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Nelson Fonseca Neto

Fora do centro

Não é preciso ser lá muito esperto para perceber a importância que damos aos automóveis. Também não é preciso ser um observador refinado para sacar que tem boi na linha quando um tampinha desce de uma caminhonete gigante ou quando um sujeito meio frustrado acelera a moto barulhenta com o fito de acordar os cidadãos tarde da noite.

02 de Dezembro de 2022 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
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A última coluna que escrevi tratava da minha paranoia com a data de validade dos alimentos. Teve gente que disse ter morrido de rir. E teve gente que disse que eu devia ser uma pessoa de difícil trato.

Sobre os que morreram de rir: rir da desgraça alheia é mais velho que andar pra frente. Sobre os que acham que sou uma pessoa de difícil trato: a Patrícia responderia melhor. Eu até poderia pedir para ela deixar registradas aqui algumas palavras que atestassem a minha doçura. Mas achei melhor não arriscar. A gente nunca sabe o que pode ouvir numa situação dessas.

Aí eu paro pra pensar. Em verdade vos digo: eu sempre paro pra pensar. Minha vida é parar pra pensar. É o que me faz humano. Do contrário, eu atenderia pelo nome “Fifo” e seria um pequenino cão Yorkshire.

Como eu dizia: aí eu paro pra pensar. Acho que não sou um cara de difícil trato. Não dou chiliques por qualquer bobagem. Cumprimento as pessoas com cordialidade e entusiasmo. Não sou de berrar. Essas coisas. Mas tenho de reconhecer: sou meio excêntrico. Excêntrico na base mesmo da palavra. Fora do centro. Afastado da média. O diferentão.

Não é de propósito. Eu não penso, ao acordar: o que posso fazer hoje para mostrar que sou uma figurinha carimbada? As coisas vão simplesmente acontecendo. Eu poderia mencionar o apartamento onde moramos, a quantidade de livros, o humor sombrio, a ignorância de como funcionam criptomoedas, a falta de destreza na hora de pilotar uma churrasqueira, o gosto musical que parou nos anos 80, essas mumunhas. Mas prefiro aprofundar num exemplo: o carro.

Deus me livre soltar aqui palavras eruditas sobre o peso do carro em nossa civilização. Não é preciso ser lá muito esperto para perceber a importância que damos aos automóveis. Também não é preciso ser um observador refinado para sacar que tem boi na linha quando um tampinha desce de uma caminhonete gigante ou quando um sujeito meio frustrado acelera a moto barulhenta com o fito de acordar os cidadãos tarde da noite.

Eu só queria falar do meu lance com carros. Até que é simples: eu não dou bola pra carro. Troquei poucas vezes de carro ao longo desses anos todos. Talvez alguém pense: se ele fosse rico, a conversa seria outra. Acho que não. É do jeitão de ser mesmo. Não me sinto superior por isso. Eu só não dou bola pra carro.

O problema é que as pessoas ao meu redor acham que sou adepto do espírito retrô. Como se eu só quisesse estar no meio de cacarecos. Nada disso. Não uso máquina de escrever, lamparina, vitrola, charrete. Ou seja: o carro não é a minha mensagem de resistência a uma lógica que atropela nossos afetos. É só velharia mesmo.

Não é a primeira vez que digo aqui: para modelos de carro, meu cérebro parou no Vectra. Ou seja: meados dos anos 90. Até hoje, Diplomata e Caravan são carros chiques para mim. Santana Quantum, Monza Classic, minha nossa!, puro luxo. Será que isso explica o motivo pelo qual nunca fui ao Hopi Hari, permanecendo fiel ao saudoso Playcenter? É um exemplo. Há outros, muitos outros, minha nossa! Agora travei.

Ora, ora, como diria o sábio, temos um caso aqui.

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