Natureza em forma
Exposição Terra Água Vermelha no Macs reúne dois artistas sorocabanos
Pedro Lopes e Dimas Pires em torno de um mesmo campo de investigação: a paisagem. O projeto nasce do encontro entre pintura e escultura, arte e design, entre o gesto de decompor a paisagem em cor e o de recompor a natureza em forma. Pedro Lopes apresenta 18 pinturas em grande formato que partem da observação da região da Água Vermelha para construir uma síntese cromática e abstrata do ambiente sorocabano. Já Dimas Pires traz nove esculturas monumentais em madeira reaproveitada troncos e raízes recolhidos de árvores caídas, transformando resíduos naturais em novas presenças.
A mostra “Terra Água Vermelha” em exposição no Macs com curadoria de Allan Yzumizawa propõe um diálogo entre bidimensionalidade e tridimensionalidade, entre o campo pictórico e o escultórico, operando uma espécie de tradução entre matéria e atmosfera. Ambos os artistas trabalham a partir de uma mesma matriz de pensamento: o reconhecimento do entorno como fonte de forma. Nas pinturas de Lopes, a cor é geologia e campo vibrátil, em Dimas, a madeira é corpo vivo, carrega no veio o tempo da árvore e sua subjetividade.
“A idéia da exposição foi selecionar obras do Pedro Lopes com relação a cidade de Sorocaba e trabalhar essa paisagem a partir de obras geométricas e abstratas. Nenhuma obra representa de fato Sorocaba, mas ela tenta trazer uma questão mais sensível, emocional da cidade. A ideia da exposição é tentar tocar o expectador não por uma via informativa, mas figurativa da paisagem de Sorocaba, com as cores, perguntando aos expectadores quais são as memórias e as cores que representam a cidade. Pedro trabalha bastante as cores presentes na nossa cidade, e o Dimas as árvores, madeiras recolhidas de acidentes, que caem, são específicas porque são árvores do Cerrado. As obras do Dimas dialogam com a pintura do Pedro”, descreve Allan Yzumizawa, curador da exposição.
“Antes de começar o trabalho para a exposição, o nome eu já tinha: Terra Água Vermelha. Partindo desse principio, passei a desenvolver a paisagem e, em seguida, forma e cor, mas sempre com a idéia em relação a Sorocaba. O motivo principal foi baseado na forma do Dimas trabalhar a madeira e criar uma série de formatos geométricos e a idéia baseado também de uma influência da arte geométrica. Eu apresentei uma idéia de uma geometria ingênua mas poética”, contou o artista Pedro Lopes.
E as obras de Pedro Lopes passaram a ser inspiração para as peças de Dimas Pires. “Eu via as obras do Pedro e transferia para a madeira. Unimos dois extremos a zona oeste onde fica o Parque da Água Vermelha, com a zona norte, dois extremos da cidade para fazer a exposição. Utilizei árvores caídas por ventavais, de desterros naturais da cidade para fazer a exposição e fiz o resgate transformando arte e sustentabilidade”, enfatizou Dimas Pires.
Os artistas
Pedro Lopes é formado pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo. Seu trabalho artístico percorreu diferentes fases: passou pelo abstracionismo lírico, realismo fantástico e pop dos anos 1970 e desde os anos 1980 até hoje se dedica ao neoexpressionismo e geometria sensível decorrente de paisagem figurativa. O artista participou de diversas exposições coletivas e individuais. Entre as coletivas estão Salões Paulistas de Arte Contemporânea e Salões Nacionais de Arte Contemporânea dos anos 80, diversos Salões de Arte Contemporânea, entre eles os de Campinas, Piracicaba, São Caetano, Jundiaí, Ribeirão Preto e Curitiba. Participou também da Bienal de Santos, da Bienal Internacional de São Paulo de 1989, de exposições no Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba e do Salão de Arte Contemporânea da Fundação Mokiti Okada, com exposições em São Paulo, Rio de Janeiro, Tóquio e Osaka.
Dimas Pires é marceneiro e escultor autodidata nascido em Sorocaba. Sua produção tem como base a reutilização de madeiras coletadas em demolições ou provenientes da queda natural de árvores, transformadas em peças que equilibram técnica artesanal e sensibilidade formal. Ao longo de mais de três décadas de ofício, Pires desenvolveu uma linguagem própria, marcada pelo respeito à matéria e pela valorização dos veios, imperfeições e histórias da madeira. Seu trabalho reflete uma relação direta entre natureza, memória e gesto, situando-se entre a escultura e a carpintaria como prática poética e sustentável.