Cultura
Ópera mistura fábula, sátira, absurdo e cultura popular
"O amor das três laranjas" está em cartaz no Teatro Municipal de SP
O primeiro-ministro Leandro e a princesa Clarisse, sobrinha do rei, tramam em cena: é preciso evitar que o príncipe assuma o trono. Sim, ele é hipocondríaco, atormentado por uma tristeza atroz. Mas e se sobreviver ao rei? Leandro resolve envenená-lo. E qual veneno usar? Um pouco de prosa trágica. Ou, então, quem sabe, um punhado de versos - não qualquer verso, e sim os chamados de “martelo”, compostos de dez sílabas. Basta passá-los no pão; ou picá-los em sua sopa.
É com esse tom de sátira, muitas vezes associada ao absurdo que “O amor das três laranjas” sobe ao palco do Teatro Municipal de São Paulo. Criada por Sergei Prokofiev em 1919, a ópera será dirigida pelo ator Luiz Carlos Vasconcelos, criador do Circo Piolin, e pelo maestro Roberto Minczuk, à frente da Orquestra Sinfônica Municipal e do Coro Lírico. A peça estreou sábado (1) e fica em cartaz até dia 8, com quatro apresentações e ingressos de R$ 10 a R$ 120.
“Fiquei totalmente arriado com a genialidade de Prokofiev”, conta Vasconcelos. “Logo no primeiro encontro com toda a equipe, eu disse: Prokofiev espera algo de nós. E trabalhamos sempre dialogando com esse objetivo”, diz.
É um diálogo com muitos personagens. A origem de “O amor das três laranjas” remonta ao século 17, quando Giambattista Basile recolheu do folclore napolitano a fábula de um rei que escala artistas para curar a tristeza de seu filho -- ao mesmo tempo que a corte trama para evitar sua chegada ao poder. Um século depois, Carlo Gozzi reinventou a história, dando a ela caráter de sátira às convenções do teatro trágico de sua época. No início do século 20, o dramaturgo Vsevolod Meyerhold traduziu a peça para o russo e a entregou para Prokofiev. O compositor, então, adicionou mais ironia e sarcasmo à mistura e a traduziu para o francês, ajudado por uma querida amiga, a soprano brasileira Vera Janacopulos.
“O meu processo de criação passa em especial pelo Meyerhold, muito ligado à cultura popular russa”, lembra Vasconcelos. “E por aí que essa ironia sobre o teatro e a ópera se conecta com o meu mundo, aquilo que determina meu olhar como indivíduo e artista, que é a relação com a cultura popular do Nordeste. O enredo da ópera é uma historinha popular, que aproximo das minhas verdades cênicas, passando pelo Meyerhold e pela maneira como Prokofiev coloca ainda mais ironia no texto.”
Expressões
Um time de cantores brasileiros sobe ao palco do Municipal na montagem. Além de Tristacci, como o príncipe, participam, entre outros Leonardo Neiva (Leandro), Lidia Schäffer (Clarisse), Jean William (Trufaldino), Johnny França (Pantaleão), Maria Sole Gallevi (Ninete), Anderson Barbosa (Mago Célio), Nathalia Serrano (Linete) e Gustavo Lassen (Cozinheira).
Como a Fada Morgana, a soprano Gabriella Pacce retorna ao universo cômico após uma série de óperas dramáticas -- a mais recente delas, Domitila, papel-título da obra do compositor João Guilherme Ripper apresentada em setembro nos teatros municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo.
“Eu amo fazer comédias, é sempre um repertório que carrega o imprevisível e obriga a sair da zona de conforto”, ela observa. “Neste caso, a Fada é de certa forma a má da história, a vilã, mas há nela uma colisão de expressões, entre o cômico e o trágico, que é interessante.”
Gabriella conta como foi o processo de criação ao lado do diretor Luiz Carlos Vasconcelos. “Foi um trabalho feito em conjunto. Ele dá muita importância àquilo que o rodeia, com muita atenção para o trabalho de direção de arte, por exemplo. Os figurinos também são muito interessantes e os personagens se criaram também a partir deles. Há muitos elementos, como a presença do circo, e o resultado é que dessa mistura nasce um espetáculo com muitas camadas.” (Da Redação com Estadão Conteúdo)
Serviço
O amor das três laranjas
Teatro Municipal de São Paulo
Pça. Ramos de Azevedo, s/nº, São Paulo - SP
Dias 4, 5 e 7, às 20h e dia 8, às 17h
R$ 10 a R$ 120.