua trajetória a partir do desenho, atuando como professor, ilustrador e quadrinista. Ao longo da carreira, transitou por diferentes áreas da ilustração, como livros infantis, materiais didáticos, caricatura e projetos editoriais.
A produção em histórias em quadrinhos ganhou mais espaço a partir de 2016, quando passou a investir de forma mais consistente na linguagem autoral.
A influência japonesa
O mangá é um formato de histórias em quadrinhos originário do Japão, caracterizado pela leitura da direita para a esquerda, expressividade visual e narrativas que transitam por diferentes gêneros e faixas etárias. No Brasil, ganhou espaço a partir dos anos 2000, impulsionado pela popularização dos animes na televisão e pela atuação de editoras especializadas, tornando-se um dos segmentos mais consumidos do mercado de quadrinhos.
Carlos Antunes Siqueira Junior, de 36 anos, conhecido como Kaji Pato, é sorocabano. Envolvido com o desenho desde cedo, encontrou no estilo mangá uma forma de expressão artística que o conectou ao público e ao mercado editorial brasileiro.
Sua principal obra é a série Quack, quadrinho em estilo mangá que ganhou projeção ao vencer a primeira edição do Brazil Mangá Awards, promovido pela Editora JBC.
Kaji explica a escolha do nome artístico: “o pato tem uma filosofia para mim, de tudo aquilo que parece torto, desengonçado. Porém, é o nosso jeito de ser. Muitas pessoas são patos e não aceitam que são patos. Ficam querendo ser cisnes”.
Ele afirma que sua produção dialoga com identidade: “tenho uma fascinação por aventura e magia. No começo, era uma forma de fuga, de imaginar mundos fantásticos e exploração. Também tento afirmar, na minha busca artística, uma identidade nacional”.
Entre o cotidiano e a narrativa gráfica
Lígia Zanella é quadrinista, ilustradora e designer, nascida em Sorocaba. Formada em Design Gráfico e Design de Produto pela Universidade de Sorocaba, iniciou sua trajetória nos quadrinhos em 2009, com a publicação da primeira história online. Desde então, produziu obras que transitam entre quadrinhos autorais, coletâneas colaborativas e livros infantis.
A autora teve influência dos animes, mas também da Turma da Mônica, criada por Maurício de Sousa.
Sobre o futuro dos quadrinhos, ela avalia: “os quadrinhos são porta de entrada para futuros leitores. Se a ideia é incentivar a leitura, eles funcionam bem. O futuro dos quadrinhos está garantido. É um diálogo jovem, com tendência de atingir mais público e atrair pessoas que não se consideram leitoras”.
Em suas histórias, a temática da superação aparece com frequência, especialmente ligada ao amadurecimento. Em 2016, foi indicada ao HQ Mix na categoria Artista Revelação. Em 2022, recebeu o Troféu Ângelo Agostini na categoria Lançamento Independente.
Quadrinhos em Sorocaba
A produção local não se limita ao trabalho individual dos artistas. A cena também se articula por meio de eventos coletivos que aproximam criadores e público, como o Ilustra Comic Fest, realizado no Sesc Sorocaba, que chegou à sétima edição em 2025.
Iniciativas desse tipo mostram que, mesmo fora dos grandes centros editoriais, Sorocaba estrutura seus próprios circuitos de circulação da linguagem dos quadrinhos, reunindo produção autoral, leitores e espaços de troca.
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