Cultura

Morre poeta e artista visual Wlademir Dias-Pino

Sua obra "A Ave" (1956), iniciada em 1948, converteu-se em um dos primeiros livros de artista de nível internacional
Wlademir Dias-Pino morreu nesta quinta (30), aos 91 anos, em decorrência de uma pneumonia. Crédito da imagem: Reprodução / Youtube / TV de Quinta

O poeta Wlademir Dias-Pino morreu nesta quinta (30), aos 91 anos, em decorrência de uma pneumonia, no Rio. Ele estava internado desde o dia 13 de agosto. A cerimônia de cremação acontece neste sábado (1º), às 16h, no Cemitério do Caju.

Wlademir Dias-Pino foi autor de uma obra visual e gráfica extensa. Começou jovem, pela poesia, com livros que escapam do contexto da época e do cânone da Geração de 45, “A Fome dos Lados” (1940) ou “O Dia da Cidade” (1948).

As obras foram editadas em Cuiabá, onde morava desde 1936, em razão do exílio forçado de seu pai, anarquista. Era, portanto, um lugar fora das capitanias do litoral, como gostava de salientar em seu ideário geopolítico.

Apesar de ser carioca tijucano, nascido em 1927, esse sentimento de periferia, de margem, casaria bem com a liberdade experimental de seus diferentes projetos, com sua declarada autonomia.
Fundou uma linguagem exploratória que desmitificava a escrita como código, a favor do significante (desde criança já observava as letras, antes mesmo das palavras, na tipografia de seu pai).
Também cedo, em 1956, em São Paulo, e no ano seguinte, no Rio, participou da emblemática Exposição Nacional de Arte Concreta, que estabeleceu a poética construtiva, coincidindo com os irmãos Campos, Ferreira Gullar e artistas plásticos.

Sua obra “A Ave” (1956), iniciada em 1948, converteu-se em um dos primeiros livros de artista de nível internacional. Nela se produz uma interação inédita do leitor no itinerário das páginas, o livro inventando seu próprio sistema de leitura, desde sua fisicalidade, como livro-poema.

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“Solida” (1956) e “Numéricos” (1961-1986) fazem parte dessa pioneira e ousada biblioteca, onde o recorte tridimensional das geometrias é vaso comunicante com a escultura próxima dos neoconcretos, ou então o valor dos signos faz abandonar o espaço tido como literário.

Nos anos 1960, liderou o último movimento de vanguarda no Brasil, o Poema-Processo (1967-1972), talvez a aventura mais radical da visualidade poética brasileira. Um movimento que se contrapõe aos postulados da poesia concreta da época, pela ênfase intersemiótica dada aos signos e às imagens no lugar das palavras, e que tem recebido mais atenção fora do Brasil.
Sendo artista de dedicação plural e confesso experimentador, independente de mercado e instituições, a sua produção foi primeiro planificada, com trabalhos produzidos em períodos de cinco anos, e depois diversificada em várias direções, sempre em projetos, mais do que em obras.

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Neste amplo repertório, cabem os citados livros-poema, o design de publicações, o livro “A Marca e o Logotipo Brasileiros” (1974), as séries dos poemas-conceito, os poemas eletrônicos e a “Enciclopédia Visual”, além de pinturas e desenhos, incluindo a realização da decoração do primeiro Carnaval de rua com motivos geométricos no Rio, em 1958.

Entre 1973 e 1978, fez parte do quadro técnico da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e tentou implantar a chamada Universidade da Selva, projeto utópico que seguia critérios de uma geografia, cultura e antropologia permeadas de pensamento indigenista, do qual dão fé inúmeras peças gráficas.

Em seu retorno ao Rio, em 1994, seguiu trabalhando em várias frentes, especialmente em seu maior projeto, a “Enciclopédia Visual”, da qual saíram seis volumes anunciando seu perfil heterodoxo. Já nos anos 2000, voltou a ter destaque com a mostra individual de poemas eletrônicos (em parceria com Regina Pouchain, artista e companheira sentimental), “Contrapoemas & Anfipoemas” (2008).

Em 2015, ganhou reconhecimento na UFMT, com mostra antológica, mas foi a partir da exposição retrospectiva “O Poema Infinito”, no Museu de Arte do Rio (MAR), em 2016, que ganhou reconhecimento e divulgação. Na sequência, foi convidado a participar da 32ª Bienal de São Paulo (já havia participado das edições de 1967 e 1977). E, em breve, terá seu trabalho exibido no Centro Georges Pompidou, em Paris, e no Museu Reina Sofía, em Madri, que têm agendadas exposições de sua obra.

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Sempre uma figura cultuada, sobretudo dentro da poesia visual mais expandida, Dias-Pino é objeto de numerosos elogios da crítica, incluindo Antonio Houaiss, que o saudou como “um dos melhores pesquisadores visuais” do país. Apesar do reconhecimento dos últimos anos, ainda não existe nenhuma obra bibliográfica completa e à altura de sua prolífica diversidade. Uma aproximação valiosa, focada no período construtivo e posterior, é a publicação “Wlademir Dias-Pino: Poesia/Poema” (2015), organizada por Rogério Camara e Priscilla Martins.

Apesar da idade avançada, o poeta e artista visual carioca trabalhava incansavelmente, com seu fiel assistente Otavinho, no projeto mais ambicioso das últimas décadas, sua “Enciclopédia Visual”.
Composta por mais de 100 mil imagens, é uma obra-arquivo avis rara, uma verdadeira linha de horizonte. Como poeta visionário, Dias-Pino deixa um legado revolucionário, um além de confins imagéticos. (Adolfo Montejo Navas é curador e crítico de arte / Folhapress)

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