1985 foi um ano tumultuado. Eu tinha sete anos quando Tancredo Neves foi eleito, pelo voto indireto, presidente do Brasil. A votação foi no Congresso, e o candidato derrotado, Paulo Maluf. Lembro de ter assistido à sessão na casa da minha tia Carminha. Nos dias que antecederam a eleição, eu via hipnotizado o Jornal Nacional.
Depois foi aquela tristeza envolvendo a internação de Tancredo Neves. Aquele clima esquisito. Os primeiros dias encarados com leveza. Meu pai já desconfiando de que as coisas deveriam estar bem complicadas. Em abril, a tristeza. Até hoje, sempre que vejo a Fafá de Belém, o mundo de 1985 vem à tona.
Daquilo tudo ficou a certeza: eu queria ser jornalista da área de política.
Em 1985 apareceu outra coisa para distrair a vocação da criança antenada com o mundo de Brasília: o sinistro Mengele. Eu morria de medo do Mengele. Para quem não ligou o nome à pessoa: Joseph Mengele foi um dos médicos de Auschwitz. Realizou experiências macabras com os prisioneiros. Os relatos de seu sadismo são extensos e de virar o estômago.
Mengele conseguiu fugir da Alemanha no final da Segunda Guerra Mundial. Livrou-se de Nuremberg. Viveu na Argentina, no Paraguai e no Brasil. O Mossad israelense quase o apanhou. Por pouco seu destino não foi como o de Eichmann - responsável pela logística dos campos de extermínio, levado até Jerusalém, julgado e enforcado.
Mengele era uma figura graúda do nazismo. Muitos não se conformavam com a sua sorte. Ele passou os últimos anos de sua vida acobertado por uma rede de simpatizantes nazistas. Seu cotidiano, aqui no Brasil, era ameno. Passeios pelo campo, idas à praia, novelas à noite, cartas aos amigos e familiares. Morreu afogado em Bertioga, em 1979.
Como ele conseguiu esconder bem seu rastro, as pessoas não sabiam se ele estava vivo ou morto. A preocupação arrefeceu por alguns anos, mas foi retomada em meados dos anos 80. Isso porque uma das linhas de investigação chegou às pessoas que o esconderam no Brasil. Então veio a informação de que ele havia morrido em 1979 e foi sepultado num cemitério em Embu das Artes.
A imprensa divulgou amplamente os esforços para saber se era mesmo o corpo de Mengele que estava sepultado ali. Jornais impressos e da tv mostravam fotos de Mengele em vários momentos da vida. As mais marcantes mostravam um sujeito dono de um bigode enorme, cara enfezada. Só sendo criança naquela época para saber o medo que aquilo dava. É que, para ilustrar as reportagens sobre Mengele, abundavam as cenas dos campos de extermínio. Vinha o pânico ao pensar naquele cara à solta. Depois vieram as cenas com o crânio do Mengele.
Tem um livraço sobre isso tudo que acabei de mencionar: "Baviera Tropical", de Betina Anton. Fazia tempo, muito tempo, que eu não lia um livro tão bom.
Aí o futuro jornalista político quis ser jornalista investigativo. Eu achava lindo buscar a verdade a todo custo. Depois vieram os anos Sarney. Depois veio a eleição do Collor.
O que eu vou dizer aqui não é motivo de orgulho: eu virei especialista nos anos Collor, da eleição ao impeachment. A criança daquela época preenchia cadernos tentando estabelecer as ligações entre as pessoas envolvidas nos escândalos. Eu decorei todos aqueles nomes. Todos ainda estão tatuados no meu cérebro.
Naqueles anos o jornalista político voltou com tudo.
Se você se interessa pelo Brasil do final dos anos 80 e início dos anos 90, eu recomendo "Notícias do Planalto", de Mario Sergio Conti. Trata-se de um dos grandes livros de não-ficção publicados no país nos últimos quarenta anos. Do mesmo nível que a biografia do Garrincha, escrita pelo Ruy Castro; que a série de Elio Gaspari sobre o regime militar; que a trilogia de Laurentino Gomes sobre a família imperial, que a biografia de Chateaubriand que o Fernando Morais escreveu.
Em 1992 teve eleição para prefeito em Sorocaba. Eu estava no primeiro ano do ensino médio. A escola tinha um jornalzinho comandado pelos estudantes. Eu escrevi algumas reportagens. Uma delas foi sobre o Paulo Autran, que veio à cidade encenar uma peça no Teatro Municipal. Foi uma conversa ótima. Eu botava uma marra danada, com direito a bloquinho e tudo.
Aí a escola onde eu estudava resolveu promover encontros com os candidatos a prefeito. Fui incumbido de, ao final de cada encontro, conversar com os candidatos. Todos compareceram. E todos foram muito solícitos com o adolescente com ares de jornalista.
Quem ganhou a eleição foi o Paulo Mendes. Sempre fui com a cara dele. E para minha sorte, ele e a dona Norma moram no meu prédio. Vira e mexe encontro com eles no elevador. A conversa sempre é boa. E assim o seu Paulo, ex-prefeito, encontra com o ex-jornalista.