Nelson Fonseca Neto
Aula de redação
Há quem diga que o conhecimento de regras gramaticais é a base para se escrever bem. Temos um nó aqui. O que é escrever bem? Imitar a prosa sinuosa de Ruy Barbosa? Homenagear Rubem Braga?
O jogo virou nos últimos anos. Passamos décadas ensinando que escrever bem é escrever difícil. Ou seja: a balança pendendo para o lado de Ruy Barbosa. Na prática, tivemos o seguinte: gerações de crianças acreditando que a redação deveria estar recheada de "outrossim", "ademais" e "por conseguinte"; as frases deveriam ser longas e estruturadas na ordem indireta. O leitor que se virasse para compreender as linhas tão arduamente buriladas.
Criticar o "escrever difícil" não pode descambar para a apologia da terra arrasada. Como se todo estilo exuberante fosse nocivo. O que fazer com o padre Vieira, um dos grandes autores de todos os tempos e que soube abrir sua caixa de ferramentas como ninguém?
Hoje se valoriza muito mais o estilo direto, sem carteiradas no vocabulário, tudo dependendo de frases curtas. Na maioria das vezes, o leitor agradece. Todavia, a mesmice pode ser de um aborrecimento atroz. A internet, sempre ela, é terreno fértil. Para tirar a prova, gaste um tempo lendo muitos dos textos que circulam por aí. Tem coisa boa, claro que tem; mas, em grande parte das vezes, parece que você está lendo algo escrito por um publicitário espertinho e sensível.
Tudo fica mais interessante quando fazemos a analogia da escrita com a roupa. É manjado dizer que muito do vestir-se bem tem a ver com a ocasião. Você não vai a um churrasco trajando fraque, a menos que a ideia seja promover momentos de humor entre seus amigos. Agora, se inadvertidamente você for ao churrasco vestindo fraque e seus amigos não falarem nada, eu tenho uma triste notícia: você não tem amigos.
Ruy Barbosa é fraque e cartola. Machado de Assis, terno e gravata. Jorge Amado, camisa de linho desabotoada, bermuda e chinelo. Rubem Braga, camisa, calça jeans e sapato.
Percebo que Rubem Braga tem aparecido bastante nos últimos textos que têm saído por aqui. Não foi algo planejado. A explicação não é das mais difíceis: Rubem Braga vem ocupando o centro das minhas atenções na literatura.
É meio bobo ficar fazendo ranking de escritor. É meio bobo e pode dar ensejo a brigas bem ao gosto da internet. Brigas que começam por ninharias e rapidinho viram sururus nos quais a turminha acaba perdendo a mão. É meio bobo ficar fazendo ranking de escritor, mas dá para cravar algumas coisas: Machado de Assis foi grande; Tolstói sabia escrever romance; Dickens escrevia umas histórias pra lá de tristes envolvendo crianças pobres; a Rachel de Queiroz cronista dá de dez a zero na Rachel de Queiroz romancista; e, o mais importante aqui, Rubem Braga é o Pelé da crônica. Ou o Pelé é o Rubem Braga do futebol.
Fica aqui o convite: ganhe alguns minutos lendo as crônicas de Rubem Braga no site Portal da Crônica Brasileira. Aquilo ali é uma aula de como escrever bem. A prosa não tem gorduras, mas tem ritmo (ora frases mais curtas e enfáticas, ora frases mais insinuantes). Zero de chance de você encontrar palavras equivalendo a carteiradas. E zero de chance de você encontrar o estilinho mixuruca de publicitário fofinho da internet. É um adulto escrevendo.
Chegamos ao momento em que eu tiro um revólver (metafórico) da cinta (metafórica) e dou um tiro (metafórico) no próprio pé (metafórico). Tiro no próprio pé porque sou professor de português e quero acreditar que uma das minhas atribuições é contribuir para que os alunos escrevam melhor. Vamos lá: ler Rubem Braga, Fernando Sabino e Otto Lara Resende vale algumas centenas de horas de aulas de português.
Aqui vai um negócio interessante. Certamente você já ouviu dizer de gente que escreve bem "de ouvido". O que é esse "de ouvido"? Ora, é se empanturrar de bons textos e permitir que aquelas palavras e que aqueles ritmos de frase fiquem gravados no seu HD. Coisa mais normal do mundo é encontrar o carinha que escreve bem pra caramba e que tem pavor de análise sintática. Aí é um parto falar pro carinha que a análise sintática não está ali para atrapalhar a vida de ninguém.
Eu já fui um desses carinhas no ensino médio. Eu preferia levar uma martelada no dedo a fazer a análise de uma oração subordinada substantiva completiva nominal. Meu lance era escrever uns textos cheios de marra e ler uns livros que me encantavam. Demorou para que eu compreendesse que a análise sintática, quando estudada na hora certa e do jeito certo, é uma ferramenta das mais interessantes, seja para a leitura, seja para a escrita. Veja bem: ferramenta, e não a coisa mais importante da vida. Se fosse assim, falaríamos mais de Napoleão Mendes de Almeida (célebre gramático) e menos de Rubem Braga.
Assim, com muito amor no coração, encerramos: no seu shake, adicione três medidas de Rubem Braga e uma medida de Evanildo Bechara (grande gramático). Beba o seu shake, ponha uma roupa confortável e vá ver a vida lá fora. Dá pra ser feliz com pouco.