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Cultura

Erasmo Carlos, 80 anos e fervendo

Dois documentários estão sendo feitos sobre o cantor símbolo da Jovem Guarda

06 de Junho de 2021 às 00:01
Da Redação com Estadão Conteúdo
Erasmo aguarda ansiosamente a volta aos palcos.
Erasmo aguarda ansiosamente a volta aos palcos. (Crédito: DIVULGAÇÃO)

Na letra da canção “Sou uma Criança, Não Entendo Nada”, parceria de Erasmo Carlos com o amigo de fé Roberto Carlos, lançada em 1974, Erasmo canta que, apesar de um homem feito, diante dos problemas da vida, e ao contrário do que todos esperavam dele, não entendia nada. Três dias antes de chegar aos 80 anos, completados neste sábado, 5, em conversa com a reportagem, ele confessa: “Hoje entendo menos ainda, bicho”.

Esse inconformismo, na verdade, é o que leva Erasmo para frente, desde que ele, morador da Tijuca, na zona norte do Rio de Janeiro, ouvia nomes como Cauby Peixoto, Angela Maria e Dorival Caymmi cantando na Rádio Nacional. Depois, veio o rock’n’roll e a bossa nova. A vontade do garoto pobre era ser um desses ídolos Conseguiu.

“Com 80, podia estar jogando cartas com os aposentados na praia. Não. Estou aqui trabalhando. Gosto do que eu faço. Quis a vida que eu fosse um compositor, que eu aprendesse alguns acordes que me permitissem fazer minhas músicas...O resto é minha imaginação que faz”, diz.

Entre as novas canções, há pelo menos duas. Uma é em parceria com o rapper Emicida, feita para o novo disco da cantora Alaíde Costa. Outra é assinada com Supla, o rock Brothers Again, feita para a volta do Brothers of Brazil, projeto que o roqueiro paulistano tem com o irmão, João Suplicy.

Uma das comemorações dessas oito décadas será o documentário que a Globoplay vai estrear até o final deste mês. Produzido pela equipe do programa “Conversa com Bial” -- a mesma da série “Em Nome de Deus”, sobre o médium João de Deus, e do documentário “Arnaldo, Sessenta”, sobre o músico Arnaldo Antunes --, “Erasmo 80” trará entrevistas, números musicais e imagens raras.

“Descobrimos duas películas. Uma é uma reportagem do Jornal Hoje de 1977 feita pelo Nelson Motta que traz imagens de um show que Erasmo fez no MAM com a banda A Bolha. A outra traz Erasmo falando de Anistia e talvez seja o único registro em vídeo dele cantando ‘Quero Voltar’ (marchinha engajada de 1979). Também exibimos para ele alguns trechos da Jovem Guarda que ele nunca tinha visto. E o Erasmo se emocionou ao ver a participação dele no comício da Candelária pelas Diretas. Foi lindo”, conta Renato Terra, que assina o roteiro.

A diretora Sandra Werneck, de “Cazuza -- O Tempo Não Para” e “Pequeno Dicionário Amoroso” -- também prepara um documentário sobre Erasmo, com exibição prevista para o segundo semestre de 2022, no Canal Curta. O projeto foi aprovado na Ancine em 2018 e aguarda a liberação de verba.

“Quero andar com Erasmo pelas ruas da Tijuca. Será uma viagem musical por sua biografia, guiada pelo meu olhar, um olhar feminino. Vou abordar também as mulheres que cantaram suas músicas e trabalharam com ele. Será uma celebração de sua vida, de um artista que mais encarnou o espírito rebelde do rock no Brasil”, diz Sandra.

De volta aos palcos

No mais, Erasmo anda ansioso para que os shows voltem, quando as condições sanitárias permitirem, para que ele bote no palco a nova turnê que planejou. O projeto chama-se “O Futuro Pertence à Jovem Guarda”, frase do político russo Lenin, que também inspirou o nome do movimento ocorrido nos anos 1960.

No show, sucessos do iê-iê-iê que Erasmo nunca cantou antes. Entre eles, “Coração de Papel”, sucesso de Sérgio Reis; “Esqueça”, hit de Roberto Carlos; “O Bom”, de Eduardo Araújo; e “Devolva-me”, sucesso de Leno e Lilian. “Adoro estrada, viajar de ônibus com a banda, conhecer as pessoas pelas cidades, parar para comer churrasco. Essa é minha vida”, diz.

Saúde

Recentemente Erasmo anunciou que, há quatro anos, em um exame de rotina, descobriu um câncer no fígado. O compositor, que nos próximos dias fará novos exames para confirmar se está de fato curado da doença, como os últimos prognósticos mostram, diz que quer chamar a atenção para o tratamento que realizou em um hospital no Rio de Janeiro. Erasmo foi submetido a ablação percutânea, na qual uma sonda emite energia térmica para destruir os tumores. Ele não precisou fazer quimio ou radioterapia.

Esse é o segundo câncer que o artista enfrentou. Há vinte anos a doença apareceu na garganta. “Me cerquei da minha mulher e dos meus filhos. Minha boa fé também me ajudou. Não sou um ser especial. Sou igual a todas as pessoas. Quando algo assim vem, não tem que fugir. Só enfrentar”, diz, sobre o período complicado que passou.

Fazendo jus ao apelido de Gigante Gentil que ganhou dos colegas - a fama de mau não passava de uma estratégia nos tempos da Jovem Guarda - Erasmo lembra-se de Wanderléa, amiga de uma vida toda, com quem já dividiu muito o palco, que também aniversaria neste sábado. “Um amor de pessoa. Ela se preocupa comigo, manda recadinhos, quer saber da minha saúde. É uma querida. Minha irmãzinha”, diz, sobre a cantora que completa 77 anos. (Da Redação com Estadão Conteúdo)