Nelson Fonseca Neto
Almofadinha
A mulher que eu amo, a Patrícia, fica muito feliz quando dou bola fora. Como faço isso pelo menos umas três vezes por semana, podemos dizer que a Patrícia é uma mulher feliz. Ela já testemunhou algumas situações vexatórias que protagonizei. De vez em quando eu conto, nas horas vagas, as derrapadas do passado.
Se você trombar comigo na rua hoje verá que estarei de camiseta, tênis e calça jeans. Se estiver mais frio, uma camisa de flanela cobrindo a camiseta. Falar que abro o armário e pego as primeiras peças que aparecem é exagero, mas não fico pensando muito em combinações e quetais. A vida me ensinou.
É que eu já fui almofadinha. Quando eu era bem pequeno, contam que eu queria usar camisa polo da Lacoste, calça jeans e sapato de bico fino. Não me lembro dessa presepada, mas confio no pessoal da minha família. Eles contam rindo agora, mas deve ter sido meio assustador na época. Mais pra frente, lá pelos 12 anos, eu passei por uma fase lamentável. Disso eu lembro bem. Eu estudava inglês no Centro Cultural, na Cesário Mota. Naquela época eu morava na Penha com a Benedito Pires. O que eu vou contar não deve ter acontecido nos meses mais quentes do ano, porque aí o relato descambaria para o conto de terror. Também não fazia muito frio. Como naquela época o clima era mais estável, vamos descartar dezembro, janeiro, fevereiro, março, junho e julho.
Eu enchi o saco dos meus pais pedindo uma bendita calça xadrez cinza de flanela e um pulôver vermelho. Pra completar a tristeza, um mocassim. Não lembro de onde tirei a ideia maluca de me vestir assim. O lance com a camisa Lacoste tinha sido lá atrás. Foram vários anos de intervalo, nos quais eu tinha largado a mão de ser besta.
Sempre falo aqui: meus pais são anjos de tolerância e de paciência. Tentaram conversar comigo, dizendo que o que eu estava pedindo era meio bizarro. Não usaram “bizarro”, mas era o que eles estavam querendo dizer. Insisti e acabei ganhando a calça xadrez cinza de flanela, o pulôver vermelho e o mocassim. Só faltaram a boina e a piteira.
Resolvi estrear o fardamento de almofadinha na aula de inglês no Centro Cultural. Naquela época eu já ia a pé, sozinho, até lá. Meus pais ainda tentaram a cartada: por que não usar essa roupa numa ocasião mais solene? Ignorei as vozes da sabedoria e fui ser feliz. Nos poucos quarteirões entre a minha casa e o Centro Cultural, percebi alguns olhares de galhofa. Apertei o passo, pensando: a inveja é um veneno.
Chegando ao Centro Cultural, fui conversar com os meus amigos. Criança é cruel, nem preciso esmiuçar a coisa aqui. Começaram a gargalhar, e a coisa só foi acabar depois que a aula acabou. Voltei horrorizado com a truculência humana. Minha mãe perguntou como tinha sido a aula. Engoli a mágoa e disse: tudo certo.
Nunca mais usei a calça xadrez cinza de flanela, o pulôver vermelho e o mocassim. Malandramente, deixei as peças no guarda-roupa. Não dei bandeira cortando aquelas roupas com uma tesoura enquanto as lágrimas lavavam meu rosto. Também não fiz um bolo com aquilo e joguei no lixo. Aquela desgraça ficou no armário, para que eu sempre lembrasse do meu surto de almofadinha.
Contei isso tudo hoje pra Patrícia, e o olhar dela foi de puro júbilo.