Nelson Fonseca Neto
Vertigem
Machado de Assis, nos primeiros anos do século XX, tinha fama e prestígio. Publicava seus textos em jornais de grande circulação e em revistas respeitáveis. Levava uma vida moderada, almoçava e jantava em casa, na companhia da esposa Carolina. Dormia cedo, tinha amigos influentes. Ocupou bons cargos no serviço público.
Machado de Assis já era o rei da prosa brasileira naquela época. Já Olavo Bilac era o "príncipe dos poetas". O Parnasianismo era a corrente dominante na poesia: versos rebuscados, "arte pela arte", o poeta na torre de marfim. Hoje, equivocadamente, Bilac é tido como um poeta esnobe, que escrevia versos alexandrinos enquanto a coisa fervia no Rio de Janeiro. Bilac foi um "pop star" daqueles anos. Proferia palestras dos mais variados assuntos em teatros lotados. Publicava crônicas ácidas, que contrastavam com seus poemas exaustivamente lapidados. Sua figura era marcante nas confeitarias chiques do Rio de Janeiro.
Machado de Assis e Bilac desfrutavam dos aplausos, algo que não aconteceu com Lima Barreto. Enquanto Machado de Assis conversava agradavelmente com seus amigos poderosos, enquanto Olavo Bilac, no estrado, fechava os olhos para melhor aproveitar os aplausos ao final de uma palestra, Lima Barreto penava em empregos que pagavam uma ninharia. Morava longe do mundo dourado das letras cariocas. Sentia-se injustiçado, passou a beber, descontava sua raiva em textos que, hoje, são preciosidades da literatura brasileira.
Um dos alvos prediletos de Lima Barreto foi Paulo Barreto, mais conhecido como João do Rio. Impossível não reparar em João do Rio: robusto, espalhafatoso, vestia-se como um dândi, comia nos melhores restaurantes, era muito bem pago. Tudo conspirando para que ele fosse um colunista social, cobrindo a alta sociedade do Rio de Janeiro. Para nossa sorte isso não se deu, pois João do Rio era fascinado pelos aspectos mais sombrios da cidade. E assim conhecemos a dura vida dos tatuadores, das prostitutas, dos dependentes de ópio. Lima Barreto encrencava com o estilo meio rococó dos textos e com a fama de João do Rio.
Não restam dúvidas de que João do Rio foi um homem de imprensa. Podemos dizer o mesmo de Nelson Rodrigues, que era criança quando João do Rio estava no auge da carreira. Nelson Rodrigues era um adolescente quando publicou suas primeiras reportagens, no jornal do pai. Eis um caso de nepotismo positivo. Os anos de formação de Nelson Rodrigues passaram-se na cobertura de crimes passionais, de suicídios, de acidentes sangrentos. Levou essa vivência para seus textos. Notamos essa marca na peça "Vestido de noiva", que estreou em 1943, e revolucionou o teatro brasileiro.
Quem testemunhou essa revolução foi Manuel Bandeira, que foi a uma das apresentações de "Vestido de noiva" e escreveu uma resenha elogiosa. Não era pouca coisa, uma vez que Manuel Bandeira era um dos poetas consagrados da época. Nelson Rodrigues, ao ler o texto de Manuel Bandeira, ficou empolgadíssimo. Tentou mostrar sua alegria de tudo quanto era jeito. Imaginou que sempre o poeta o elogiaria. Pouco tempo depois percebeu que as coisas sempre são mais amargas do que desejamos: o estimado poeta passou a acreditar que Nelson Rodrigues estava exorbitando, amando a polêmica pela polêmica. E Manuel Bandeira foi tocando a vida de grande poeta das coisas simples.
Manuel Bandeira dividia os aplausos com Carlos Drummond de Andrade. Sempre que alguém fizer a lista de dez grandes portas brasileiros terá de citar Bandeira e Drummond. Bandeira era dentuço; Drummond, calvo. Os dois dando uma pinta enorme de senhorzinhos respeitáveis. Depois as pessoas foram descobrindo que os poetas senhorzinhos tinham seus casos amorosos. Eram homens, e não querubins. Souberam disfarçar. Drummond mais que Bandeira.
Drummond era o ídolo de uns jovens mineiros: Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino. Hoje, os três primeiros aparecem em qualquer antologia decente de crônicas. Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino despontaram mais cedo. Otto Lara passou muitos anos nos bastidores dos jornais. Foi adido cultural na Bélgica e em Portugal, louvado por muitos nomes importantes da literatura e do jornalismo. Escreveu contos, novelas e um romance. Era simpático nas conversas e retraído na ficção. Reescrevia maniacamente seus textos. Depois foi diretor na Rede Globo. Só escreveu regularmente crônicas no fim da vida. Passou quase dois anos publicando cinco crônicas por semana na Folha de São Paulo. Foi um dos grandes acontecimentos literários brasileiros das últimas décadas. Era delicioso, logo pela manhã, encontrar o textinho de Otto Lara Resende, misto de conversa fiada com erudição. Otto Lara Resende tinha muita história para contar. Usou o espaço da Folha para falar de tudo um pouco.
Já beirando os setenta anos, Otto Lara Resende entrou com gosto numa polêmica envolvendo a eterna pergunta: Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Ali, Otto Lara deu um show de leveza e de refinamento intelectual. Convém lembrar que Capitu e Bentinho são personagens de Machado de Assis.
Tudo isso que você acabou de ler aconteceu no Rio de Janeiro.