Nelson Fonseca Neto
Vila
Estou me dando conta de que a Vila Madalena tem muita coisa legal também
Foi no começo de janeiro, coisa de poucas semanas atrás. A gente inventa moda nos primeiros dias do ano. Alguns tentam pegar pesado na dieta, outros compram agenda para combater a desorganização crônica, outros se matriculam na academia, outros finalmente vão aprender inglês pra valer. Eu inventei de escrever um conto.
Os protagonistas da história: Maria Eduarda e Augusto. Casados. Os dois com 34 anos de idade. Conheceram-se na faculdade. Estudaram administração de empresas. Moradores da Vila Madalena, em São Paulo. O filho tem cinco meses de vida. Augusto trabalha numa corretora de investimentos. Maria Eduarda é dona de uma empresa que vende brigadeiro fitness. Não podem reclamar de grana. Julgam-se bons cidadãos. Separam o lixo direitinho. Sabem o que é emissão de carbono. Prestigiam a livraria que fica perto do apartamento onde moram. Cantam musiquinhas do Noel Rosa para o filhinho. Sabem o que é brinquedo não estruturado. No sábado, a tradição: almoço num bar que serve uns galetos deliciosos. E por aí vai.
Vai nada. Empacou. É mais velho que andar pra frente: os bons propósitos do começo do ano esfarelam que nem bolacha seca. Meu conto estava ocupando duas páginas do caderno. Percebi que aquilo não era conto. Era, isso sim, um jeito de tirar sarro do casal paulistano cheio de onda. Foi divertido escrever, mas nada daquilo se sustentava. O leitor, com razão, acharia tudo um besteirol.
Mas eu seria injusto se dissesse que não aproveitei nada do lance do conto. Demorou para eu me dar conta. Só agora me liguei no seguinte: minha relação com a Vila Madalena é contraditória. Já espinafrei a Vila Madalena aqui algumas vezes. É que tem hora que, pra mim, aquele lugar simboliza uma chatice sem fim. Todo mundo descoladinho, consciente, engajado, bom mocinho, boa mocinha, antenadinho, essas coisas. Sem contar o comércio com poesia na parede. Minha faceta de urso do interior dá uns urros com essas coisas.
Só que nem só de urro vive o urso. Há que se ter uma pitada de ternura de quando em quando. Pois é. Estou me dando conta de que a Vila Madalena tem muita coisa legal também. Enquanto eu escrevia o conto algumas semanas atrás, lembrei de umas livrarias bem bacanas. Umas maiores, outras bem pequenininhas. Recentemente, reportagens apontaram para o fortalecimento das livrarias de rua. É uma das boas notícias dos últimos tempos. Boas livrarias de rua fazem a vida ficar melhor.
Tem também a história do galeto da Vila Madalena. Tem muita comida boa na Vila Madalena. Não estou falando de coisa rebuscada, não. Estou falando das coisas sublimes da vida: feijoada, pastel, virado de feijão, galeto, croquete. Sábado é uma farra naqueles quarteirões.
Falam muito do Carnaval da Vila Madalena. Não me sinto apto a discorrer a respeito. Não sei o que é o Carnaval da Vila Madalena. Só vejo uma ou outra coisa na televisão e na internet. Engraçada a minha história com o Carnaval. Fico meio eufórico quando ele está chegando. Quando ele chega, fico na minha, na miúda. Curto a farra pelos outros. Não sei se me faço compreender. Fico eufórico com a euforia alheia. Só não me aventuro a entrar no meião de um bloco ou a ir a um desfile de escolas de samba. Acho que eu sou aquela princesa da história do colchão com a ervilha. Gosto de conforto, de colchão macio, de ar climatizado, de comer sem precisar entrar em batalhas campais numa fila. Meu olfato é marrento. Aí dá pra sentir a minha relação com o Carnaval.
(Escrevi a última palavra do parágrafo anterior e fui dar uma bicada no café. Voltei, reli o texto até aqui e fiquei contente: percebi que estou evoluindo. Deixei de lado o conto azedo sobre a Vila Madalena e escrevi uma crônica em que mostro a minha maturidade, a minha capacidade de ver as coisas boas da vida. Será que implantaram um chip diabólico no meu cérebro?)