Ballet Stagium apresenta dois espetáculos no sábado
Considerado um marco da dança brasileira por transgredir os limites entre arte, educação e consciência histórica, a coreografia "Kuarup" está de volta ao repertório da companhia Ballet Stagium 41 anos depois de sua estreia e será apresentada nesta sábado (21), às 20h, no teatro do Sesc Sorocaba.
Na ocasião, a premiada companhia de dança também mostrará seu trabalho mais recente, o "Fon Fon!", com composições de Chiquinha Gonzaga. Os ingressos, disponíveis até o fechamento desta edição, custam entre R$ 17 (inteira) e R$ 5 (sócios) e podem ser adquiridos pelo site www.sescsp.org.br ou na central de atendimento da unidade (rua Barão de Piratininga, 555).
O espetáculo duplo, ambos com direção de Marika Gidali e coreografias de Décio Otero, será interpretado por um corpo de 15 bailarinos e é livre para todas as idades. Entre as duas coreografias haverá um intervalo de 15 minutos quando será exibido um vídeo sobre a história da companhia.
Uma das mais importantes companhias de dança do país, o Ballet Stagium foi fundado por Marika e Décio em 1971 em São Paulo. Temas como o racismo, violência, opressões e genocídios foram retratados em seu repertório, que em parceria com o diretor sorocabano Ademar Guerra (1933-1993), desafiou a censura dançando textos proibidos na época, como "Navalha na carne", de Plínio Marcos, sob o título "Quebras do mundaréu", em 1975. "Para mim é uma emoção muito grande apresentar em Sorocaba, terra do Ademar, que foi muito importante para a companhia e faz tanta falta", diz.
'É um espetáculo totalmente atual, infelizmente', diz Marika sobre ¿Kuarup¿, que denuncia o extermínio das sociedades indígenas - ARNALDO J.G. TORRES / DIVULGAÇÃO
"Kuarup" teve sua estreia em 1977, em meio à ditadura militar e, por meio da dança, levava ao palco denúncias do extermínio das sociedades indígenas e apagamento étnico e defendia bandeiras progressistas como a demarcação de terras e a preservação de suas identidades culturais. Para Marika, a decisão da companhia de remontar a peça extrapola as comemorações de 40 anos, celebrados ano passado, e é justificada como necessária para "nos reconhecermos como território existencial". "Quarenta anos depois e as questões que eram colocadas não avançaram nada. Ao contrário, houve retrocessos. É um espetáculo totalmente atual, infelizmente", diz, sem perder a esperança de que a dança, por meio das emoções, é capaz de sensibilizar o público -- especialmente as novas gerações -- para os problemas sociais mais urgentes.
Já "Fon Fon!", que estreou em 2017 e abrirá o espetáculo duplo deste sábado, é descrito pela diretora como "uma obra leve". A coreografia rende homenagem à produção cultural brasileira do início do século 20 e seu nome é uma referência à revista de variedades criada em 1907 no Rio de Janeiro. "[O espetáculo] é como se fosse uma revista, que vai folheando as coisas importantes que aconteciam no começo do século passado. É uma obra leve, mas que destaca um período com importância cultural muito grande", comenta.
Primeira companhia de dança nacional a utilizar trilhas sonoras da MPB, valorizando nomes como Pixinguinha, Waldir Azevedo, Ari Barroso, Cartola e Adoniran Barbosa, o Stagium traz, neste novo trabalho, obras da compositora Chiquinha Gonzaga, uma das pioneiras do choro. O espetáculo, aliás, parte de uma pesquisa da companhia em torno da produção fonográfica do início do século 20, com especial ênfase para as gravações que Aracy Cortes fez para composições de Chiquinha Gonzaga.
Além de resgatar a obra musical destas importantes figuras da música popular brasileira, "Fon Fon!" procura destacar o pioneirismo e a relevância de Chiquinha e Aracy, mulheres que enfrentaram preconceitos e barreiras sociais e simbólicas para se consolidarem no cenário cultural brasileiro. "Se fala muito em igualdade de gênero e empoderamento feminino, mas essa luta não começou ontem. A gente olha para figuras como elas e vê que a luta é antiga. E a gente tem que seguir, resistindo, lutando e abrindo alas para poder passar", finaliza.