Cultura

Dança premonitória

Revisitado 16 anos após estreia, espetáculo “Corpo Estranho” fala de um vírus que invade o organismo e enfrenta resistência
Dança premonitória
A nova versão, além de Giovani Tozi, traz o votorantinense Felipe Vian e a paulistana Renata Vilela — todos usando máscaras de gás não cenográficas. Crédito da foto: Divulgação

Um vírus hipotético, que invade o organismo e enfrenta a resistência do antígeno que desencadeia a produção de anticorpos para expulsá-lo. Esse é o mote de “Corpo Estranho”, espetáculo de dança contemporânea criado pelo ator, coreógrafo e bailarino sorocabano Giovani Tozi, que será revisitado 16 anos após a sua estreia, em uma temporada transmissão online e gratuita.

“Corpo Estranho” estreou em 2005, no festival Curta Dança Nacional, no Teatro do Sesi Sorocaba, e foi indicado em sete categorias no festival, vencendo os prêmios de melhor espetáculo, melhor coreógrafo (para Tozi) e melhor bailarina (para Luciana Bollina).

Na época, Tozi assinava a concepção e a direção de seu primeiro trabalho e, em entrevista ao Cruzeiro do Sul, comentou que a coreografia “se desenvolveu a respeito de temas como corporeidade e relações entre natureza e cultura, além de estudos fisiológicos sobre anticorpo e antígeno”.

Agora aos 35 anos, radicado em São Paulo e com carreira consolidada como ator, tendo dividido os palcos com nomes como Jô Soares, Ataíde Acoverde e Luiz Damasceno, Tozi decidiu revisitar sua origem artística na dança, que está diretamente ligada às suas vivências e parcerias em Sorocaba. “Esse um espetáculo que é importante na minha formação, de pensar sobre os corpos em movimento, a dança. No ano passado, quando ela estava completando 15 anos, eu fui rever esse material no meus acervos e vi que não ficou nenhum registro em vídeo, nem mesmo do Curta Dança. Isso se perdeu, mas me estimulou a revisitar essa montagem”, assinala.

O tal vírus hipotético, que inspirou a criação da peça, infelizmente tornou-se realidade, ceifando milhares de vidas e alterando as interações sociais em todo o mundo. Mas deu a Tozi e aos novos bailarinos-criadores a possibilidade de recriar o espetáculo com outras perspectivas. “Eu nem chamo de remontagem, mas um novo espetáculo com esse tema. Já que fala justamente de um vírus, foi inevitável falar do novo coronavírus e deste tempo que nós estamos vivendo”, assinala.

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A metáfora dos movimentos corporais com o vírus também sugere paralelos a uma eventual invasão hacker a um sistema de dados, ou, em tempos de polarização ideológica, a um grupo social, composto por indivíduos que se reconhecem como semelhantes, que opera coletivamente para expulsar, silenciar ou exterminar a visão de mundo diferente.

Além de Tozi, estão no palco, usando máscaras de gás não cenográficas, o bailarino votorantinense Felipe Vian e a bailarina paulistana Renata Vilela, que já contracenou com Cláudia Raia no musical “Sweet Charity”. “Quando você muda as peças do tabuleiro, automaticamente o jogo vira uma outra coisa”, comenta Tozi. Ele lembra que, depois da premiada estreia no Sesi, o espetáculo itinerou por festivais e mostras pelo Brasil com elenco rotativo, com outros bailarinos de Sorocaba e Votorantim, como Andreia Nhur, Melany Kern, Preta Ribeiro e Cleyton Leme.

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Essa nova abordagem de “Corpo Estranho” é resultado de ensaios intensos do trio, que, segundo Tozi, respeitando todos os protocolos contra Covid-19, experimentou os movimentos possíveis desse corpo quarentenado, “um pouco rígido pelos meses de isolamento, mas maleável o suficiente para colocar-se em investigação e criação, elementos fundamentais para bombear ideias e refletir os dias através da dança”.

Realizado com recursos da Lei Aldir Blanc e do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, “Corpo Estranho” estreia na próxima sexta-feira (19) e segue temporada virtual até 28 de fevereiro. O acesso às transmissões ao vivo, que é gratuito, deve ser feito pelo site www.sympla.com.br. A classificação indicativa é de 10 anos. (Felipe Shikama)

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