Cultura
Antigo prédio da Brasital segue cumprindo seu propósito de conectar a população saltense
Fábrica que ajudou a criar parte da cidade ainda é um importante marco temporal para a cultura local
Qual a importância de um edifício histórico? Em alguns casos, ele representa mais do que a história: pode simbolizar a gênese de todo um território. Esse é o caso da Antiga Fábrica de Tecidos Brasital, na cidade de Salto, na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS), não apenas por ter sido o centro de uma das vilas operárias mais importantes do município, mas porque sua ligação com a cidade é ancestral.
Uma marca cultural significativa do patrimônio local é a utilização das rochas empregadas tanto nas fundações quanto como elementos decorativos da fábrica. Trata-se de granitos rosa. O professor Emerson Ribeiro Castilho explica que a região está em um local geologicamente muito preservado, assentado sobre uma única placa tectônica. O granito rosa é uma rocha endêmica da região de Salto e, provavelmente, foi formado durante a era glacial, há cerca de 600 milhões de anos, quando as geleiras pressionaram a pedra contra objetos, possivelmente seixos, criando a rocha estriada que demarca a paisagem local, conhecida como Rocha Moutonnée.
No final do século 19, diversas fábricas buscaram Salto para se instalar. Um dos principais motivos foi a proximidade com o rio Tietê e a geografia propícia da região. As quedas d’água próximas permitiam que a força da água fosse utilizada para gerar energia e movimentar outras máquinas.
Em 1904, duas fábricas se uniram por meio da Societá per lEsportazione e per lIndustria Ítalo-Americana e, em 1919, transformaram-se na Brasital SA. Ao longo dos anos, a Brasital se expandiu não apenas na produção, mas também em sua presença pela cidade, com a construção de armazéns, escola, creche e vilas operárias.
A arquitetura do local segue o padrão industrial inglês, mas um dos prédios que mais chama atenção é conhecido como “prédio do castelo” e, de acordo com o professor Emerson, segue um estilo arquitetônico inspirado nos castelos da região da Toscana, na Itália.
Com o passar dos anos, a indústria algodoeira foi perdendo relevância e o local passou por diferentes administrações. Em 1981, foi adquirido pelo Grupo Santista, que permaneceu até 1995, quando encerrou suas atividades na cidade. Em 1999, o complexo foi adquirido para se tornar um centro universitário.
Um patrimônio em uso
Quando o local se tornou um centro universitário, a cidade pôde se reconectar com um de seus principais patrimônios e, assim como as pedras cor-de-rosa, a população saltense voltou a fazer parte do território. Atualmente, o Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (Ceunsp) funciona no local. São cerca de 28 cursos oferecidos no campus. Diariamente, entre professores, funcionários, alunos e pessoas que recebem algum tipo de atendimento, passam pelo espaço cerca de 5 mil pessoas.
O reitor do Ceunsp, Marcel Fernando Cardozo, afirma que há uma preocupação em integrar o aluno ao território histórico que ele ocupa na universidade: “primeiro, a conscientização de todo aluno que chega aqui dentro. Isso a gente fez de alguns anos pra cá. Muitas pessoas vinham pra cá sem saber da importância. Esse prédio é muito significativo para o município. Quando a gente fala de história, de identidade, porque aqui trabalharam os pais e os avós de muitas das pessoas que moram aqui”.
A professora de arquitetura Bianca Zanoni falou sobre um projeto de preservação da história dos blocos do campus: “nós levantamos a história de cada bloco. E aí, a gente tem em cada entrada um memorial, um descritivo sobre a história da instituição, como aquele prédio foi construído e algumas curiosidades”.
Apesar de o local ser particular, existe uma aproximação com o poder público para a preservação. Marcel afirmou que o prefeito esteve na instituição para discutir melhorias no entorno: “o prefeito veio falar com a gente que quer fazer um grande estacionamento em frente à instituição, porque ele vai fechar a rua do outro lado da praça e criar uma área de mobilidade ali”.
A prefeitura de Salto confirmou a informação, afirmando que houve um estudo no local para ampliação de vagas de estacionamento na região central da cidade.
Tombamento e preservação
O Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) realizou o tombamento da Antiga Fábrica de Tecidos Brasital, em Salto, em 2014, por meio da Resolução 113, de 30/12/2014. O tombamento foi feito com nível de Proteção 2 (P-2), o que significa que as fachadas são protegidas, mas o interior pode ser alterado.
Ainda assim, de acordo com os professores, algumas características marcantes do imóvel foram mantidas, mesmo internamente, como as grandes janelas, a iluminação e a ventilação natural. (Vernihu Oswaldo)
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