Rota do Equilíbrio

Refluxo Gastroesofágico E Dieta Low-Carb Com A Dra. Ana Martha

Em uma entrevista que fizemos recentemente com a médica gastrointestinal Ana Martha para nosso podcast, abordamos diversos temas relacionados à saúde estomacal.

Dentre eles, podemos destacar a questão do refluxo.

Abaixo você pode conferir um trecho da entrevista no qual a Dra. Ana Martha aborda a questão.


 

Primeiro, o refluxo gastroesofágico não ocorre, geralmente, por causa de um excesso de ácido no estômago. 

Na verdade, se você for pegar a grande maioria das pessoas, elas têm uma produção de ácido diminuída no estômago.

O refluxo ocorre, geralmente, por erro alimentar.

A gente tem um anel, um esfíncter que prende o final do esôfago, impedindo a volta do alimento do estômago para o esôfago.

O refluxo é isso: é a volta do alimento do estômago para o esôfago. O esôfago é um cano de uma só via: as células dele não são preparadas como as células do estômago para receber a volta desse conteúdo ácido.

Então, quando há a volta desse conteúdo ácido, esse ácido machuca a célula do esôfago, causando a famosa esofagite.

Independentemente do ácido que tiver no estômago, a volta desse conteúdo vai machucar — porque, seja pouco ácido ou muito ácido, o esôfago não é preparado para nenhuma quantidade de ácido.

E por que que as pessoas tomam o antiácido e melhora?

Porque aí elas tiram completamente o ácido.

O antiácido não trata a causa do refluxo.

Ele diminui a acidez do estômago — a ponto de que o conteúdo, quando retorna, não está mais ácido.

E, por não estar mais ácido, não causa dor. Porém o refluxo continua ocorrendo.

Alguns alimentos pioram o refluxo, seja porque eles vão relaxar esse esfíncter — como, por exemplo, pimenta, pimentão, pimenta de cheiro, não precisa arder para poder fazer voltar o refluxo. Para poder relaxar esse esfíncter.

A cafeína piora também.

Alimentos muito gordurosos — e aí, quando a gente fala em alimentos muito gordurosos, a população geralmente tem uma alimentação com produtos industrializados, e a maior parte dos produtos industrializados tem adição de gordura, de óleos vegetais, como por exemplo o óleo de soja.

Então, assim, não é a gordura animal presente na comida que vai piorar o refluxo.

Muitas vezes a gente retira esses alimentos industrializados, a gente retira essa ingesta de óleos vegetais, e isso por si só já melhora o refluxo.

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E uma coisa é o esfíncter relaxar, e por isso a comida voltar.

Outra coisa muito comum é a comida permanecer muito tempo no estômago e, por isso, essa comida subir. Fica mais fácil subir.

Quando eu tenho uma dieta muito rica em produtos industrializados, o que acontece?

Existem pessoas que têm sensibilidades alimentares. E os produtos industrializados geralmente têm o que? Têm soja, trigo, milho e leite, que são coisas que causam muita intolerância alimentar. Segundo o manual brasileiro de alergia, de alergologia, essas são as substâncias que mais causam alergias alimentares.

São as proteínas que são mais alergênicas, né. Soja, trigo, milho, leite, amendoim, clara do ovo.

Então, quando eu tenho uma alimentação que é basicamente soja, trigo e milho, isso gera essa intolerância alimentar.

E essa tolerância alimentar tem uma resposta inflamatória local, e com isso eu tenho um aumento da produção ácida, por conta dessa resposta inflamatória.

E com isso eu tenho a piora do refluxo.

Então, um dos mecanismos do refluxo na alimentação são as intolerâncias alimentares não diagnosticadas.

Uma vez que eu faço esse diagnóstico e retiro esses alimentos que eu sou mais intolerante, eu regularizo essa produção de ácido e diminuo os episódios de refluxo.

A gente já viu o mecanismo dos alimentos que soltam o esfíncter, os alimentos que geram as intolerâncias alimentares, e tem um outro mecanismo que é o aumento da pressão intra-abdominal.

Quando eu aumento, é como se eu tivesse espremendo uma bexiga, um balão, na base, e o ar sobe.

Então, se eu aumento a pressão dentro da minha barriga, eu forço o conteúdo do estômago a subir para o esôfago.

Uma forma fácil de entender isso, por exemplo, é a grávida.

A grávida, com o crescimento do útero gravídico, aquilo vai empurrando o estômago para cima, o que favorece que essa comida suba.

Existem intolerâncias alimentares, ou quando, por exemplo, a pessoa come uma comida que fermenta muito, que aumentam a produção de gás. E essa produção de gás aumenta a pressão dentro da barriga.

Esse aumento de pressão faz com que a comida tenda a subir.

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Os alimentos que são mais facilmente fermentáveis são os alimentos que são ricos em frutanos.

Por exemplo, os FODMAPs (fermentable oligo, di, monosaccharides and polyols). Quando você vai ver a lista de alimentos que fermentam, os alimentos industrializados, eles estão presentes na sua grande maioria.

Por exemplo, o trigo, ele é riquíssimo em frutano, que é um dos FODMAPs.

Você pega a sacarose, que é o açúcar de mesa, metade dela é frutose, que é um FODMAP também.

E esses alimentos que são fermentáveis, quando você os ingere, você vai gerar esse aumento de gás dentro da barriga e, com isso, favorecer o episódio do refluxo.

Então existem vários mecanismos em que a comida rica em grãos (que são fermentáveis, o trigo, o milho e a soja, por exemplo) piora o refluxo.

Quando você troca isso por uma alimentação mais densa nutricionalmente, com menos industrializados, em que há um favorecimento das boas bactérias, você diminui a fermentação, você diminui esses gases, o seu intestino começa a funcionar melhor…

Porque a constipação é outra coisa que também pode causar o refluxo, pode piorar o refluxo.

Então quando você começa a tratar disso, normalmente quando você começa a comer uma comida melhor, uma comida de verdade, você está adotando um estilo de vida mais saudável, você também começa a dormir melhor, e com isso você começa a aumentar a produção de ácido, que vai digerir melhor a comida e portanto vai fermentar menos no intestino.

Então, são vários fatores que levam a uma melhora do refluxo.

Geralmente, quem tá fazendo uma dieta vai diminuir a ingesta de álcool, vai diminuir o uso de cigarro, que também piora o refluxo.

Então, assim, começa a adotar vários outros hábitos saudáveis que, em conjunto, vão diminuir os sintomas do refluxo.

O refluxo é tratável e controlável na grande maioria dos casos com a mudança dessas medidas comportamentais.”

A não ser que haja uma alteração na anatomia normal da pessoa — por exemplo, existem pessoas que tem a famosa hérnia de hiato, que é uma alteração anatômica. Quem tem hérnia de hiato é mais propenso a ter refluxo.

E, nesses casos, pode ser que só a medida comportamental não resolva o refluxo.

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Mas, na grande maioria das vezes, quem muda esses comportamentos já apresenta uma melhora substancial da doença do refluxo gastroesofágico.

E uma coisa que eu sempre gosto de falar é a seguinte.

Existem pessoas, por exemplo, que são adeptas ao jejum intermitente, e que eles pulam o café da manhã, só fazem almoço e jantar.

Aí elas comem um volume muito grande de alimento à noite. Essa alimentação farta à noite não é favorável para quem já tem problema de refluxo.

Então, o ideal seria pular a janta e se alimentar melhor no café da manhã.

Outra coisa que pode melhorar muito é não ingerir bebidas (como a água), junto com a alimentação, junto com a comida, porque você vai distender mais o estômago, e com isso favorecer mais o refluxo.

Então quem tem refluxo deve evitar comer muito à noite, e evitar ingerir água junto com as refeições. 

E existem alguns fitoterápicos que podem ajudar — por exemplo, o gengibre.

O gengibre é excelente para melhorar esse esvaziamento gástrico. E, se você temperar a comida com gengibre, você pode melhorar os sintomas do refluxo.

A hortelã também tem esse poder — você pode colocar na comida, ou pode fazer chás com hortelã.

Eles também auxiliam para quem tem sintomas de refluxo.

E, quando a pessoa está muito sintomática — é claro, eu não recomendo a ninguém fazer automedicação — o ideal é procurar um médico para poder ver, para ver a necessidade fazer endoscopia, para ver se tem alguma feridinha, algum machucado no esôfago.

Mas, para quem tem um refluxo leve, medida comportamental e dieta vêm antes de tentar fazer algum tratamento com remédio.

E o remédio pode ser avaliado em alguns casos, mas é preciso o médico avaliar, principalmente se houver ferimentos no esôfago, aí sim pode ser necessário entrar com o antiácido.

Mas no primeiro momento, com certeza, o tratamento ele deve ser por meio da dieta e das mudanças de alguns hábitos de vida.


 

Para ler ou ouvir a entrevista completa, acesse: Podcast #072 – Tudo Sobre Estômago, Refluxo, Gastrite E Saúde Da Vesícula, Com A Dra. Ana Martha

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