13.000 Km
Viagem de 13 mil km leva casal até ‘Fim do Mundo’
"Aprendemos a resolver problemas juntos, a sermos mais pacientes, a celebrar cada momento como uma equipe"
No porta-malas, uma geladeira portátil, cobertores extras e uma boa dose de coragem. No coração, a fé e o sonho de chegar ao “Fim do Mundo”, dirigindo o próprio carro. Foi assim que o casal Vagner Fidelis, brasileiro de 49 anos, e Eliane Mi Chang Fidelis, coreana de 38, moradores de Piedade, município da Região Metropolitana de Sorocaba, percorreu mais de 13 mil quilômetros até Ushuaia, no extremo sul da Argentina, em uma jornada de 30 dias sobre rodas, enfrentando o frio, os ventos patagônicos e os imprevistos das estradas da América do Sul.
Juntos desde 2013, Vagner, servidor público, e Eliane, fonoaudióloga, sempre compartilharam o gosto por aventuras e viagens e, dessa vez, transformaram o sonho em realidade. “O que nos motivou a fazer essa viagem de carro, de Piedade até Ushuaia, foi, acima de tudo, a vontade de viver uma grande aventura juntos. Sempre sonhamos em chegar ao ‘Fim do Mundo’ - como Ushuaia é conhecida por ser a cidade que fica mais ao sul do mundo e mais próxima à Antártida, mas queríamos fazer isso de um jeito diferente: com o nosso carro, a nossa barraca de teto, no nosso tempo”, conta o casal, que compartilha tudo em suas redes sociais no perfil @nabagagem.oficial.
Com um planejamento que levou dois anos, eles prepararam a “Branquela” - uma Duster equipada com barraca de teto, placa solar, central elétrica e tudo o que fosse necessário para viver na estrada com autonomia. Mas nada poderia prepará-los completamente para os desafios, e surpresas, que surgiriam pelo caminho. “Viajar por terra nos permite explorar cada detalhe do trajeto, conhecer pessoas, culturas, paisagens e viver experiências que seriam impossíveis de avião. É desafiador, sim, mas também muito recompensador”, explica Vagner.
Entre ventos e guanacos, a estrada ensina
Durante o trajeto, o casal encarou de tudo um pouco: ventos de mais de 100 km/h na Patagônia, chuvas intensas, noites geladas na barraca e os perigos das estradas solitárias, onde os guanacos (ancestrais das lhamas, típicos da região) se tornaram presença constante e, infelizmente, um risco real.
“Teve momento em que parecia que a Duster ia sair da pista. Era difícil até abrir a porta do carro”, lembram. “E os guanacos são lindos, mas vimos muitos atropelados e carros destruídos. Foi triste e nos deixou ainda mais atentos.” Ainda assim, os perrengues viraram aprendizado e boas histórias. “A natureza impõe respeito, mas também nos presenteia com os momentos mais intensos e inesquecíveis.”
Entre o céu, o frio e a fé
Para eles, a viagem foi muito mais do que turismo, foi uma verdadeira experiência espiritual. “Estar na estrada, contemplando a criação de Deus, fortalece nossa conexão com Ele e com tudo o que realmente importa.”
Nem tudo, no entanto, saiu como o planejado. O sonho de escalar o vulcão Villarrica, em Pucón, precisou ser adiado por causa do mau tempo. Mas o que parecia uma frustração acabou se transformando em motivação para seguir adiante e, quem sabe, voltar um dia. E houve, claro, momentos mágicos: a travessia dos temidos “73 malditos” na Ruta 40, o silêncio imponente do Glaciar Perito Moreno e as paisagens surreais da Carretera Austral, no sul do Chile.
“Outro trecho inesquecível foi a região de San Martín de los Andes, passando pela Rota dos 7 Lagos até Bariloche. É simplesmente inacreditável de tão bonito. Cada curva parece um cartão-postal, com lagos cristalinos, montanhas cobertas de neve e uma paz difícil de descrever.”
Parceria à prova dos quilômetros
Além das paisagens, o que mais marcou a jornada foi a convivência intensa. “Essa viagem de carro foi uma verdadeira escola para nós como casal. Passar 30 dias juntos, praticamente 24 horas por dia, em um espaço pequeno, enfrentando desafios como frio extremo, ventos fortes, trechos longos de estrada e até imprevistos, tudo isso coloca a convivência à prova, mas, ao mesmo tempo, fortalece muito a parceria”, afirmam os dois.
“Claro que houve momentos de estresse e cansaço, isso é inevitável. Mas aprendemos a respeitar o tempo um do outro, a escutar mais, a ceder, a rir das situações difíceis e a valorizar cada pequena conquista juntos. O que mais me marcou foi ver o quanto a Mi foi parceira, corajosa e companheira de verdade. Ela topou tudo com o coração aberto, esteve ao meu lado em cada quilômetro, seja no frio cortante da Patagônia, no calor do norte da Argentina, nas noites na barraca de teto ou nas trilhas e travessias”, ressalta Vagner.
Essa convivência intensa aproximou ainda mais o casal aventureiro. “Aprendemos a resolver problemas juntos, a sermos mais pacientes, a celebrar cada momento como uma equipe. No fim das contas, a viagem foi muito mais do que conhecer lugares lindos, foi sobre viver um capítulo único da nossa história, que vamos carregar para sempre no coração”, finalizam.
A chegada e o novo começo
O ponto alto, como era de se esperar, foi a chegada a Ushuaia. A placa com o nome da cidade, o cenário gelado e o sentimento de missão cumprida emocionaram os dois. “Ver aquela placa, aquele cenário de fim do mundo, e saber que conseguimos chegar até lá dirigindo, com a nossa casinha sobre rodas, foi pura emoção. Ushuaia é linda demais e vai ficar para sempre no nosso coração.”
Mas o fim do mundo, para eles, não foi o fim da jornada, foi apenas o começo de um novo sonho: cruzar o continente até o outro extremo, o Alasca. “Em Ushuaia, pegamos o primeiro carimbo simbólico dessa jornada. Agora, seguimos motivados a buscar o segundo, lá no topo da América.”
Enquanto planejam a próxima etapa, seguem compartilhando dicas, bastidores e emoções nas redes sociais. E deixam um conselho para quem também sonha com esse tipo de aventura: “Planeje com antecedência, mas esteja aberto ao improviso. E, se tiver alguém especial para dividir tudo isso, vá com tudo! Porque não é só sobre os lugares que você vai conhecer, mas com quem você vai viver tudo isso.”
Murilo Aguiar - programa de estágio
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