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Do Caldo de Ossos à Posição de Cócoras: Hábitos Antigos Que Voltaram à Moda — Mas Eles Funcionam?

17 de Agosto de 2026 às 15:29
Senhor Tanquinho [email protected]
Mulher treina agachamentos para atingir a posição de cócoras em casa
Mulher treina agachamentos para atingir a posição de cócoras em casa (Crédito: Mart Production – Pexels)

Basta passar alguns minutos pelas redes sociais para encontrar uma ideia sedutora: talvez a solução para vários problemas modernos esteja simplesmente em voltar a fazer o que nossos antepassados faziam.

Tomar caldo preparado durante horas com ossos e cartilagens.

Passar mais tempo de cócoras em vez de ficar sentado em cadeiras.

Fazer jejum.

Andar descalço.

Tomar sol.

Dormir quando escurece.

À primeira vista, esse raciocínio tem algo de reconfortante. Em um mundo cheio de aplicativos, suplementos, alimentos ultraprocessados e rotinas cada vez mais sedentárias, parece razoável imaginar que certos hábitos antigos tenham alguma coisa a nos ensinar.

E provavelmente têm.

O problema começa quando uma prática deixa de ser apenas interessante ou plausível e passa a ser apresentada como solução comprovada simplesmente porque seria “ancestral”.

“Nossos antepassados faziam” pode ser uma pista para formular perguntas.

Não é uma resposta científica.

Afinal, seres humanos também viveram durante milhares de anos sem antibióticos, anestesia, saneamento moderno ou óculos. Antiguidade, por si só, não transforma um comportamento em recomendação de saúde.

Uma maneira mais inteligente de avaliar essas tendências é separar três coisas: o que parece biologicamente plausível, o que possui evidências razoáveis e o que ganhou uma camada de exagero na internet.

Dois exemplos mostram muito bem como essa análise funciona: o caldo de ossos e a posição de cócoras.

Os dois possuem características interessantes.

Os dois podem fazer parte de uma rotina saudável.

E nenhum deles precisa ser transformado em tratamento milagroso para ter algum valor.

O “ancestral” virou um poderoso argumento de marketing

Pense em como alguns hábitos são apresentados.

Não se diz apenas que determinado alimento é nutritivo. Diz-se que ele era consumido “há milhares de anos”.

Não se diz apenas que determinado movimento trabalha a mobilidade. Diz-se que “o corpo humano foi feito para isso”.

Essa narrativa funciona porque oferece uma história simples.

De um lado está o passado, associado a movimento, comida de verdade e uma vida supostamente mais natural.

Do outro está o presente, associado a cadeiras, telas, alimentos industrializados e doenças crônicas.

Existe um fundo de verdade em algumas dessas comparações. O sedentarismo moderno é um problema real, assim como uma alimentação baseada excessivamente em produtos ultraprocessados pode deixar de lado alimentos nutritivos.

Mas daí até concluir que um comportamento antigo é automaticamente superior existe um salto enorme.

Nossos antepassados não formavam um único grupo que comia da mesma maneira, sentava da mesma maneira ou mantinha os mesmos hábitos.

Eles viveram em ambientes muito diferentes, em períodos diferentes e com acesso a alimentos completamente distintos.

Além disso, sobrevivência e saúde ideal não são a mesma coisa.

Uma prática pode ter sido comum simplesmente porque era necessária ou porque não existia alternativa.

Por isso, sempre que aparecer a frase “o ser humano faz isso há milhares de anos”, vale acrescentar mentalmente:

“Interessante. E o que sabemos sobre os efeitos disso hoje?”

É aí que a conversa fica realmente útil.

Caldo de ossos: comida nutritiva ou elixir para pele, articulações e intestino?

O caldo feito com ossos não surgiu na era dos influenciadores digitais.

Preparações desse tipo fazem parte de diversas tradições culinárias. Cozinhar ossos, cartilagens, carnes e vegetais lentamente é uma maneira antiga de aproveitar ingredientes e criar caldos saborosos.

Nos últimos anos, porém, o caldo de ossos deixou de ser apenas uma preparação culinária e ganhou uma lista impressionante de promessas.

Melhorar a pele.

Fortalecer articulações.

“Selar” o intestino.

Diminuir inflamações.

Aumentar imunidade.

Fornecer grandes quantidades de colágeno e minerais.

É justamente aqui que precisamos separar plausibilidade de certeza.

O caldo pode conter gelatina, aminoácidos e minerais em quantidades que variam conforme os ingredientes, o tempo de preparo e a receita. Isso é perfeitamente plausível.

Também é verdade que estruturas como pele, cartilagens e ossos contêm colágeno.

Mas consumir um alimento derivado de tecidos ricos em colágeno não significa que aquele colágeno viajará diretamente para sua pele ou seu joelho.

Durante a digestão, proteínas são quebradas em peptídeos e aminoácidos, que passam a integrar o conjunto de matéria-prima disponível ao organismo.

Além disso, a quantidade desses aminoácidos no caldo pode variar muito. Uma análise de diferentes preparações de caldo de ossos encontrou concentrações bastante variáveis e, em geral, menores de aminoácidos ligados ao colágeno quando comparadas a uma dose de suplemento de colágeno usada como referência em pesquisas.

Isso não torna o caldo inútil.

Apenas coloca suas qualidades em perspectiva.

Ele pode ser uma comida saborosa, reconfortante e uma forma de aproveitar ingredientes. Dependendo da receita, pode contribuir com proteínas e outros nutrientes.

O que não temos é motivo suficiente para tratá-lo como uma espécie de medicamento líquido universal.

E a famosa história de que caldo de ossos “cura o intestino”?

Essa talvez seja uma das alegações que mais ajudaram a transformar o caldo de ossos em tendência.

Existe uma lógica por trás dela.

Determinados aminoácidos presentes em proteínas de origem animal participam de processos importantes no organismo, inclusive relacionados aos tecidos e à barreira intestinal.

Pesquisadores continuam investigando essa área. Uma revisão publicada em 2025 discutiu mecanismos pelos quais componentes encontrados no caldo poderiam contribuir para a integridade intestinal, mas também destacou uma área em que ainda há necessidade de estudos clínicos mais diretos. Grande parte da conversa envolve evidências sobre nutrientes e mecanismos, não a demonstração de que uma tigela de caldo seja capaz de tratar, sozinha, doenças intestinais em seres humanos.

Essa diferença é fundamental.

Uma coisa é dizer:

“Este alimento contém componentes biologicamente interessantes.”

Outra muito diferente é afirmar:

“Este alimento cura intestino permeável.”

A internet frequentemente atravessa essa distância em uma única frase.

E é assim que uma comida tradicional acaba recebendo responsabilidades que nenhuma comida deveria carregar sozinha.

Quem gosta de caldo pode consumi-lo como parte de uma alimentação variada.

Quem não gosta não precisa sentir que está perdendo um segredo ancestral de saúde.

Também vale lembrar que composição e qualidade dependem dos ingredientes utilizados e da preparação. Estudos já avaliaram inclusive a possibilidade de metais presentes nos ossos migrarem para determinados caldos, mostrando que a ideia de que tudo que é “natural” está automaticamente livre de questões de segurança também merece cautela.

De novo: isso não significa que uma panela de caldo seja perigosa.

Significa apenas que comida tradicional continua sendo comida — não uma substância mágica imune às mesmas perguntas que fazemos sobre qualquer outro alimento.

Ficar de cócoras: um movimento antigo que ainda faz sentido

Agora saímos da cozinha e vamos para o chão.

Se existe um hábito “ancestral” que chama atenção quando observamos diferentes culturas, é a capacidade de permanecer em uma posição agachada profunda.

Antes da popularização de cadeiras, sofás e vasos sanitários modernos, posições próximas às cócoras faziam parte de várias atividades cotidianas em muitas populações.

E, ao contrário de certas promessas alimentares, aqui existe algo bastante concreto para observar: ficar nessa posição realmente exige mobilidade.

Tornozelos precisam permitir dorsiflexão.

Joelhos precisam flexionar bastante.

Quadris também participam.

O tronco precisa se organizar para manter o equilíbrio.

Estudos biomecânicos mostram justamente que a execução de um agachamento profundo está relacionada à amplitude de movimento de articulações como tornozelos, joelhos e quadris.

Isso torna a posição interessante como movimento.

Se uma pessoa saudável consegue ficar de cócoras confortavelmente, ela está utilizando amplitudes articulares que talvez apareçam pouco em uma rotina passada quase inteira entre cadeira, carro e sofá.

Mas aqui surge novamente o risco do exagero.

Da constatação de que “a posição exige mobilidade”, algumas pessoas saltam para frases como:

“Todo mundo deveria ficar 30 minutos de cócoras por dia.”

“Se você não consegue, seu corpo está quebrado.”

“As cócoras resolvem dores nas costas.”

“Essa é a posição natural perfeita para o ser humano.”

Nenhuma dessas conclusões decorre automaticamente da primeira.

Uma posição pode ser útil sem precisar ser obrigatória.

Cócoras fazem bem aos joelhos ou fazem mal?

Essa é uma dúvida especialmente comum.

Durante muito tempo, agachamentos profundos foram vistos com desconfiança por algumas pessoas por colocarem o joelho em grande flexão.

Por outro lado, atualmente é possível encontrar o extremo oposto: conteúdos afirmando que todas as pessoas deveriam agachar profundamente e que qualquer desconforto é apenas falta de hábito.

Mais uma vez, os extremos atrapalham.

Uma revisão sobre o agachamento profundo publicada em 2024 analisou estudos relacionados às estruturas do joelho e concluiu que, em pessoas adequadamente preparadas e com técnica apropriada, o movimento profundo não parece ser automaticamente prejudicial às articulações.

Isso é bem diferente de dizer que todo joelho, em qualquer situação, deve tolerar imediatamente a posição máxima de cócoras.

Uma pessoa com boa mobilidade pode sentar profundamente nessa posição com conforto.

Outra pode ter limitações de tornozelo.

Outra pode sentir dor no joelho ou quadril.

Outra passou décadas sem utilizar aquela amplitude e simplesmente precisa de uma progressão gradual.

E alguém com uma lesão ou condição articular específica pode necessitar de avaliação e adaptações.

Dor forte não é um teste de força de vontade.

Se a ideia é recuperar a capacidade de agachar, muitas vezes faz mais sentido começar com apoio, trabalhar amplitudes confortáveis e evoluir aos poucos do que tentar imitar imediatamente alguém que consegue ficar dez minutos relaxado perto do chão.

Curiosamente, detalhes pequenos mudam bastante o movimento. Uma revisão de 2026 mostrou, por exemplo, que elevar os calcanhares altera a mecânica do agachamento e pode aumentar a amplitude observada em tornozelos e joelhos.

Ou seja, até algo aparentemente simples como “agachar” possui diversas variações.

E ir ao banheiro de cócoras? Aqui também existe nuance

Outro motivo para a posição ter voltado à moda é sua relação com a evacuação.

Banheiros de cócoras ainda são utilizados em diversas partes do mundo, enquanto o vaso sanitário sentado se tornou predominante em muitos países.

A posição corporal pode modificar a mecânica envolvida na evacuação, e pesquisas sugerem que posturas mais próximas do agachamento podem reduzir esforço e facilitar o esvaziamento para algumas pessoas.

Uma revisão de 2025 que reuniu estudos sobre posturas no vaso sanitário encontrou possíveis vantagens digestivas da posição agachada, incluindo menor esforço em determinadas situações. Ao mesmo tempo, os autores observaram que os resultados variam e que a posição sentada pode ser mais adequada para pessoas com limitações articulares, mobilidade reduzida ou outras necessidades.

É uma conclusão muito menos empolgante do que “todo mundo deveria abandonar o vaso sanitário”.

Mas provavelmente é muito mais útil.

Para algumas pessoas, apoiar os pés em um pequeno banco e aproximar os joelhos de uma posição mais elevada pode ser confortável — é o famoso banquinho de cócoras.

Para outras, isso não fará grande diferença.

E constipação persistente, dor, sangramento ou alterações importantes no hábito intestinal não deveriam ser tratados apenas mudando a postura no banheiro.

Um hábito simples pode ajudar.

Ele não substitui investigação quando existe um problema real.

Como avaliar qualquer moda “ancestral” sem cair no entusiasmo ou no cinismo

Talvez a parte mais interessante desses exemplos seja que você não precisa escolher entre dois extremos.

Não precisa acreditar que tudo que é ancestral é milagroso.

Também não precisa rejeitar qualquer prática antiga só porque virou tendência.

Existe um meio muito mais inteligente.

Quando encontrar uma recomendação desse tipo, faça algumas perguntas.

Primeiro: qual é a alegação exata?

“Caldo de ossos é nutritivo” é uma alegação.

“Caldo de ossos cura doenças intestinais” é outra completamente diferente.

Segundo: a evidência estuda aquela prática ou apenas um de seus componentes?

Um estudo sobre determinado aminoácido não prova automaticamente o mesmo efeito para uma tigela de caldo.

Terceiro: estamos falando de benefício possível ou de tratamento comprovado?

Essa diferença desaparece com frequência nas redes sociais.

Quarto: há algum custo, risco ou inconveniente?

Ficar alguns segundos de cócoras pode ser simples para uma pessoa e doloroso para outra.

Preparar caldo pode ser uma maneira gostosa de cozinhar, mas não precisa substituir alimentos importantes porque alguém prometeu resultados extraordinários.

Por fim: eu faria isso mesmo sem a história “ancestral”?

Essa pergunta é surpreendentemente boa.

Se você gosta do caldo, ele cabe na sua alimentação e funciona como uma preparação nutritiva, ótimo.

Se ficar alguns minutos numa posição agachada confortável ajuda você a movimentar mais o corpo, ótimo também.

Os benefícios não precisam de uma narrativa épica para serem válidos.

Conclusão E Palavras Finais

Existe algo fascinante nos hábitos antigos.

Eles nos lembram que saúde nem sempre depende de uma tecnologia nova, de um suplemento caro ou de uma rotina complicada.

Às vezes, cozinhar alimentos simples, movimentar o corpo em amplitudes variadas, caminhar mais e passar menos horas sentado realmente são ideias bastante sensatas.

Mas “antigo” não significa automaticamente “comprovado”.

O caldo de ossos é um ótimo exemplo.

Ele pode ser uma preparação saborosa, conter proteínas, gelatina, aminoácidos e minerais em quantidades variáveis e fazer parte de uma boa alimentação.

Isso não significa que exista evidência para todas as promessas de cura, rejuvenescimento e reparação intestinal atribuídas a ele.

A posição de cócoras também oferece uma lição parecida.

É um movimento que exige uma combinação interessante de mobilidade de tornozelos, joelhos e quadris e pode fazer parte da rotina de pessoas que conseguem realizá-lo confortavelmente.

Mas isso não significa que todo mundo precise permanecer agachado durante longos períodos ou que a posição seja uma solução universal para dores, problemas intestinais ou limitações de movimento.

Talvez a melhor maneira de recuperar hábitos do passado seja justamente deixar o romantismo de lado.

Podemos perguntar o que eles têm de interessante.

Podemos testar aquilo que é simples e seguro.

Podemos acompanhar o que a ciência consegue demonstrar.

E podemos abandonar tranquilamente as promessas que foram acrescentadas depois pela internet. 

Porque nossos antepassados podem oferecer boas perguntas. Mas, quando o assunto é saúde, a resposta precisa de algo além de nostalgia.