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Letra Viva

Lá vem Copa

05 de Junho de 2026 às 22:43
Cruzeiro do Sul [email protected]
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É difícil a Patrícia acreditar quando digo que futebol é uma das coisas mais importantes da minha vida. Talvez seja melhor colocar da seguinte forma: foi uma das coisas mais importantes da minha vida.

Muitas das minhas recordações mais nítidas estão relacionadas ao futebol. Ainda consigo puxar na memória o cheiro da bola oficial da Copa de 86 que ganhei do meu pai. Lembro sem titubear dos nomes e dos rostos dos jogadores que apareciam nas figurinhas, também da Copa de 86, que vinham no chiclete Ping-Pong.

Duas daquelas figurinhas eram cobiçadíssimas: Platini craque francês, e Schumacher, goleiro alemão. Naquela época meu pai tinha consultório em Itu e comprou num posto de gasolina lá uma caixa com cinquenta chicletes. Conforme fui abrindo, apareceram sete ou oito goleiros Schumacher. Guardei duas das figurinhas preciosas comigo e fui pra escola com as demais. Voltei pra casa com um bolo bem robusto. Única vez em que me dei bem no comércio. Mas isso tudo ficou lá pra trás, em 1986. Ainda colecionei com afinco as figurinhas da Copa de 90. Larguei mão dali em diante, e é por isso que olho meio espantado pro lugar que o shopping reservou pras trocas de figurinhas da Copa.

Já é a segunda semana que passamos por lá e eu pergunto pra Patrícia: cadê as crianças desse lugar? É que a gente só vê uns caras da nossa idade, empenhados nas trocas de figurinhas. Isso aqui não é um julgamento; é apenas uma constatação.

Não tem como não comparar com a época da minha infância. A participação dos adultos no mundo das figurinhas era mínima. Não lembro de adultos conversando sobre figurinhas conosco. O papel deles era financeiro. Eu não trabalhava aos oito anos de idade. Ainda sobre figurinhas, e isto eu acho maravilhoso: meu pai, meu tio Raul e meu tio Kiko completaram o álbum da Copa de 62. Tive a sorte de ver aquela belezura. Preciso perguntar pra minha vó Clélia se o álbum não se perdeu.

Tenho só uns flashes da Copa de 82. Da Copa de 86 eu lembro bem. Morávamos na Penha com a Benedito Pires. Quase na frente do nosso prédio ficava o bar do Sinval. Em dia de jogo do Brasil a Penha parava por ali, e era um fuá delicioso. Outros jogos da Copa de 86 eu assisti na casa do Flavio Digiampietri, um dos meus grandes amigos. Quando o Brasil foi eliminado pela França, estávamos na casa do Eliodes, vizinho de parede do Flavio.

Na Copa de 90 eu perdi o prumo quando o Caniggia fez o gol que eliminou o Brasil. O jogo foi perto da hora do almoço e eu fui à mesa chorando sentido. Até hoje o Tiago, meu irmão, joga na minha cara aquele episódio grotesco e operístico. Eu chorava de soluçar.

Não me empolguei tanto na Copa de 94 porque eu tinha certeza de que o Brasil seria campeão. Vi todos os jogos. Lembro de todos eles, mas a coisa não teve graça. Comemorei, mas, sei lá, não foi tão legal assim. Tudo com o jeitão do Parreira. Isso explica muita coisa.

A Copa de 98 foi legal por causa dos churrascos que meus amigos e eu fizemos em quase todos os jogos. Canso só de lembrar daquelas farras. O corpo humano é fogo. Cada coisa que a gente aguenta fazer quando é jovem. Hoje, depois da academia, eu gosto de ir à padaria tomar um chazinho.

A Copa de 2002, no Japão e na Coreia, vários jogos aconteceram de madrugada. Não acompanhei vários deles. Comparada com as anteriores, meu envolvimento emocional foi bem menor. Às vezes eu esqueço a Copa de 2002.

Em 2006 tivemos a palhaçada da preparação da seleção brasileira. O Adriano estava com mais de cem quilos. O Ronaldo estava se arrastando. Os treinos da seleção eram baladas. O Roberto Carlos, no gol do Henry, estava preocupado em arrumar o meião. Em 2010 a seleção deu azar. É só ver o primeiro tempo contra a Holanda. E não nos esqueçamos: o Grafite era jogador de seleção. Em 2014, no jogo do 7 a 1, a coisa entrou no terreno da galhofa a partir do terceiro gol.

Na Copa de 2018, eu estava mais interessado na gravidez da Patrícia. Em 2022 eu brinquei com o João Pedro, que era um tampinha naquela época.

E chegou a Copa de 2026, a primeira sem o meu pai e a minha mãe. Não vai ser fácil. Em tempos normais, veríamos alguns jogos no apartamento deles. Agora estamos nos preparativos para a venda do apartamento deles. É uma mudança brutal, e ainda estamos tentando lidar com isso.

O futebol foi uma das coisas mais importantes da minha vida porque meu irmão e eu crescemos num lar favorável. Não que minha mãe fosse uma fanática. Não era. Quando meus pais namoravam, isso nos anos 70, ele foram ver Corinthians x Santos no Morumbi. Os dois times tinham uniforme preto e branco. Minha mãe, corintiana, confundiu tudo e estava torcendo para o Santos, achando que era o Corinthians. Se ela não era fanática, nunca podou os meninos da casa. Ela deixou o fanatismo do pai correr solto. Só nos resta agradecer.