Buscar no Cruzeiro

Buscar

Nelson Fonseca Neto

Um olho no peixe, o outro olho no gato

A brincadeira é uma tentativa de responder à seguinte pergunta: se eu não sou deste tempo, do século 21, de qual tempo eu sou?

30 de Dezembro de 2022 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
placeholder
placeholder

Foi em 2012. Uma amiga disse: Neto, o século 21 não é a sua praia; você viveria melhor no século 19. Achei graça, fiz um ou outro comentário e não fiquei remoendo aquilo. Mas a mente é traiçoeira e traz à tona o que considerávamos perdido. De uns dias pra cá, venho pensando naquilo que a minha amiga dissera.

Consigo identificar o gatilho que desencadeou o processo. A Patrícia e eu estávamos vendo TV. O João Pedro, com seus horários de sitiante, estava dormindo. Lá pelas tantas, depois de uma reportagem, eu soltei a palavra “tugúrio” para designar uma habitação precária. A Patrícia olhou espantada. Não soltei “tugúrio” por pedantismo.

(Antes de avançar no trilho principal, tenho de dizer o seguinte: eu me policio com as palavras. Vivo um embate diário. Há palavras pomposas que me fascinam. Só que pouca gente as usa ou as compreende. Meu lance com elas é a sonoridade. Morro de vontade de soltá-las nas mais prosaicas conversas. Só que aí entra o meu apreço pela expressão simples. Quem me acompanha aqui, ao longo destes anos todos, sabe que minhas frases são curtas e que eu não tento bancar o parnasiano no vocabulário. Seria sacanear o leitor, que tem o tempo tão contado, castigá-lo com um texto moroso. Crônica é agilidade.)

Dez anos depois das palavras da minha amiga, sou obrigado a reconhecer que ela tinha razão. Tenho amigos que se encaixam numa boa nos dias de hoje. Seria exaustivo entrar no terreno dos exemplos. Basta dizer que são pessoas que não se imaginam vivendo em outras épocas. Mas conheço gente que é o contrário: é o pessoal que para numa travessa da Eugênio Salerno e admira longamente o casarão decadente.

Quando escrevo crônica, tenho um pé em cada canoa. Não posso fechar os olhos para o que está acontecendo. Acho que não faço feio nesse quesito. Não seria saudável entupir este espaço com reminiscências ou com referências ao passado mais remoto. Mas não seria crônica se eu me dedicasse apenas aos comentários das notícias da semana. Cronista lida, necessariamente, com a passagem do tempo. O “cronos” de “crônica” ou “cronista” não é firula.

Digo isso porque as viagens ao passado vêm ganhando importância na minha vida. Não estou falando apenas das recordações. Tenho ido além. Venho brincando com as palavras da minha amiga. A brincadeira é uma tentativa de responder à seguinte pergunta: se eu não sou deste tempo, do século 21, de qual tempo eu sou? Por enquanto, identifiquei dois momentos/lugares.

O primeiro deles: 1903, Rio de Janeiro. Não por causa das roupas, Deus me livre. Facilmente eu seria feliz sendo amigo de Olavo Bilac, Machado de Assis e João do Rio. Eu me mataria de trabalhar escrevendo para jornais e revistas. Eu abraçaria grandes causas. Eu escreveria sobre a metrópole fervilhante. Meu texto seria inflamado. Cada frase, uma estocada. Eu daria palestras incendiárias. E eu tomaria um chá delicioso nas confeitarias da cidade.

O segundo deles: década de 50 do século 20, Rio de Janeiro. Eu trocaria as confeitarias de 1903 pelos bares de Copacabana. Olavo Bilac, Machado de Assis e João do Rio seriam substituídos por Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino e sua trupe. Eu me mataria de trabalhar para jornais e revistas. Eu não abraçaria grandes causas. Meu texto seria uma conversa pacata. Cada frase, uma reflexão meio melancólica, meio engraçada. Eu correria de palestras.

Ora, ora, temos um eclético por aqui.

[email protected]