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Editorial

Acordo cada vez mais distante

O presidente francês, Emmanuel Macron, sepultou todo e qualquer otimismo do governo brasileiro em fechar o acordo agora

04 de Dezembro de 2023 às 23:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
Presidente da França Emmanuel Macron
Presidente da França Emmanuel Macron (Crédito: AFP)

O tão sonhado acordo entre o Mercosul e a União Europeia está cada vez mais distante. As duas partes não se entendem e a esperança que tudo fosse definido esta semana, antes da posse do novo presidente da Argentina, caiu por terra.

A negociação sempre foi muito difícil, os europeus a cada avanço impunham novas restrições e exigências. O que era para se tornar uma relação de ganha-ganha estava ficando cada vez mais favorável aos representantes do Velho Continente, que insistem em tratar as antigas colônias como nações subalternas.

Mesmo assim, o governo brasileiro, ao contrário de outros países do Mercosul, insistia em finalizar o acordo mesmo em situação adversa. O importante era tentar demonstrar a nossa capacidade internacional de criar parcerias, por pior que fossem para o futuro do País.

O problema é que um movimento contrário começou a surgir na própria base de apoio do Governo Lula. Os sindicatos iniciaram uma forte pressão para que o Brasil desistisse das negociações. Segundo essas entidades, muito ouvidas pelo atual presidente, não haveria vantagens para os trabalhadores brasileiros e o País corria o risco e ver sua indústria ainda mais enfraquecida. Apesar desses protestos, Lula chegou a afirmar, na sexta-feira, 1º, através de publicação numa rede social, que o Mercosul e União Europeia estavam perto de fechar o acordo. O que não se sabe, até agora, é se ele estava desinformado ou jogando para a torcida. A declaração dele foi desmentida horas depois.

Para que o acordo seja fechado deve haver unanimidade entre os participantes em aceitar a proposta. Uruguai e França já demonstraram estar muito pouco interessados na continuidade das negociações.

No sábado, 2, o presidente francês, Emmanuel Macron, sepultou todo e qualquer otimismo do governo brasileiro em fechar o acordo agora. Ele declarou em Dubai, onde se encontrou com Lula, que virá ao Brasil em março do ano que vem para discutir pontos que ainda considera frágeis no acordo. Para Macron, o pacto “não considera a biodiversidade e o clima” e se reduz a um acordo “mal emendado”. A verdade é que o presidente francês sofre pressão principalmente do setor da agricultura. Os produtores de lá sabem que esse acordo acabará com as chances deles de competir no mercado. Não há como pequenas áreas de cultivo, que só conseguem tirar do solo uma safra por ano, possam enfrentar as grandes extensões de terras produtivas no Brasil. Além do ganho em escala, o clima do país permite que se tire duas ou até três safras num único ano. Seria devastador para os franceses aceitar um acordo como o que está sendo proposto. Para se defender dessa desigualdade, eles apostam em argumentos ligados à proteção da natureza, só que o que querem mesmo é garantir seu quinhão na venda de sua produção.

Lula reagiu mal ao discurso de Macron. Chamou a França de protecionista e que o país não representa o pensamento da União Europeia. O problema é que sem a adesão da França, o acordo não vai caminhar.

O atual chanceler da Argentina, que deixa o cargo no fim de semana, reconhece essa estratégia dos europeus. Santiago Cafiero disse que as novas regras ambientais adotadas pela UE em 2019 vão impor “maiores custos e restrições para as exportações do Mercosul de alimentos e outros produtos” e acabaram se tornando um grande obstáculo para as negociações. Segundo Cafiero, “as negociações continuarão e há muito trabalho realizado, mas não estão reunidas as condições para assinar o acordo”.

Essa janela de oportunidade se fecha ainda mais com a posse de Javier Milei que, por várias vezes, já se posicionou contrariamente a esse acordo. Com o início do mandato dele, no domingo, dia 10, a possibilidade de as negociações prosperarem fica ainda mais remota.