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País encara pandemia em seu pior momento

25 de Fevereiro de 2021

País encara pandemia em seu pior momento O colapso de Manaus, no mês passado, teve consequências dramáticas para milhares de famílias. Crédito da foto: Edmar Barros / Estadão Conteúdo (11/1/2021)

Doze meses após o registro do primeiro caso da Covid-19, o Brasil superou ontem a marca de 250 mil mortos e vive a pior fase da doença, com avanço rápido e recorde de óbitos, vacinação lenta e maior necessidade de medidas restritivas para evitar colapso de sistemas de saúde locais. Especialistas afirmam que a pandemia continua sem controle no País, que ainda registrou ontem a maior média móvel de mortes:1.129.

Até as 20 horas de ontem (24), foram 250.079 óbitos, conforme levantamento do consórcio de imprensa. Em 24 horas, houve mais 1.433. Desde o dia 21 de janeiro, o País apresenta média de mais de mil mortes, o que significa 34 dias consecutivos, período mais longo com esse patamar alto desde o início da crise -- o marco anterior era de 31 dias, entre 3 de julho e 2 de agosto de 2020.

“Além de os dados já apontarem para uma piora com relação ao momento mais crítico de 2020, a tendência é de aumento dos índices epidemiológicos. Existe o temor da circulação de novas cepas, mais agressivas e que com maior capacidade de disseminação”, avalia Wallace Casaca, matemático da Unesp e um dos responsáveis pela plataforma SP Covid-19 Info Tracker.

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil já identificou novas cepas em exames de 204 pacientes, número também recorde. São 20 casos da variante do Reino Unido e 184 da brasileira, originária no Amazonas, mas já presente em 17 Estados até 20 de fevereiro.

Quando o País atingiu 100 mil mortos, no dia 8 de agosto do ano passado, a média móvel de vítimas indicava um início de queda e cidades e Estados flexibilizaram restrições e desativaram hospitais de campanha. No mês de outubro, na marca dos 150 mil, o cenário era semelhante. Chegou-se aos 200 mil em 7 de janeiro e bastaram apenas mais 48 dias para alcançar os 250 mil. Ao contrário da Europa, que teve claramente uma primeira e uma segunda ondas, o número de novas infecções e óbitos nunca arrefeceu no Brasil. E hoje a curva de casos e mortes é ascendente.

A gravidade espelhada pelos dados estatísticos ganha contornos reais quando se observa que nos primeiros 54 dias do ano no Amazonas o número de mortes por Covid-19 já ultrapassou o total do ano passado -- 5.288 só neste ano. No Rio Grande do Sul, as UTIs dos cinco maiores hospitais de Porto Alegre não têm mais vagas e nos 299 hospitais do Estado o porcentual de ocupação de vagas nas UTIs é de 87%. São Paulo, que detectou o primeiro caso e responde pelo maior número de registros desde o início, ampliou restrições ontem, alegando risco de colapso nas UTIs em três semanas.

Para a microbiologista Natália Pasternak, os números mostram que o Brasil aprendeu pouco. “Enquanto o mundo inteiro juntou conhecimento sobre o vírus e a transmissão da doença, estamos num ritmo de proliferação acelerado. Grande parte da população nega a gravidade da pandemia e a própria pandemia. Aglomerações em bares, restaurantes e festas oferecem condições propícias para o vírus. Esses 250 mil são um símbolo da nossa incapacidade de gerir a pandemia”, afirma a presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC).

A urgente vacinação de toda a população é vista como a única estratégia para começar a mudar esse cenário. Mas, o atraso nas compras de vacina, insumos e no registro dos produtos, além da falta de uma coordenação nacional de logística, preocupam os especialistas. (Gonçalo Junior, Daniel Bramatti e Priscila Mengue - Estadão Conteúdo)