Nelson Fonseca Neto
Influencer de verdade
Vamos começar com alguns nomes: Charles Dickens, Victor Hugo, Liev Tolstói, Mark Twain e Arthur Conan Doyle. Grandes escritores e celebridades em seu tempo. Desmentem a noção de que o escritor deve ser, necessariamente, um pária da sociedade.
Alguém de hoje pode tentar diminuir o tamanho da fama deles. Seguem algumas informações.
No auge de sua carreira, Charles Dickens era lido por 70% da população adulta da Inglaterra. Tente imaginar a magnitude disso. Hoje não há quem chegue perto.
Procure os relatos do funeral de Victor Hugo. Milhões de pessoas em Paris. Isso no século XIX. Pesquise sobre a população da França na época, compare com a de hoje e sinta o drama.
Tolstói, nas últimas décadas do século XIX, morava em Iasnaia Poliana, propriedade rural que atraía visitantes do mundo inteiro. Tolstói recebia cartas entusiasmadas de pessoas do calibre de Gandhi.
Mark Twain, uma figuraça, rodou o mundo com palestras impagáveis. Filas enormes para ouvir aquele sujeito engraçado, bigodudo, que falava as coisas na lata.
Arthur Conan Doyle criou Sherlock Holmes, e já nos primeiros anos o detetive de Baker Street tinha milhões de fãs.
Vale a pena falarmos um pouco mais sobre Conan Doyle aqui. Você vai ter que imaginar o seguinte:
Um menino pobre: Arthur Conan Doyle. O pai sofrendo com o alcoolismo. A mãe linha-dura, segurando as pontas. O bicho pegava na era vitoriana.
Arthur Conan Doyle estuda medicina. É apaixonado por críquete e boxe. Aventura-se de vez em quando na literatura. Percebe que tem jeito para a coisa. Sherlock Holmes ainda não deu as caras.
No curso de medicina, Doyle é aluno de Joseph Bell, cirurgião brilhante, capaz de, a partir de um ínfimo sinal, entender situações complexas. Imagine a diferença que isso faz na hora de se examinar um paciente. E se você estiver atento, vai notar que temos o embrião de Sherlock Holmes na figura de Joseph Bell.
Antes de dormir, minha mente viaja. Gosto de pensar numas maluquices. Uma delas: o momento em que Arthur Conan Doyle criou Sherlock Holmes. O mundo nunca mais seria o mesmo.
Já na largada, como dissemos, Sherlock Holmes foi um sucesso. Conan Doyle ficou famoso. Ganhou muito dinheiro. Era parado na rua. As pessoas queriam saber dos bastidores das histórias de Sherlock Holmes. Não faltou quem o procurasse para resolver casos reais.
Conan Doyle ia vivendo uma vida tranquila. Estabilidade financeira. Trabalho reconhecido. Esposa gente fina. Filhos. Caminhadas pelo bosque. Cachimbo na biblioteca. Essas coisas.
Mas os anos finais do século XIX e os iniciais do século XX não foram fáceis. O cara dava uma tossidinha e já pensava: tuberculose? Muita gente morreu disso, incluindo a esposa de Conan Doyle. Não foi assim logo de cara, que nem aparece nuns filmes. Demorou uns anos. Nesse intervalo, Conan Doyle apaixonou-se por outra mulher. Dizia ele que era algo platônico.
Não era mais platônico um ano depois da morte da esposa. Foi uma época difícil. Doyle já queria encerrar a fatura com Sherlock Holmes. Ele não tinha mais pique para inventar peripécias. Num duelo nas Cataratas de Reichenbach, Sherlock Holmes morre.
Pergunte se Conan Doyle teve sossego. Muita gente reclamando. Teve até carta ameaçadora para Conan Doyle. (Um tempo depois, ele teve de trazer Holmes de volta.) Teve essa questão profissional e teve também uma tristeza que não abandonava o nosso intrépido Conan Doyle.
Ele era um homem de ação. Tratou de achar o que fazer. Topou com uma reportagem da seção policial: George Edalji, advogado de ascendência indiana parsi, foi preso, acusado de matar vacas e cavalos nos cafundós da Inglaterra. Conan Doyle sentiu cheiro de mutreta no ar. Vamos falar com todas as letras: racismo.
Então você vai imaginar a tempestade se formando: uma acusação fajuta; a turma do julgamento achando que ninguém ia dar a mínima; um escritor que é uma celebridade nacional tentando encontrar afazeres para espantar a tristeza; logo de cara o escritor se empolga e vai pra briga.
Uma certeza: você não gostaria de arrumar briga com Arthur Conan Doyle. Primeiro: o cara era famoso e tinha portas abertas para publicar artigos em qualquer jornal da Inglaterra. Segundo: o cara era carniça. Terceiro: um dos predicados de quem criou Sherlock Holmes não é a burrice.
Demorou, mas deu certo. Edalji foi inocentado. Conan Doyle abraçou outros casos. Graças a isso, a Inglaterra criou o Tribunal de Apelação Criminal, uma trava que permitiu a revisão de condenações injustas.
Isso não é maravilhoso?