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Nelson Fonseca Neto

Perfeição

14 de Agosto de 2026 às 20:39
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No começo vai parecer conversa de hipnotizador. Depois melhora. Assim espero.

Suas pálpebras estão pesadas. Você está voltando a sua sala de ensino médio, antigo colegial, se preferir. É uma terça-feira. Está nublado e faz frio. A aula é de literatura. O professor está falando da transição do Romantismo para o Realismo na Europa. Meados do século XIX.

Surge o nome de Gustave Flaubert. O professor fala do sururu causado pela publicação de "Madame Bovary" (1850). O romance chocou muita gente. Em linhas gerais: Emma Bovary, a protagonista, casada com um médico sem graça, devora romances românticos para combater o tédio da província. O problema é que ela quer que a vida real seja como a dos romances. Começa a se envolver com uns tipos meio canalhas. Toma empréstimos de agiotas. As coisas não terminam bem para ela.

Depois o professor fala sobre Eça de Queiroz. Trata das acusações sofridas pelo amado escritor português: ao escrever "O primo Basílio", ele teria plagiado "Madame Bovary". O professor é um enfático defensor de Eça. Explica a diferença entre plágio e influência. O primeiro é crime, a segunda, algo saudável.

Até que você acha a conversa interessante, promete ler os dois romances quando tiver tempo. E você vai tocando a vida.

Agora você acorda.

Décadas se passaram. Você decidiu acertar contas com o passado remoto do ensino médio. Achou por bem ler mais livros e ficar menos tempo no Instagram. Cansou de tanta bobagem. (Se bem que é difícil se livrar dos vídeos pra lá de engraçados. Você ainda dá uma bicada nos vídeos, escondido, que nem o cara que disse ter parado de fumar e dá umas tragadas quando a coisa aperta. (Alô, Patrícia, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Estou falando do lance do cigarro. Os vídeos do Instagram eu vejo sem disfarçar.)

Voltemos ao ponto principal. Você quer ler mais e ver menos bobagens. Lembrou de Flaubert. Quer saber se vale a pena. Olha, vou dizer uma coisa: acredite no seu professor do ensino médio. Vale a pena. "Madame Bovary" ou outro livro dele? Eu sou meio suspeito para recomendar, mas vamos lá: tudo o que Flaubert escreveu, incluindo as cartas.

Você está notando que a conversa de hoje é uma declaração de amor à França. Então vai aqui mais um ponto: no filme "Os incompreendidos" (1959), de François Truffaut, Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), o garoto protagonista, acende uma vela para um retratinho do Balzac (outro gigante da literatura francesa e ídolo de Flaubert). É uma das cenas mais lindas que eu já vi, de um dos filmes mais lindos de todos os tempos. (Ainda hoje lembro de vê-lo pela primeira vez, num cinema em São Paulo. Foi uma das minhas experiências artísticas fundamentais. Muita coisa se resolveu ali para mim.)

Se eu fosse o Doinel, acenderia uma vela para Flaubert. Pensando bem, eu seria mais ecumênico: acenderia velas para Flaubert, Balzac, Tchékhov, Machado de Assis, Tolstói e Drummond.

Você tem todo direito de saber: por que uma vela para Flaubert? Só pelo sururu em torno de "Madame Bovary"? Só pela famosa frase "Madame Bovary sou eu", proferida no julgamento do autor por atentado aos bons costumes? Eu não faria isso com você. A valorização dessas coisas pitorescas, acessórias, é meio cansativo para mim. É jogar pra torcida, fazer firula, dar aquele drible a mais. (Por isso saio correndo dos tais julgamentos que buscam cravar se Capitu é culpada ou inocente.)

Sei que me empolguei e ocupei o espaço com umas ninharias, mas agora vai assim mesmo. Vamos, nestas linhas finais, tentar entender por que (sim, existe "por que" separado fora da frase interrogativa; é o equivalente a "por qual motivo".) Flaubert merece uma vela.

Você acha que é importante conhecer a vida de um autor para melhor desfrutar de sua obra? Vou dizer o que eu acho: não é obrigatório, mas o seu braço não cair se você souber de algumas coisas curiosas. Nessa jornada rumo ao pitoresco você vai encontrar de tudo um pouco. Vai saber que Machado de Assis era o Senhor Rotina, acordando cedo, dormindo cedo, frugal nas refeições, bom marido, bom amigo, bom funcionário. Que Dostoiévski gostava de uma roleta, se afundava em dívidas, escrevia seus romances a toque de caixa para receber logo os direitos e sair da lama. Que Tolstói, com mais de 80 anos, revoltado com a vida familiar, largou tudo e saiu por aí a pé. Na Rússia, na amena Rússia. Não tem como uma coisa dessas terminar bem.

Vai saber que Flaubert foi o mais perfeccionista dos escritores. Tinha vez em que ele demorava semanas para soltar um parágrafo. Já imaginou o drama? Detalhe: Flaubert tinha situação financeira confortável, o que permitia que ele se dedicasse à literatura em tempo integral. Já pensou? Você no escritório, olhando para os livros, para as estatuetas, para a janela. O dia inteiro nisso. Papel e caneta tinteiro na mesa. Penando para soltar um parágrafo, um mísero parágrafo. A gente fica sabendo disso porque Flaubert reclamava sem miséria, nas cartas, dessa sua constipação estilística. Dá dó dele.

Flaubert foi um trabalhador das letras por décadas. Se você enfileirar seus romances e novelas ao lado da obra completa de Jorge Amado, por exemplo, vai achar que o persistente francês escreveu uma obra mirrada. Mirrada, mas imbatível. Quando você terminar de ler isto aqui, vá tirar a prova. Você pode começar por onde achar melhor: "Madame Bovary", "A educação sentimental", "Um coração simples", "Bouvard e Pécuchet". (Deixei alguns títulos de lado.)

Sei que estou abusando da sua paciência, mas me permita a sugestão: deixe "Bouvard e Pécuchet" por último. A conversa de hoje foi uma rasgação de seda de fio a pavio, então não me envergonho de afirmar que "Bouvard e Pécuchet" é o livro mais engraçado de todos os tempos. Olha só como a literatura é fascinante. Em "Bouvard e Pécuchet", dois amigos, meio atrapalhados, se empolgam com vários ramos do conhecimento (agronomia, química, literatura, política etc.) e vão quebrando a cara tentando concretizar suas maluquices. Meio bobo, né? Vai lá conferir.

Meu amigo Flaubert, valeu a pena o sofrimento, hein?