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Nelson Fonseca Neto

Fumaça

23 de Outubro de 2026 às 21:01
Coluna de Nelson Fonseca Neto
Coluna de Nelson Fonseca Neto (Crédito: Arte / Vitor Moretti)

Pra começo de conversa, quero deixar registrada minha admiração pelas pessoas estáveis, donas de planos sólidos. Pessoas que não se distraem pelo caminho. Que não ficam borboleteando.

Coisa de uns dez dias atrás, eu li empolgado "Entre bispos e reis", de Uirá Machado, que conta a vida do Mequinho, o maior enxadrista brasileiro. Quem tem uma certa idade sabe muito bem quem foi o Mequinho. Uma figuraça, um garoto-prodígio. O livro é uma delícia e prende a atenção de caras como eu, leigos de xadrez.

Depois de ter lido o livro, planejei conhecer melhor o mundo do xadrez. Separei uns textos, pensei em procurar algumas pessoas para conversar a respeito. O resultado ocuparia este espaço, e seria o casamento de resenha do livro do Uirá Machado com curiosidades sobre tão fascinante jogo.

Sei lá o que deu em mim, mas desisti. Vai ver a empreitada era bem superior às minhas forças. Quero acreditar nesse lampejo de humildade. O que eu sei é que parti pra outra. "Outra": palavra neutra para "vagabundagem". Passei uns dias lendo umas páginas aqui e outras ali. Zero de paciência para engrenar leituras mais robustas. De vez em quando eu passo por esses perrengues. Já me preocupei mais com essas fases. Agora, deixo a coisa rolar. Logo mais o CDF volta a dar as caras.

O bom desta fase meio desencanada é que eu gasto mais tempo pensando bobagem. E vocês bem sabem que bobagem é presença ilustre neste espaço. Os olhos ficam livres para reparar nuns detalhes preciosos. Os ouvidos capturam melhor umas coisas engraçadas.

Não sei se com vocês é assim, mas de quando em quando sou tomado por uns pensamentos paranoicos. Na semana passada, enquanto aguardava a chegada do Uber, veio a abobrinha: como o mundo ainda não entrou em colapso? É que, da calçada, eu vi a fiação maluca no poste. Já passaram por isso? Gastem um tempo na atividade. Seguramente vocês perceberão que tudo é muito frágil no nosso entorno. Numa chave mais dramática: somos sortudos porque só uma vez ou outra o transformador estoura.

Aí eu entrei no carro do Uber. Na hora deu pra notar que o cara era tabagista. Por mim, tudo bem. Já fumei bastante, parei faz quase seis anos. De vez em quando dá vontade de acender um cigarro, mas não é algo avassalador. Em termos de sensibilidade olfativa, o ex-fumante pode pertencer a três categorias. A dos que quase morrem de nojo quando alguém acende um cigarro a dois quilômetros de distância. A dos que acham o cheiro do cigarro o auge das delícias. A dos que são indiferentes, dos que sentem o cheiro do cigarro e pensam, algo que dura uns dois segundos: "tem alguém fumando". E só.

Eu pertenço à terceira categoria, o que é motivo de comemoração. Se pertencesse à primeira, seria um daqueles chatos que sobem no caixote e gritam o discurso contra os males do tabaco. Se pertencesse à segunda, provavelmente não ficaria sem fumar por quase seis anos. O perigo sempre estaria a postos na próxima curva.

Ainda no carro do Uber: lembrei da minha vida de fumante. Melhor: de uns detalhes da minha vida de fumante. Da minha relação com fósforos e isqueiros, por exemplo.

Fósforos: eu detestava. Nunca consegui acender um cigarro na primeira tentativa com um fósforo. Nunca. Eu podia estar dentro de um cubículo, com tudo fechado: eu precisava de uns dois ou três fósforos para conseguir o que almejava.

Isqueiros: eu olhava embasbacado para os donos de isqueiros Zippo. O barulhinho que aquilo fazia. A pose ritualística para acender o cigarro. Bem que eu tentei ter um Zippo. Dois, pra ser mais preciso. O primeiro eu perdi em três dias. O segundo eu consegui estragar com menos de um mês de uso. Aposentei o Zippo e passei a lidar com o Bic. Eu vivia queimando o polegar.

Nos meus anos de tabagista eu conheci um pessoal que fumava e que preferia comprar tabaco, papel e outros apetrechos em tabacarias. Só de ouvir a descrição do processo eu percebi que aquilo não era para mim. Sou um horror para essas coisas. Na escola, quando tinha trabalho de educação artística, eu bem que tentava me virar com cartolinas e colas, mas nunca dava certo. Quem acabava salvando a lavoura era a minha mãe.

Teve gente que, sabendo do meu gosto por leitura, sugeriu que eu trocasse o cigarro pelo cachimbo. Quem pensou nisso era refém do clichê. Devia achar que eu leio clássicos aninhado numa poltrona, trajando um roupão com monograma, ouvindo Brahms. Nunca foi assim por aqui, que é um lar, e não palco de opereta. Cachimbo seria chutar a bola por cima do alambrado. Já tenho a minha cota de ridículo.

Aí o Uber parou o carro. Desci e, tomado pelas reminiscências, quase pisei no cocô do cachorro. O cotidiano é uma aventura.