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Editorial

A bola de neve do crédito rotativo

Juros médios nessa modalidade superaram os 437% ao ano, mas instituições chegam a cobrar quase 1.000%

11 de Agosto de 2023 às 23:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
Rotativo dos cartões de crédito é o vilão do consumidor
Rotativo dos cartões de crédito é o vilão do consumidor (Crédito: FÁBIO ROGÉRIO / ARQUIVO JCS)

Fábio Rogério / Arquivo JCS


Desde o início do ano e do novo governo, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, sempre foi uma das figuras mais atacadas por Lula e seus aliados do Partido dos Trabalhadores. Com a segurança de um mandato com tempo definido e com a previsão, em lei, da independência do BC, Campos Neto várias vezes contrariou as vontades populistas de Lula e segurou a taxa de juros por tempo suficiente para que o Brasil conseguisse controlar a inflação e se manter equilibrado no cenário financeiro global.

Agora, em agosto, quando foi voto decisivo para a queda da taxa Selic, Campos Neto tirou de suas costas boa parte da pressão que sofreu nos primeiros seis meses do ano. Nem a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária, o Copom, que esclarece a ausência de cenário propício para cortes mais radicais nos juros, foi suficiente para quebrar a boa relação conquistada junto ao governo.

Livre para falar e para pensar, Campos Neto entusiasmou-se e acabou falando o que não devia. O presidente do Banco Central afirmou a senadores, na quinta-feira, 10, que o crédito rotativo no cartão de crédito deve ser extinto. Segundo ele, o grupo de trabalho formado por BC, Ministério da Fazenda e bancos para analisar o tema deve apresentar, nos próximos 90 dias, uma solução no âmbito do Conselho Monetário Nacional (CMN).

A reação do sistema financeiro à declaração foi imediata. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) disse que até trabalha para encontrar uma solução que beneficie a população e que nesse estudo “pode incluir o fim do crédito rotativo e um redesenho das compras parceladas no cartão”. A entidade também afirmou que “deve haver o reequilíbrio” no sistema de parcelamento das compras no país e não simplesmente a extinção de algo que é utilizado há muito tempo.

Segundo a entidade, “deve haver o reequilíbrio da grande distorção que só o Brasil tem, com 75% das compras feitas com parcelado sem juros”. “Com base nessas premissas, a Febraban busca uma solução construtiva que passe por uma transição sem rupturas, que pode incluir o fim do crédito rotativo e um redesenho das compras parceladas no cartão”, afirma a federação.

O uso do rotativo do cartão de crédito -- linha de financiamento mais cara do país e amplamente difundida entre a população de menor renda -- mais do que dobrou nos últimos três anos. A concessão cresceu 108% no período entre junho de 2020 e o mesmo mês de 2023, quando alcançou R$ 30,2 bilhões, segundo dados do próprio Banco Central (BC). Os juros médios nessa modalidade superaram os 437% ao ano (dados de junho), mas instituições chegam a cobrar quase 1.000%, segundo o BC.

O problema é que quando o consumidor cai nessa armadilha, dificilmente consegue recuperar-se. A bola de neve só vai aumentando e as dívidas tornam-se impagáveis. Nesse cenário, a inadimplência alcançou o recorde de 53% em maio, depois recuou levemente e, agora, está em 49%. Essa situação incomodou o governo que começou a pressionar por uma solução e o assunto entrou na mesa de discussão tanto do ministério da Fazenda como do Banco Central.

A precipitação de Campos Neto, ao falar sobre o assunto e anunciar a extinção do crédito rotativo, irritou muita gente. Ele mesmo, em palestra na sexta-feira, 11, disse que tomou um “puxão de orelha”. Mesmo assim, confirmou que se nada for feito para solucionar o problema, muito em breve, vamos assistir a um colapso no segmento das empresas de cartão de crédito.

As entidades ligadas ao varejo temem que uma mudança muito radical nas regras do parcelamento possa desestimular o consumidor e afetar o volume atual de vendas, que começa a sinalizar uma fase de recuperação.

O crédito rotativo é um tipo de operação oferecida ao consumidor quando ele não faz o pagamento total da fatura do cartão até o vencimento. O exemplo mais comum é a quitação do chamado valor mínimo. O rotativo, porém, passa a valer quando o consumidor paga qualquer quantia que não seja o valor integral.

Qualquer que seja a solução encontrada, ela vai ter de passar ainda por muita negociação. É salutar a busca por uma oferta de crédito mais vantajosa para a população, mas o que se tem de ter em mente é a necessidade de cada um gastar somente aquilo que arrecada. Com uma boa educação financeira, o problema nem estaria em discussão. Isso vale para o cidadão e também para o governo que, vira e mexe, faz dívidas que não consegue pagar com o que arrecada.