Presépio
Quando surgiu o presépio?
Tradição nasceu na Europa medieval e atravessou séculos até se tornar símbolo universal do Natal
João Frizo - programa de estágio
Por séculos, famílias inteiras se ajoelham diante de um pequeno cenário que cabe nas mãos: um menino recém-nascido, ladeado por Maria e José, iluminado por uma estrela que anuncia ao céu e à terra a chegada da esperança. O presépio, símbolo maior do Natal cristão, atravessou continentes, línguas e culturas, transformando-se sem deixar de ser o que sempre foi: a representação do amor que nasce simples. Hoje, em Itu, essa história se expande em escala rara.
No Museu Fama, uma exposição apresenta cerca de mil presépios, parte de um acervo superior a dez mil peças reunidas pelas irmãs Maria Sofia Vidigal Pacheco e Silva e Maria Teresa de Oliveira Ribeiro Vidigal, que há mais de duas décadas colecionam e preservam cenas do nascimento de Cristo vindas de diversas partes do mundo.
O início de tudo: uma cena em uma gruta, em 1223
A origem do presépio remonta a São Francisco de Assis. Em 1223, ele pediu autorização para encenar o nascimento de Jesus em uma gruta na Itália, numa época em que representações litúrgicas não eram permitidas. Queria que o povo visse, sentisse e compreendesse a grandeza contida na fragilidade de um recém-nascido. A partir dali, o presépio ganhou forma material, ganhou o mundo e passou a ser montado nas casas todos os anos, do primeiro domingo do Advento até o dia 6 de janeiro, quando a Igreja celebra a Epifania.
No Brasil, a tradição chegou em 1552 pelas mãos do padre José de Anchieta. Desde então, o gesto de montar um presépio tornou-se parte do calendário afetivo de muitas famílias, que transformam o Natal em ritual doméstico e espiritual. A cena permanece essencialmente a mesma, mas nela cabe o mundo. O Menino nasce em Belém, mas também nasce na sala de casa. O sagrado encontra lugar no que é pequeno, cotidiano, humano.
Um símbolo que muda de rosto sem perder a essência
Ao viajar pelo planeta, o presépio absorveu paisagens, cores e identidades locais. Em alguns, o Menino é branco, em outros é negro, indígena, mestiço, oriental. Os olhos se estreitam ou se tornam arredondados, as roupas trocam tecidos e padronagens, o estábulo dá lugar à neve ou ao deserto, a animais típicos do Oriente juntam-se onças, lhamas, focas e leões-marinhos. Aquilo que permanece -- Maria, José, Jesus -- convive com aquilo que se transforma. É assim que o presépio se torna também cultura, antropologia, espelho.
Na exposição de Itu, essa diversidade está em evidência. Há presépios africanos em que o sagrado veste roupas coloridas, com estampas de tecido tradicional. Há representações do Alasca em que esquimós substituem pastores, e animais do gelo ocupam o espaço do boi e do burrinho. Há conjuntos peruanos vibrantes, ricamente ornamentados, cheios de cor e alegria. Há peças brasileiras feitas de madeira simples, de barro, de palha, como o artesanato popular que cruza fé e identidade. Cada peça conta a mesma história, mas fala com sotaque próprio.
As irmãs que transformaram o presépio em vida
A coleção que hoje impressiona os visitantes começou ainda na infância das irmãs. Crescidas em uma família com onze irmãos, o Natal era vivido como um acontecimento intenso. “Desde pequenas fazemos coleção de miniaturas, entre elas presépios. O Natal da nossa infância sempre teve um significado especial”, conta Maria Sofia Vidigal Pacheco e Silva, que, ao lado de sua irmã Maria Teresa de Oliveira Ribeiro Vidigal, apresenta aproximadamente dez mil peças da coleção pessoal.
Ela recorda o ritual que marcava aqueles anos: a árvore natural escolhida no Horto Florestal, o cheiro de pinheiro espalhado pela casa, o presépio montado com plantas do jardim, pedrinhas e enfeites recolhidos ao longo do mês. Havia ainda o momento mais simbólico: “São José e Nossa Senhora já eram colocados, mas o dono da festa, o Menino Jesus, só nascia no terceiro mistério do terço, um pouco antes da meia-noite do dia 24. A família rezava junta e depois fazia a ceia. Era emocionante”.
Hoje, embora os filhos e netos tenham crescido, a tradição resiste. “Na Noite Feliz, toda a família ainda se reúne: pais, irmãos, netos e bisnetos. É uma tradição que não se perde”, diz.
O cuidado com o acervo também é profundamente pessoal. “Monto e desmonto a exposição todos os anos sozinha. Tenho um imenso amor e até um pouco de ciúmes dos meus presépios”, admite. “Se algo quebrar, prefiro que seja por mim”. Para ela, cada montagem é um reencontro afetivo. “A cada presépio que abro, tenho uma renovação de sentimentos. Sinto como se fossem meus filhos”.
O presépio feito de balas: a guerra que se transforma em oração
Entre todas as peças, uma permanece impossível de ignorar. Vem da Libéria, país marcado por uma guerra civil que durou entre 1999 e 2003. Não foi esculpida em madeira, nem moldada em argila ou tecido. É feita de cápsulas de balas de fuzil, deflagradas em combate. Um soldado liberiano, arrependido por ter matado, guardou as munições que disparou e transformou-as em presépios como forma de reparar a culpa que o acompanhava.
O presépio foi entregue ao coronel Fernando Fernandes, que atuou na missão da ONU para reconstrução do país. O soldado lhe disse que lutara por dever, mas que o peso das mortes lhe queimava a alma. Pediu-lhe apenas uma coisa: que, ao olhar para a obra, ele rezasse uma Ave Maria por sua história. Em 2014, o coronel doou o presépio à exposição com a mesma solicitação.
O trabalho silencioso de preservar dez mil peças
Manter uma coleção desse porte é tarefa física e emocional. Todos os anos, Maria Sofia monta e desmonta a exposição, peça por peça, caixa por caixa. Faz isso sozinha, por amor e por zelo. Costuma dizer que tem “ciúmes do acervo”, porque se algo quebrar, prefere que seja por suas mãos.
Cada reencontro com os presépios é, para ela, como reencontrar filhos. Muitas peças chegam danificadas e são restauradas por Maria Teresa, artista plástica e conservadora experiente. Outras são recuperadas pela irmã, que improvisa quando o dano é pequeno. É um trabalho de cuidado e paciência.
E em Sorocaba?
O Natal Iluminado 2025 já começou em Sorocaba e segue transformando a cidade em um grande cenário festivo até 23 de dezembro, com atrações gratuitas na praça Cel. Fernando Prestes. A abertura, realizada ontem (5), contou com o espetáculo “Mundo Caramelo” e o tradicional acendimento das luzes natalinas, acompanhado pela animação dos Robôs Led.
Agora, o público pode desfrutar da Casa do Papai Noel, Árvore de Natal, Presépio, carrosséis, Trenzinho da Alegria e uma programação diária de shows, apresentações culturais, eventos inclusivos e corais. A instalação do presépio acompanha uma prática histórica difundida nas cidades brasileiras, que preserva a representação do nascimento de Jesus e integra o calendário de fim de ano em Sorocaba.
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