Cultura
Miklos: uma ‘explosão’ de projetos
Foi Paul McCartney quem disse que é o aparelho de som de um carro o melhor lugar para se fazer o teste de uma canção. Claro que ele levou em consideração a acústica de seu carro, que não deve ser ruim, mas talvez tenha tentado dizer algo não exatamente sobre o que se ouve, mas sobre o que se vê quando se ouve. Uma canção funciona quando ela se junta à vida em movimento que vemos à nossa frente, tornando tudo mais leve, como em um clipe, e soando enquanto as imagens chegam editadas pela velocidade do carro. Assim, a boa canção seria nada menos do que a própria vida.
O álbum de Paulo Miklos soa assim, mesmo quando não se ouve em um carro. O título talvez dúbio é “Do Amor Não Vai Sobrar Ninguém”, mas as canções, mesmo feitas por ele sob as tristezas do isolamento pandêmico, não deixam dúvidas do bem-estar que querem provocar. É o segundo álbum depois de sua saída dos Titãs, o quarto solo, e talvez o mais esperançado. Ele vem com 12 canções feitas com um violão nas mãos enquanto a vida passava à sua frente, na sala de sua casa. “Eram, de alguma forma também, canções nas quais eu me refugiava”, diz ele à reportagem.
O álbum sai no ano em que Miklos gostaria de se dedicar mais à música desde que deixou os Titãs, em 2016. Isso se as comportas abertas todas ao mesmo tempo para escoar os filmes represados pela pandemia deixarem. Vai ser fácil ver Paulo Miklos por aí. Além de já estar gravando “Estômago 2 - O Poderoso Chef”, que terá cenas rodadas em Curitiba e na Itália, devem ser lançados em breve, com Miklos em ótimos personagens, “Jesus Kid”, uma adaptação de Ali Muritiba para o romance satírico de Lourenço Mutarelli; e a segunda temporada da série da Amazon, “Manhãs de Setembro”, sobre a história de Cassandra, vivida por Liniker, uma mulher trans que trabalha como motogirl de aplicativo em São Paulo.
Suas outras aparições no cinema serão com os longas “O Homem Cordial”, de Iberê Carvalho, que rendeu a Miklos um Kikito de melhor ator no Festival de Gramado de 2019 pelo personagem Aurélio, um quase autobiográfico vocalista de uma famosa banda de rock nos anos 1990; e “O Clube dos Anjos”, do diretor Angelo Defanti, baseado em um conto sobre amigos reunidos à mesa de jantar, escrito por Luis Fernando Verissimo.
Suas músicas chegam com uma capacidade de transpassar o ouvinte e ficar por ali por algum ou muito tempo. É o que pode acontecer com “Ao Teu Lado”, com “Um Misto de Todas as Coisas”, com “Se o Amor Ainda Existir” ou com a bela “Do Amor Não Vai Sobrar Ninguém”. É tudo simples e confortável, mas com uma assinatura de Miklos na condução de melodias nunca tão óbvias quanto seus inícios sugerem. Mais ou menos como a vida passando do lado de fora de um carro. (Da Redação com Estadão Conteúdo)