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Paulo Vieira de Souza é preso na 60ª fase da Lava Jato

19 de Fevereiro de 2019 às 10:07

As investigações tiveram início a partir de depoimentos e colaborações colhidas dos próprios funcionários da Odebrecht - Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo (01/07/2016)

*Atualizada às 11h

A Operação Ad Infinitum, 60ª fase da Lava Jato aberta nesta terça-feira (19), investiga R$ 130 milhões mantidos em contas controladas pelo ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza na Suíça. A nova etapa prendeu o ex-diretor, apontado como operador da Odebrecht e do PSDB, e fez buscas contra o ex-ministro Aloysio Nunes Ferreira Filho (Governo Temer/Relações Exteriores).

Em nota, o Ministério Público Federal informou que a operação aprofunda a investigação "de um complexo esquema de lavagem de dinheiro de corrupção praticada pela Odebrecht, que envolveu os operadores Paulo Vieira de Souza, Rodrigo Tacla Duran, Adir Assad e Álvaro Novis, que mantiveram relações pelo menos entre 2007 e 2017". As transações investigadas superam R$ 130 milhões, que correspondiam ao saldo de contas controladas por Paulo Vieira de Souza na Suíça no início de 2017.

Segundo a Lava Jato, as investigações indicaram a atuação do ex-diretor da Dersa como operador financeiro com importante papel num complexo conjunto de operações de lavagem de dinheiro em favor da empreiteira Odebrecht.

Os procuradores afirmam que Paulo Vieira de Souza "disponibilizou, a partir do segundo semestre de 2010, R$ 100 milhões em espécie a Adir Assad no Brasil". O operador, por sua vez, teria entregue os valores ao Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, aos cuidados do doleiro Álvaro Novis. O doleiro, de acordo com a Lava Jato, realizava pagamentos de propinas, a mando da empresa, para vários agentes públicos e políticos, inclusive da Petrobras.

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A força-tarefa da Lava Jato aponta que, no mesmo período que se seguiu à entrega dos valores em espécie por Paulo Vieira de Souza para a Odebrecht, propinas foram pagas pela empreiteira, em espécie, para gerentes e diretores da Petrobras: Djalma Rodrigues, Maurício Guedes, Roberto Gonçalves, Paulo Roberto Costa, Pedro Barusco e Sérgio Machado.

A investigação destaca que, em contraprestação à entrega de valores em espécie por Paulo Vieira de Souza e Adir Assad ao Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht no Brasil, o departamento de propinas da empreiteira transferiu dezenas de milhões de dólares para as contas do doleiro Rodrigo Tacla Duran no exterior.

Segundo a Lava Jato, Tacla Duran, depois de descontar as suas comissões e as de Adir Assad, devidas pela lavagem do dinheiro, ficava incumbido de fazer chegar às contas de Paulo Vieira de Souza os recursos a ele devidos.

A Operação Lava Jato também aponta que "existiram transações ilícitas entre os investigados em momento anterior, a partir de 2007". De acordo com os investigadores, em 26 de novembro de 2007, por intermédio da offshore Klienfeld Services Ltd, a Odebrecht transferiu 275.776,04 de euros para a conta controlada por Paulo Vieira de Souza, em nome da offshore Grupo Nantes, na Suíça.

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A apuração identificou que, no mês seguinte, a partir da referida conta de Vieira de Souza, foi solicitada a emissão de cartão de crédito, vinculado à sua conta, em favor de Aloysio Nunes Ferreira Filho. O banco foi orientado a efetuar a entrega do cartão de crédito no Hotel Majestic Barcelona, na Espanha, para Aloysio Nunes Ferreira Filho, que estaria hospedado no hotel entre 24 de dezembro de 2007 e 29 de dezembro de 2007.

Foram identificados ainda depósitos efetuados, no ano de 2008, por contas controladas pela Andrade Gutierrez e Camargo Correa, em favor da mesma conta controlada por Paulo Vieira de Souza na Suíça, no valor global aproximado de US$ 1 milhão.

Bunker de Paulo teria o dobro de dinheiro do de Geddel

De acordo com o delegado da Polícia Federal Alessandro Vieira, Souza deveria seguir para Curitiba (PR) ainda hoje, mas ficou em São Paulo a pedido do Ministério Público porque tem "compromissos judiciais" na capital relativos a outros processos, como uma audiência na manhã desta terça-feira.

"São pessoas investigadas e que respondem a outros processos criminais. Temos a sensação de que estamos diante de um ciclo interminável de corrupção e lavagem de dinheiro", afirmou o delegado.

Nos depoimentos, os operadores disseram que Paulo Vieira tinha um bunker para guardar propinas de mais de R$ 100 milhões e que chegava a colocar notas para "tomar sol" para evitar bolor. "O bunker de Paulo Preto (sic) tinha o dobro do bunker do Geddel (Vieira Lima)".

Caixas-pretas

O procurador da República Júlio Noronha afirma que "a Lava Jato, prestes a completar seu aniversário de cinco anos, ainda investiga várias caixas-pretas que precisam ser abertas". "Para que essas caixas possam ser abertas é fundamental que as apurações sobre corrupção não sejam deslocadas para a Justiça Eleitoral e que a execução das penas pelos agentes corruptos não seja postergada indefinidamente. Isso dificultaria as investigações e promoveria a impunidade, desestimulando a colaboração com a justiça e favorecendo aqueles cujos crimes ainda são mantidos em segredo. É importante que a sociedade, por isso, participe do debate sobre essas questões que serão julgadas pelo STF nos próximos dois meses", destaca.

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As investigações são amparadas por documentos apreendidos em fases anteriores, provas fornecidas pela Odebrecht no seu acordo de leniência, incluindo mensagens trocadas entre os investigados na época dos fatos (registradas no sistema "Drousys", usado pelo setor de propinas da empreiteira), depoimentos de colaboradores, relatórios de informação da Assessoria de Pesquisa e Análise da força-tarefa, extratos e documentos de transferências de contas estrangeiras e nacionais.

"Nesse contexto, foi fundamental a obtenção de evidências mediante a cooperação internacional entre o Brasil e quatro países: Suíça; Espanha, Bahamas e Cingapura", informa o Ministério Público Federal. O procurador da República Roberson Pozzobon destaca que "ao longo de quase cinco anos a Operação Lava Jato vem, fase após fase, montando quebra-cabeças de grandes esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro no País".

"A sexagésima operação Lava Jato investiga complexo esquema de lavagem da Odebrecht de mais de uma centena de milhões de reais, no Brasil e no exterior, por pelo menos cinco operadores financeiros, entre os quais Paulo Preto (Paulo Vieira de Souza). Parte das peças desse grande quebra-cabeça foram obtidas pelo MPF a partir de acordos de leniência e de colaboração premiada, cooperações internacionais com quatro países, análise e relacionamento de provas obtidas em buscas e apreensões de fases anteriores da Lava Jato e afastamentos de sigilos fiscal e bancário. Os mandados de busca e apreensão que estão sendo cumpridos hoje visam a obter outras peças dessa gigantesca figura criminosa", declara.

A Lava Jato afirma que "há risco significativo e iminente, a um só tempo, para a ordem pública e para a aplicação da lei penal, o que torna a prisão de Paulo Preto imprescindível".

"De fato, sua custódia é necessária em razão da gravidade concreta dos crimes de lavagem de dinheiro relacionado à corrupção, que envolveram mais de uma centena de milhões de reais, da reiteração e habitualidade na prática de crimes por mais de uma década, na atualidade da lavagem de dinheiro e na sua atuação deliberada para impedir o bloqueio e confisco de valores ilícitos", destaca Ministério Público Federal.

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"Em relação ao último aspecto, é relevante notar que, em dezembro de 2016, quando o acordo da Odebrecht se tornou público, Paulo Preto mantinha cerca de US$ 34 milhões na Suíça, país que notoriamente tem cooperado com a Lava Jato. Logo em seguida, no primeiro trimestre de 2017, Paulo Preto encerrou as contas suíças e remeteu os recursos para Bahamas, impedindo assim um iminente bloqueio de valores que são fruto de atividade criminosa."

A força-tarefa informou que sua apuração concentra-se na atuação de Paulo Vieira de Souza como operador financeiro que atuou na cadeia de lavagem de dinheiro em favor da Odebrecht. O ex-diretor da Dersa é alvo de ações penais em São Paulo.

"Não é objeto da investigação no Paraná a sua atuação como ex-funcionário público do Estado de São Paulo, de responsabilidade de autoridades que atuam naquele Estado", assinalou.

Defesas

A reportagem ainda não conseguiu contactar os citados. (Lorenna Rodrigues, Julia Affonso, Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Luiz Vassallo - Estadão Conteúdo)