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Nelson Fonseca Neto

Herança

08 de Maio de 2026 às 20:15
Cruzeiro do Sul [email protected]
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. (Crédito: PIXABAY)

Quando digo que sou professor de literatura, as pessoas acham que sempre fui um apaixonado pela poesia e que escolhi a profissão para unir o útil ao agradável. As pessoas que acham isso estão parcialmente erradas. Parcialmente porque, de fato, decidi ser professor de literatura por achar que era possível ler bastante e ganhar a vida com isso. Por enquanto estamos conseguindo tocar o barco.

O problema é a relação com a poesia. Preciso dizer a vocês que, até alguns meses atrás, minha relação com a poesia era superficial. Ao longo de quase trinta anos, tentei conhecer os principais poetas brasileiros e estrangeiros. Fiz isso para não fazer feio em sala de aula.

Sendo honesto, acho que não passei vergonha. Consegui, nas minhas aulas, fazer análises bem fundamentadas de poemas de várias épocas e tendências. Consegui, também, estabelecer comparações sólidas entre poetas.

Não que eu não achasse aqueles poemas formidáveis: eu achava, mas sentia que não ia ao âmago das palavras. Era muito mais um jogo intelectual. O duro é que eu conhecia algumas pessoas que viviam a poesia de uma outra forma. Meu pai, por exemplo. Já volto a falar nele.

Eu me empolgava muito mais com a prosa de ficção, especialmente contos e romances. Tive a minha fase de acender uma vela a Tchékhov. Li “Guerra e paz” (Tolstói) seis vezes. Não li mais vezes porque cheguei ao ponto de praticamente decorar o livro, e aí a coisa perdeu a graça.

Quando vinha o delírio de ser escritor, eu me via como contista ou como romancista. Escrevi uns contos no começo dos anos 2000. Desisti a tempo. Ainda bem que joguei fora aquela porcariada. Eram umas histórias violentíssimas que mostravam como eu estava eufórico com os contos de Dalton Trevisan.

Nunca tentei escrever um romance. Até tive algumas ideias. Gastei um tempo pensando em enredos e personagens. Eu sonhava com algo monumental, que conseguisse abarcar a sociedade. Tolstói e Dickens dando as caras.

Fui levando as coisas assim por vários anos. Arrisco dizer, com boa margem de acerto, que as minhas aulas sobre Machado de Assis foram bem melhores que as de Carlos Drummond de Andrade. A vida tem dessas coisas mesmo. Desisti de me preocupar com isso.

Escrevo crônicas desde 2011. Aceitei a missão já tendo lido um número razoável de textos do gênero. Impossível, no Brasil, gostar de ler e ignorar a crônica. Seria como ser russo, gostar de ler e ignorar o romance. A crônica é coisa nossa e devemos ter orgulho dela. Quero ver alguém encontrar um equivalente a Rubem Braga em outros territórios.

Encorpei minha leitura de crônicas a partir da minha colaboração aqui no jornal. Certamente foi meu lado CDF dando as caras. Ou seja: venho lendo crônicas regularmente há quinze anos.

Acho que posso receber a estrela de bom menino no quesito prosa. Agora quero voltar a falar de poesia, do meu pai e de outras coisas que mexem comigo.

Meu pai foi um grande leitor de poesia. Eu diria que ele passou mais de cinquenta anos lendo poesia com devoção. Não era pra se exibir, não era pra dar aulas; era porque era; era porque não tinha como ser de outra forma. Um jeito mais preciso de dizer: era vocação. Era um chamado.

Tive várias conversas com meu pai, sempre em tom de sarro, a respeito da minha predileção pelo romance e da dele pela poesia. Ele: não me conformo de você gostar tanto assim desses russos sombrios. Eu: não me conformo de você gostar tanto assim desses poetas malucos. Eu daria tudo para voltar a ter de novo essas conversas.

Eu disse lá no começo do texto que minha relação com a poesia era de um jeito até poucos meses atrás. Meu pai morreu em fevereiro e de lá pra cá eu passei a ler mais poesia. Não foi algo deliberado e eu não tinha me dado conta até poucos dias atrás. Foi a Patrícia que percebeu quando eu estava falando, meio empolgado, de uns poemas da Elisabeth Bishop.

Com o perdão do clichê, a ficha caiu ali. Nas últimas semanas passei a ler poesia como meu pai lia. Passei trinta anos da minha vida com a poesia apenas roçando a pele. Agora a poesia finalmente entrou na corrente sanguínea. A tal ponto, que não consigo ficar mais que dois ou três dias afastado de um poema. Minhas frases estão mudando, meu ritmo está mudando.

A vida vem aparecendo de outro jeito. Os objetos do cotidiano não são mais os mesmos. Capturo as palavras que ouço por aí, e antes eu as deixava escapar. Estou mais atento. Pareço o Miguilim botando os óculos que o médico oferece. (Em tempo: meu pai era exímio leitor de Guimarães Rosa, que fez poesia em prosa.)

E a gente vai rindo por aqui dessas voltas que a vida dá.