Entrevista: Marco Padim, a arte dos sabores

Por Manuel Garcia

“Adoro valorizar os insumos locais e regionais. Adoro também a sustentabilidade, quando crio uma bebida procuro pensar em tudo: faço um grande estudo e treino muito as misturas antes”. Crédito da foto: Divulgação / Eimagec

O sorocabano Marco Padim. Crédito da foto: Divulgação / Eimagec

A arte de criar e fazer drinques é um talento que poucos dominam, apenas barmans, bartenders e alguns curiosos. Numa festa, o bar é sempre o espaço mais movimentado e frequentado pelos convidados. A palavra barman (feminino barmaid) é uma palavra inglesa que significa “homem do bar”, e se refere ao profissional que trabalha em estabelecimentos servindo coquetéis (com bebidas alcoólicas ou não) aos seus clientes, mais frequentemente em bares e eventos.

O barman é um artista que usa da coquetelaria uma forma de distribuir sorrisos e boa energia, por meio da interação com o seu público. Tem a missão de oferecer os melhores drinques enquanto conquista novos amigos. Conhecer drinques em geral, maneiras de fazê-los, tipos de bebidas, a forma correta de utilizar as frutas, o jeito certo de cortar o limão, por exemplo, e entender os diferentes tipos de cachaças. Tudo isso é importante para que a bebida não fique azeda ou amarga. Esses conhecimentos influenciam na qualidade e no preparo do que o cliente pede para beber.

O sorocabano Marco Padim, de 36 anos, está entre os dez melhores bartenders do Brasil. O jovem trocou uma solida carreira no mercado bancário para ganhar a vida com aquilo que sempre lhe deu prazer: o mundo dos drinques. Padim é finalista da etapa brasileira do World Class Competition, maior campeonato de coquetelaria do mundo, que é realizado desde 2009 e hoje está presente em mais de 60 países. A coluna Presença foi bater um papo com este sorocabano que é um fenômeno na alquimia das bebidas.

Onde você nasceu?

Eu nasci em Sorocaba e passei a maior parte da minha vida na região da Vila Carvalho, próximo ao Cemitério da Saudade. Me formei em publicidade e fiz curso técnico de comércio exterior. Quando estava no meio da faculdade, entrei como funcionário no Banco do Brasil.

E como o bar entrou no na sua vida?

Eu não estava me sentindo legal trabalhando no banco, eu via meus colegas de trabalho sempre doentes e trabalhando estressados. Não me sentia feliz ali e sempre gostei de cultura, sempre gostei de música e larguei o banco para trabalhar com produção cultural. Minha família e meus amigos me acharam louco, mas eu queria me encontrar como pessoa, não queria aquela vida de banco pra mim. O bar entrou na minha vida por acaso, trabalhando com os eventos culturais de nossa cidade. Surgiu meio que naturalmente, até que um dia o proprietário de uma casa noturna chegou e falou que estava precisando de um bartender. Eu aceitei, desde que fosse por pouco tempo, pois, na época, estava precisando de dinheiro. Este pouco tempo já dura 10 anos, pois fui me encantando por este universo.

Existe alguma medida padrão ou maneira específica para obter o drinque perfeito?

Olha, a maneira de conseguir isso é fazer com amor. A principal dica é você preparar por gostar de fazer aquilo. Essa questão das medidas vai muito do gosto de cada pessoa. Se você gosta de um drinque mais forte ou mais leve, você pode utilizar bebidas com teor alcoólico diferente uma da outra: uma vodca, um uísque, uma cachaça.

Quais drinques costumam fazer mais sucesso?

Caipirinhas e caipifrutas. Temos uma saída muito boa desses drinques e a dica é fazer com diferentes tipos de cachaças. A destilada ou a envelhecida, que são fabricadas de maneira diferente uma da outra, mudam o sabor da bebida.

Dá para fazer drinques em casa ou é complicado?

Sim, é superfácil, basta ter amor e se atentar a alguns pontos simples, como ter cuidado com o teor alcoólico, para não ficar tão forte. E, também, não misturar tanta coisa diferente que possa ofuscar o sabor da fruta ou o principal elemento utilizado.

O que não pode faltar em uma boa bebida?

Carinho e atenção aos detalhes não podem faltar para uma boa bebida. Com carinho e atenção, não precisa nem de insumos muitos caros. Basta ter vontade e disposição para fazer e aprender.

Como está sendo a pandemia para você?

O setor de entretenimento é um setor que foi o primeiro a fechar, estamos sofrendo demais. A antiga casa em que eu trabalhava fechou as portas. Tive a sorte de conseguir ser recolocado no mercado de trabalho, fui privilegiado, mas tenho muitos colegas que não conseguiram esta recolocação e estão passando dificuldades. Espero muito que a vacina chegue logo a todos e que possamos reabrir este setor do entretenimento que tanto movimenta a economia.

Como você imagina que vai ser a retomada do setor?

Eu acho que, entre tantas dificuldades, a pandemia nos trouxe aprendizados. A pandemia nos ensinou a trabalhar mais o digital, o delivery, e as medidas de higiene que foram impostas por conta da Covid vão continuar. O álcool em gel não vai sumir das mesas e nem das bancadas dos bares. Acredito que quando pudermos abrir o setor, vai ter uma aquecida, as pessoas gostam do carinho, gostam de estar juntos com amigos em uma mesa, saboreando um bom drinque. E eu, como bartender, amo acolher as pessoas e servir. Escolhi isto para minha vida e quero continuar levando alegria a todos. Espero que isto seja logo.

Para ser um bartender de sucesso é preciso muito estudo?

O grande lance de estudar é entender o mapa do sabor: tem sabores que são próximos, que se completam; e existem sabores opostos também. Uma coisa legal é que, às vezes, uso o sal em certas bebidas e nem por isto ela fica salgada. Ser bartender demanda muito estudo, muita leitura, muita técnica, curiosidade e, principalmente, carinho. Quando comecei, era muito difícil, pois não havia tanta informação assim, como temos hoje em dia, ainda mais aqui no interior.

De quais concursos você já participou?

Hoje eu sou finalista do Word Class, que é considerado o maior concurso de coquetelaria do mundo, presente em mais de 60 países. Também fui um dos 10 finalistas do Bacardi Legacy, em 2018; e vice-campeão do Draco Legends, que é um concurso voltado para o interior de São Paulo. Quando comecei, nem imaginava que ia chegar um dia a competir em concursos tão importantes, me sinto muito feliz e realizado em representar Sorocaba. Quero muito trazer este título para Sorocaba. A final do concurso deve ser no final de abril, porém tudo está meio incerto por conta da pandemia.

“Adoro valorizar os insumos locais e regionais. Adoro também a sustentabilidade, quando crio uma bebida procuro pensar em tudo: faço um grande estudo e treino muito as misturas antes”. Crédito da foto: Divulgação / Eimagec