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Hábito da leitura

Entre páginas e esquecimento: como a leitura resiste em tempos de imediatismo

Mesmo com o avanço dos não leitores, histórias de dedicação à literatura mostram que o hábito segue vivo na região

23 de Dezembro de 2025 às 20:00
Vernihu Oswaldo [email protected]
Biblioteca da Academia Sorocabana de Letras, no antigo espaço da Biblioteca Operária
Biblioteca da Academia Sorocabana de Letras, no antigo espaço da Biblioteca Operária (Crédito: Vernihu Oswaldo )

Quantos livros você leu este ano? A pergunta incomoda, porque quase sempre a resposta é menor do que seria alguns anos atrás. De acordo com dados do Instituto Pró-Livro e do Ministério da Cultura, em 2024 o número de não leitores é de 53% da população brasileira, oito pontos percentuais maior do que o índice registrado em 2007, quando 45% da população era considerada não leitora.

Ler, além de ser uma importante ferramenta para criar repertório cultural, é também uma atividade que ajuda a melhorar a saúde. De acordo com o Instituto Pró-Livro, a leitura regular contribui para a melhora da função da memória. Além disso, pode ajudar a prevenir o Alzheimer, porque atividades cerebrais, como a leitura, podem ser uma forma efetiva de prevenção contra demências. Ler também é uma alternativa para relaxar, principalmente à noite.

Apesar da estatística, a esperança, assim como a literatura, são chamas que não se apagam. Exemplos de pessoas que encontraram na literatura uma forma de viver não faltam na cidade de Votorantim, na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS).

Uma vida dedicada à arte

Uma dessas pessoas é o advogado Roque Dias Prestes, com recém-completos 87 anos. Natural de Pardinho, morou em São Manuel antes de chegar a Votorantim, local onde viveu boa parte de sua vida. Sua grande paixão, além da família, são os carros antigos.

Durante sua trajetória, trabalhou como operário, lavrador, entre outras funções, até ingressar na Prefeitura Municipal de Votorantim, onde desempenhou diferentes cargos antes de se tornar diretor do Procon, função na qual se aposentou. Depois, ainda atuou como professor por mais nove anos, até a aposentadoria compulsória.

Nesse período, também atuou como jornalista nos jornais Cruzeiro do Sul e Diário de São Paulo e fundou o Jornal de Votorantim, o primeiro jornal da cidade, que funcionou por quase 40 anos.

A história de Roque pode ser dividida em dois momentos: antes e depois de se tornar escritor. Em 2012, começou a se interessar pela escrita e, desde então, não parou mais.

A vida artística de Roque não se limita às letras. Ele também é compositor, gravou nove CDs e é o responsável pela música e pela letra do Hino da Academia Votorantinense de Letras, Artes e História (AVLAH). Na literatura, já publicou nove livros e mantém diversos arquivos guardados para futuras publicações.

Ele afirma que, apesar de sempre ter lido muito, foi o livro “Morro dos Ventos Uivantes”, da escritora britânica Emily Brontë, que despertou de vez seu interesse pela literatura. Também destaca o épico Os Lusíadas, do português Luís de Camões.

O interesse literário, no entanto, é diverso. Como ele mesmo diz, trata-se de “uma miscelânea”. Roque possui uma biblioteca com mais de 12 mil livros e afirma que gosta de percorrer as estantes até escolher uma obra. Gosta de tudo, sem distinção.

Da coletividade nasce a palavra

Roque não é uma voz isolada nesse cenário de não leitores. Em Sorocaba, a Academia Sorocabana de Letras (ASL) realiza, há 46 anos, o trabalho de manter a literatura presente na cidade. Na história da instituição, não faltam nomes e momentos marcantes. Sua sede revela uma ligação direta com a memória local: funciona no espaço onde antes estava a Biblioteca Operária, mantida por funcionários da antiga fábrica Cianê e da ferrovia Fepasa.

A academia foi criada no modelo francês, com 40 cadeiras, e em poucos momentos de sua história teve todas ocupadas de forma concomitante. A biblioteca do local guarda materiais da cultura sorocabana que, aos poucos, vêm sendo recuperados, como cartas de presidentes endereçadas à ASL e até uma resposta da Embaixada dos Estados Unidos.

A ASL busca ampliar sua aproximação com a sociedade, levando literatura e cultura a diferentes públicos. Entre os planos futuros estão a reforma da sede, a adequação da biblioteca para visitação e a realização de feiras literárias pela cidade, principalmente voltadas ao público infantil, como forma de apresentar a literatura às crianças.

O presidente da ASL, Antonio Pontes, afirmou que “a literatura hoje está um pouco restrita em função da própria evolução do nosso ilustre e reverendíssimo telefone celular. Por quê? Porque as pessoas gostam de imediatismo. Muitas pessoas estão deixando de ler porque querem ganhar tempo e, ao mesmo tempo, acabam não refletindo muito a respeito. E não se organizam também para ter mais informações adequadas. Elas só consomem, não elaboram. E isso faz com que a cidadania seja prejudicada, porque eles não estão se preparando para o futuro. Existe um problema sério nisso, que é exatamente deixar de pensar. As pessoas estão deixando de pensar”.

A fala de Antonio Pontes reforça um alerta que atravessa especialistas e instituições: quando a leitura perde espaço para a pressa digital, a capacidade de reflexão também se estreita. O hábito de ler favorece o diálogo com diferentes perspectivas, amplia repertórios e fortalece a participação social. Para Pontes, esse processo não é apenas cultural, mas ligado à cidadania. Sem o exercício contínuo de elaborar ideias, a sociedade corre o risco de avançar menos preparada para o futuro.

 

 

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