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Maioria dos atiradores de crimes em escolas não é psicopata, dizem estudos

Experiências de vida podem desenvolver um comportamento agressivo em uma pessoa sem sinais de doença mental
Massacre em Suzano deixou dez mortos – Foto: Miguel Schincariol/AFP (14/03/2019)

Planejar por meses ou anos um ato cruel, ter o sangue frio de atirar contra crianças e adolescentes indefesos de forma aleatória, e terminar o crime com suicídio. Para a maioria das pessoas que assistem a um massacre em escolas ou ouvem relatos de casos do tipo, como o ocorrido em Suzano na semana passada, é difícil não associar o atirador a um psicopata, de perfil cruel, frio e sádico.

Estudos científicos internacionais feitos com base na análise do perfil de dezenas de atiradores no mundo, no entanto, trazem conclusões intrigantes: na maioria dos casos, não havia sinal de psicopatia nos atiradores, o que leva os pesquisadores a acreditarem que experiências de vida, como traumas, abusos ou outros fatores sociais, possam desenvolver um comportamento agressivo em uma pessoa sem sinais de doença mental.

“O que sabemos é que mesmo pessoas biologicamente saudáveis podem desenvolver problemas assim quando submetidas a condições adoecedoras, ou quando inseridas numa cultura doente, pelo fato de que nossas crenças, nosso modo de interpretar e compreender a realidade não é algo imutável, fixo, rígido”, explica o doutor em Psicologia e professor do Instituto Federal de Goiás Timoteo Madaleno Vieira, autor de um artigo em que revisou dezenas de estudos internacionais sobre o perfil dos atiradores e concluiu que classificá-los sempre como psicopatas é simplista e incorreto.

“No senso comum, a ideia de um monstro, um psicopata tresloucado, é muito usada para dar a resposta que procuramos (para esses atos). Isso simplifica as coisas. Explicações assim falsificam a realidade e nos ajudam a evitar a percepção de que podemos ter responsabilidade na expansão desse fenômeno”, diz.

Características comuns

Se os atiradores têm perfis psicológicos diferentes entre si e motivações diversas, eles reúnem, por outro lado, algumas características em comum: a grande maioria é homem, branca e obteve a arma usada no ataque em casa, utilizando armamento de posse dos próprios pais, segundo estudos do FBI e do psicólogo americano Peter Langman, um dos maiores estudiosos do assunto no mundo, que levantou dados sobre 150 ataques em escolas em dez países, incluindo o Brasil.

Análise feita pelo Estado na base de dados do pesquisador, disponível no site schoolshooters.info, mostra que, dos 150 atiradores analisados, 94% era do sexo masculino, 63%, branco, 42% não sobreviveram ao ataque – a maioria porque cometeu suicídio -, e 38% era menor de idade ao cometer o ataque homicida.

O psicólogo criou ainda uma tipologia para o perfil psicológico dos atiradores, os dividindo em três grupos: traumatizados, psicóticos e psicopatas (em tradução livre).

Os traumatizados tinham histórico de abuso por parentes ou famílias desestruturadas, com casos de violência ou dependência química. Os psicóticos apresentavam sinais de esquizofrenia ou algum transtorno de personalidade. Entre os sinais estavam alucinações, delírios ou paranoias. Por fim, os psicopatas tinham os sintomas clássicos do quadro, como narcisismo, ausência de empatia e sadismo.

Na análise dos 150 atiradores, o pesquisador conseguiu informação suficiente de 81 deles para traçar o perfil e chegou a conclusão de que 49% eram psicóticos, 32% eram psicopatas e 19% eram traumatizados.

Dificuldade

Segundo o estudioso, nem sempre é fácil para as famílias identificar esses perfis previamente. “Entre os atiradores traumatizados, os pais são os principais problemas na vida dos filhos. Para os outros perfis, não é que os pais estejam falhando. Muitas vezes eles escondem deliberadamente os seus pensamentos e sentimentos dos pais. Mesmo quando os atiradores estiveram em psicoterapia, ocultaram suas intenções violentas”, disse ao Estado.

Há sinais, no entanto, demonstrados previamente pelos atiradores que podem servir de alerta para pais e docentes, como obsessão por armas ou mídias violentas, postagens sobre ataques, comportamento agressivo ou depressivo, entre outros. Vieira fala sobre traumas e doenças mentais que podem fazer com que jovens tenham comportamento agressivo.

Qual é o papel dos pais e da educação no desenvolvimento de comportamentos agressivos?

O ambiente familiar tem uma importância muito grande. É o primeiro ambiente onde se espera que as primeiras crenças se estruturem. São as crenças que definem o que a pessoa pensa sobre si mesma, sobre a vida, sobre os outros, sobre a realidade Os estilos parentais têm uma importância muito grande na comunicação de afeto e nas orientações básicas de conduta. A falta de limites e de afeto produzem efeitos deletérios muito significativos para o desenvolvimento das crianças, com desdobramentos para a adolescência e a vida adulta. A comunicação de limites claros, a repreensão pertinente e com motivos bem definidos ou mesmo, em alguns casos, a punição por comportamentos inadequados são um modo de comunicar afeto. É possível que crianças que nunca são punidas e que não têm limites não se percebam como importantes e amadas.

O bullying e isolamento são fatores importantes na ação de atiradores como os de Suzano?

Ser ridicularizado e agredido é algo impactante. O modo de responder a isso, no entanto, depende de como a vítima interpreta essa realidade. Uma pessoa sofre bullying e reage na hora, outra desenvolve fobia social, outro começa a alimentar desejo de vingança, enquanto outros contam aos pais, pedem ajuda, superam e seguem a vida. O que define a resposta de cada um são as crenças a partir das quais cada um atribui sentido a essas experiências. Os relatos sobre atiradores de vários casos de school shooting (atiradores em escolas) ao redor do mundo mostram que com frequência os agressores foram vítimas de bullying. Ao mesmo tempo, mostram que quase sempre há uma distância dos pais ou cuidadores, o que facilita um longo processo de estruturação de crenças que envolvem autopercepção negativa, raiva, desejo de vingança, delírios que partem do desejo de sair da condição de pessoas estranhas, insignificantes e feias para se tornarem mártires que entram para história.

Como explicar que uma pessoa que tenha sofrido bullying e se sentido frágil acredite que estará agindo pelos fracos com tamanha violência?

Num mundo não midiático, provavelmente isso aconteceria de outra forma. Quando um massacre acontece, sobretudo desde Columbine, em 1999, a divulgação é feita de forma massiva na TV e na internet. Os agressores sabem. Sabem também que ocuparão o noticiário por muito tempo e serão lembrados. Eles planejam sua ação incluindo o efeito midiático que querem produzir. Sabem que há muitos como eles, se sentindo vulneráveis e enxergando a vida de modo semelhante ao deles. O que querem é ser lembrados como pessoas que reagiram. A interpretação do quanto essa reação é aceitável passa pelo filtro distorcido de crenças muito complicadas. (Fabiana Cambricoli – Estadão Conteúdo)

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